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11/05/23

O Monumento



Os donos do condomínio não sabiam o que fazer com a área abandonada onde antes havia um triste conjunto de brinquedões de ferro, onde era o "parquinho" do prédio. Entendo que esse "parquinho" era tão desinteressante e imprático, que era quase conceitual. Nunca vi nele uma criança sequer. Mas não bastasse isso, mandaram retirar os brinquedos. Agora, restava apenas uma demarcação, uma forma geométrica realizada, sem nenhuma função prática, nem para um humano nem para a vida, já que a área era completamente estéril. Seu contorno era uma mureta baixa e, sobre a área de cimento, uma cobertura de quase meio metro de pedras de calcário. A extensão era de aproximados 90 metros quadrados. Sem nada além de pedregulhos ásperos e cimento.

A área formava uma espécie de grande retângulo com uma boca, uma saliência. Aquilo, disposto daquela maneira tão despropositada e, ao mesmo tempo, tão calculada, era fonte de um sentimento singular. Bizarrice, estranheza, angústia, secura, um híbrido desses.

Mesmo quando existia ali o conjunto de escorregador, trepa-trepa e outras três estruturas de ferro que não sei nomear, o lugar já me causava um impacto que posso chamar de estético. Ignorá-lo era difícil. Com frequência me percebia atento a ele quando me apoiava na janela do meu apartamento ou quando me sentava no jardim do prédio para fumar. Talvez pelo exagero e magnitude com que aquela nulidade tinha sido construída, talvez por não conseguir imaginar facilmente crianças reais se divertindo num espaço tão agressivo. Mas esse parquinho havia, sim, sido projetado e construído. Então, pelo menos, aquele projeto fez sentir ou fez sentido para alguém, por menor que tenha sido esse momento. Por mais que apenas um apêndice técnico da competência de um arquiteto medíocre... a mínima intenção era mais que o nada. Agora, nem parquinho, não. Jamais pensei que o nada pudesse se materializar em existência.

Aquilo claramente não significava nada, não suscitava nenhum prazer e não despertaria interesse a nenhuma consciência. Mas era justamente essa qualidade negativa, de uma espessa inutilidade concretizada... Enfim, desde há muito tempo acredito que a existência física desse lugar era como a fala em associação livre deste mundo, revelando algo de patológico, perverso ou inescrutável. Um sintoma. Mas o que há de anormal no inútil?

Que isso exista... É realmente uma forma bizarra da natureza. Não apenas o frame atual, mas a somatória de todos os estágios que levaram a esse resultado arquitetônico. A mobilização massiva de mão de obra e matéria, a desimportância com que alguém projeta um condomínio, a apatia com relação à morada de outros seres-humanos ignorada em favor da recompensa salarial. Um lugar daquele tamanho e densidade, mobilizador da matéria de lugares tantos e distantes, tem toda sua existência delegada pelo estímulo apático do... demasiadamente humano? Aquela área inteira nasceu do afazer rotineiro de um projetista qualquer, meramente perseguindo o seu poder de consumo. Um jogo mecânico, um arranjo de técnicas, um programa. Essa sequência de eventos era também a concretização do inútil, do irracional em sua forma mais forçada. Sintoma social da obsessão financeira? Marco histórico da vitória ontológica do abstrato? Que ordem estranha de acontecimentos! Que arranjo tão imprevisivelmente ordenado onde reside tão pouca imprevisibilidade! Que argumento ferrenho para provar um ponto tão adimensional.

Não que o entorno - o prédio, o bairro, a própria cidade de São Paulo - já não representasse todas essas impressões, pois sim, já o faz e todos os dias. O entorno tão enorme da cidade. Imagino quão expoencialmente maior será o deslocamento material e laborioso de uma cidade inteira. Assustador. Mas por algum motivo peculiar, aquele recorte específico do tempo-espaço, aquela bacia estúpida de cimento forrado de calcário quebrado emanava algo de irresistível aos meus sentidos. Algo de um mistério tão patentemente anti-natural. A falta de características próprias combinada com o número pequeno de características tão específicas era um fenômeno já quase fascinante e há muito tempo incômodo. Penso nos organismos das árvores próximas, dos pássaros que ali pousam. Esse aparente contraste de coisas que pareceriam tão opostas, ainda assim coexistindo sem grandes alvoroços. Sem que isso significasse qualquer ruptura ou conflito. É mesmo muito estranho se deparar com os desafios que o ser humano impõe à natureza, talvez porque assim se faz notar que não há desafios e que não há Natureza.



____

Tais quadros continuariam a ser pintados na minha mente eternamente e com a mesma paleta de cores se não fosse a vez que, ao reiniciar minha rotina de observação daquele espaço, minha percepção trouxe à consciência traços de uma diferença. Algo ali era outro. Comprimindo os olhos com espanto, dava-me conta das incalculáveis horas que havia passado naquela sutil e inútil obsessão, e me enjoava um pouco. Era provável que eu estivesse testemunhando a minha insanidade. Mas, ao testar novamente a visão, ficou ainda mais evidente a diferença. Como ressalva, pensei se tratar dum engano visual trivial. Distante, na janela do oitavo andar, era natural que não fosse detalhada aquela visão; dali, o "parquinho" não passava de um retângulo preenchido por uma textura formada de tons de cinza-cimento. Enfim, a luz era de fim de tarde, e a sombra era uma presença objetiva. Então, avancei meu corpo sobre o parapeito, mais pra fora da janela, afim de ter um ângulo melhor. Para minha surpresa, a diferença tornava-se ainda mais evidente, de modo que já apreendia uma certa coloração verde, que se insinuava de modo bastante esparso ao longo da área. O cinza e o verde ora se fundiam, ora se mostravam destacados um do outro: fundo cinza, pontos verdes.

O enjôo continuava, e parecia significar um medo da possibilidade do delírio. Talvez por um mecanismo incorporado de hábito, talvez por um desejo incontrolável de transformação, eu continuava observando aquele nada. Alguns fitam paredes, certo? Porque eu continuava fitando aquela insignificância? O medo se ligava à possibilidade de que eu estivesse perdendo a minha percepção para um outro Eu, mais livre e muito menos próximo da realidade, capaz de transpor as barreiras do interior e do exterior, imputando colorações nas coisas baças. Uma espécie de miragem. Mas eu não estava com sede nem mal alimentado.

A consciência tomou pela força meus nervos, meu cérebro, meu pensamento, e os fundiu numa mente que afirmava de modo senhorial: isto é apenas uma ilusão. Um engano. Devo me desvencilhar imediatamente deste vício e voltar-me para aquele cotidiano em que eu não precisava sentir sede ou ficar mal alimentado, o cotidiano de uma pessoa saudável, sã, que não se verga na janela do oitavo andar atrás de fenômenos nulos. Décadas vivendo num deserto de concreto me haviam implantado uma consciência cética que apaga sistematicamente as aparições inconclusivas que a vida nos concede.

Assim, imediatamente, os pontos verdes começaram a desaparecer e o pequeno reino de cimento e calcário assumia seu aspecto normal. O cinza, com toda sua esterilidade, retomava o território. Ora, não era isso que eu queria? Não. Aparentemente, com esse retorno triunfal da normalidade, o esforço que minha consciência fazia para sanar a situação, que já era limítrofe, se tornou insuficiente, e eu já não conseguia mais interditar aquele outro Eu que via outra coisa, que desejava ver outra coisa, que precisava ver outra coisa. Ao perceber que minha consciência tinha destruído a miragem, um medo ainda maior do que aquele medo da insanidade, um medo da morte, se apossou de mim. Eu não podia deixar escapar aquele verdume tão ousado que por um instante fez tremer o regime de nulidade que até então explorava meu ócio. Não tive nem tempo de me espantar com tão brusca tergiversação e, quando olhei novamente para o térreo, procurando a área verde-cinza, percebi que estava a ponto de tombar para fora da janela. Assustado, recuei com tanta brutalidade que ralei minha barriga no parapeito. A dor que ali senti expressava a agonística que eu abrigava: minha consciência e meu desejo lutavam.

O ritmo da minha respiração destoava da banalidade do ambiente e da situação real em que me encontrava. Eu estava na sala do meu apartamento, entre o sofá e a televisão, ofegando. Ignorando os clamores da consciência, murmúrios abafados que provavelmente me colocariam para perceber a normalidade da situação, decidi que precisava descer até o térreo e verificar, de perto, a verdade daquele verde.

O percurso começava ali, na sala, entre a mobília, passaria pelo hall de espera do elevador e terminaria atravessando as dependências do prédio até o parquinho. Nenhum caminho poderia ser mais bem pavimentado e livre de surpresas. A nítida definição dos objetos que me cercavam, sua imobilidade e desinteresse, atestavam a minha sanidade, excluíam a possibilidade de delírio, mas, ao mesmo tempo, aumentavam a urgência que me levava. Nada era anormal e justamente a experiência dessa sobriedade, a percepção tão segura das coisas, me trazia um medo de que, talvez, não houvesse nenhuma diferença. Entre as coisas, entre o que passou e o que se passa, entre mim e aquele amontoado de cimento e pedras de calcário que gritavam o vazio. Não a ideia do vazio, mas o vazio meticulosamente construído, materializado, desenvolvido, tecnologicamente fabricado, resultante de milênios de civilização, que acabaria por encerrar a História. As paredes, o piso, o botão do elevador, o seu interior, minhas próprias mãos, enfim, tudo era insuportavelmente artificial. E a facilidade que esse artifício trazia apenas reduzia a fricção entre o ponto A e o ponto B do meu percurso. Absolutamente nada mais do que isso. Então, só restava saber se aquela diferença que avistei no ex-parquinho, seja real ou não, tinha duração suficiente para que eu pudesse avistá-la de novo, de perto, e aliviar meu espírito.

As dependências do térreo são decoradas com móveis que ninguém utiliza, com poltronas "de espera" nas quais ninguém nunca sentou, com samambaias artificiais, quadros de doação da família do síndico, esse tipo de arranjo que, na tentativa de trazer hospitalidade para o ambiente, acaba explicitando a inconveniência que seria sentar-se ali. E era tudo muito explítico, muito obsceno, de uma proximidade tão pertubadora, que passei a correr em direção ao ex-parquinho.

Sob a luz morna de um entardecer branco, lá estava ela, aquela demarcação. O muro de meio metro formava um grande polígono, suavemente irregular, de cinco lados, num dos quais havia uma abertura, por onde algumas pedras de calcário escapavam. Talvez alguém, alguma criança, tenha entrado ali, corrido, mudando ligeiramente a disposição das pedras, de modo que, ao sair, algumas foram chutadas pra fora da área. Notei que não havia nada de especial nas pedras, mas segui até a entrada. A primeira visão da área também não trouxe consigo nenhuma diferença. Calcário e cimento. Avancei dois passos sobre os pedregulhos, observando o lugar com uma espécie de psiquismo ativo. Eu já não procurava nada. Naquele momento, já sabia que não se tratava de encontrar uma diferença, mas de fazê-la surgir pelo ímpeto que nascia da minha incredulidade. Minha cabeça doía, como se meu cérebro estivesse inchando. Caminhei obstinado, mas sem direção, ao longo do parquinho, enquanto escutava o som dos meus passos fazendo gritar a aspereza das pedras, o contado das pedras com as pedras, o atrito das pedras com o chão. Queria o ângulo derradeiro, que me faria vencedor e, como eram quase noventa metros quadrados de homogeneidade, seria preciso fazer uma obstinada varredura para encontrá-lo. Percorri zigue-zagues e rabisquei aleatoriamente aquela área, mas o traço de meu percurso era tão sutil que chegava ao imperceptível. Não fazia nenhuma diferença. Subi no pequeno muro, para testar um ângulo de visão mais englobante, e nada. Meu rosto estava contraído de frustração. Agachei-me, pus as mãos sobre as pedras, peguei um punhado e senti, com voluptuosidade, sua textura. Não havia absolutamente nada ali. Mas, a decepção era tão grande, e me senti tão envergonhado diante de minha consciência, que subitamente esvaíram-se todos os meus impulsos, mesmo os mais mecânicos, e me larguei como um saco sobre aquele calcário, apenas para constatar que ele não estava nem quente, nem frio.



_____

Esse incidente produziu algum efeito sobre mim, não posso negar. Mas não passou de um momento de liberdade que me permiti, tentando imputar sobre a realidade uma loucura minha que, ao que parece, não existe de fato. Depois de ter ficado algum tempo largado sobre o calcário, voltei e retomei o cotidiano. A mudança foi pequena, mas real. Percebi que não era prudente perder tempo com nulidades, observando a insignificância daquela área do meu prédio. Afinal, nada ali era substancialmente diferente do entorno, da cidade de São Paulo e seus inumeráveis vazios concretizados. Contudo, devo confessar que, de vez em quando, ainda me pego olhando pela janela, naquele mesmo ângulo, na mesma hora do dia, esperando me surpreender, novamente, com alguma diferença.


23/12/21

o sonho do autômato

liberdade é uma questão de escolha.
essa frase é um absurdo e se refere precisamente à realidade.
não se pode ser livre sem que a liberdade esteja possibilitada antes.
você não pode conquistar a liberdade porque a conquista é um modo de agir.
penso que agir implica uma fagulha de não-determinação ou, no mínimo, uma contra-determinação.
ao menos é nessa direção que o sentido da palavra aponta.
então há um paradoxo: ter de conquistar a liberdade é não tê-la.
não ter liberdade é impossibilidade de agir e, portanto, de conquistar.
parece uma rua sem saída.
por outro lado, parece um deserto.


por liberdade entende-se a ausência de impedimentos externos, que tiram o poder
de se fazer o que se quer*
de se pensar o que se quer
de ser o que se quer
enfim de realizar

nesse sentido, liberdade é apenas desejo
mas o desejo de comer dá em liberdade?
matar a fome é libertar-se?

um animal, entendido como um ser de instintos, pode fazer o que deseja
um autômato, entendido como um animal artificial, pode fazer o que deseja seu artífice
contudo estas potências
são liberdades paupérrimas
são potências mínimas

quando pautamos a liberdade humana, não é de potências mínimas que falamos
não é da potência do autômato porque
por mais complexo ou extraordinário que seja seu ato
por mais articulações que movimente
nada que faz escapa
de uma determinação

(a não ser que a falha,
o atrito,
o curto-circuito,
sejam feitos
ou contra-determinações)

a liberdade humana é mais
do que poder matar a fome
mais do que poder comprar iPhone
porque essas potências
são potências do animal
e do autômato

nossa pauta é uma potência maior
que a do ser de instintos
que a do ser autômato
por mais sofisticados seus cálculos
tecnológicas suas atividades
por mais delicadas suas articulações
caprichosas suas vontades
não escapa a uma determinação
um robô pode tudo isso

só é livre o artífice:
o que determina a potência do animal

pensou-se que era deus
pensou-se que era a razão universal
hoje pensamos
que é o capital

Klimt





*Thomas Hobbes, "O Leviatã"

31/08/21

na sociedade do controle: o deus micro-chip

 


O silício é a nova onda. Todo mundo está atrás desse hype. O micro-chip como objeto-símbolo da glória. O sucesso. “Trabalhai com o silício e poderás reduzir infinitamente o tempo entre o objetivo e o resultado.” Foi isto que a vida me ensinou. Você consegue imaginar? Imediatamente, querer e conseguir! Isso não seria a experiência de dEUs?

Mas eu não me sinto assim. Meus amigos estão se suicidando e os que não conheço de perto estão sendo assassinados por suicidas. O tempo de fato se reduz, mas não para de ficar menor. Então, essa glória de silício… Pra quem ela funciona? Talvez estejamos redescobrindo que o ser humano foi mesmo uma invenção divina. Cordeirinhos lógicos.

⊗

Deus quer e deus faz acontecer. Ele vai descer à Terra, gozar de existência sólida, incorporar-se, sem por isso deixar que as dificuldades da matéria impeçam o livre exercício de sua existência divina. Ele descerá e continuará onipotente. Mas qual será o corpo que assumirá? Nós, o pessoal do círculo de profanos sabotadores, ficamos sabendo que a glória do silício está reservada para um avatar não-humano. O paraíso sobre a Terra está próximo, muito próximo de acontecer. Mas nós não vamos experienciar isto, porque está para além dos sentidos, como já foi repetido tantas vezes.

É possível, no entanto, ter um vislumbre. Vocês já devem ter visto as imagens aéreas da cidade e das zonas rurais. (O satélite tem a visão dos anjos, porque pode ver os movimentos de deus na Terra.) Sim, você está vendo um grande chip. Tudo está medido, toda a superfície terrestre, esquadrinhada. Não há mais um “fora”. Agora falta apenas trabalhar os sólidos que ainda apresentam alguma irregularidade. Aos poucos tudo vai assumindo a forma de uma plano cartesiano bidimensional. A altura? É apenas a possibilidade de se empilharem os planos. Você pensava que a imagem de deus fosse uma coisa mais bela, não é mesmo?

Podemos perceber que tudo é uma questão de asfaltar, de se expandirem as vias, de se multiplicarem – controladamente – os canais por onde passa a energia. Que energia? Ora, são os elétrons, finalmente controlados. Após dois milênios de domesticação da Terra, o impulso elétrico, o sutil, a primeira densificação material da energia, está controlado. Graças ao trabalho de bilhões de pessoas ao longo dos séculos. Mas vejam, isto já era novidade no século XX. A onda agora é controlar a energia em seu estado ainda imaterial, para que ela também possa ser canalizada pelas vias do silício. Estou falando do desejo. Sim, o impulso, o querer, a vontade, dê o nome que quiser, é essa dimensão imaterial que está se conseguindo canalizar. Fora isto não haverá mais nada.

Então a cena aí, para contemplarmos. O chip como modo de existência se materializando. Exemplo: a cidade. Ela é também um corpo binário, de vias e chaves. Vias por onde passamos – sem escolha, pois sempre há a smartness de um phone para nos fornecer o caminho mais rápido. O objetivo é chegar o mais rápido possível num lugar e ativar sua função, chavinha no ON. Entretenimento, trabalho. Ativa-se, cumpre-se o objetivo, desativa-se. Chavinha no OFF. A vida para nós humanos parece ter sido reduzida ao grau mínimo do movimento, o binarismo da diferença: o zero/um. Tudo é uma questão de verdadeiro ou falso. “Meu amigo: ou você está dentro da identidade que eu construí com as informações dadas, ou você simplesmente não existe. Não tem erro.” É isso que pensamos quando olhamos no espelho – seja ele opaco ou transparente.  Sim, para nós humanos não há muita liberdade, onipotência, porque nós somos apenas os peões, os elétrons.

– Zero / um. Ou se está na unidade, onde todo o universo está pleno, preenchido de sentido, sem sobras, sem espaço para criação; ou se está no absoluto vazio, na completa falta de sentido, existência sentida como pura destruição, pura morte.
– Ora, mas isto é um exagero! É possível vivenciar o meio! Estamos certos de que vivemos o meio como algo real.
-Evidentemente ainda existem nuances, ainda existe o possível, na medida em que conseguimos subverter a linearidade fixa das vias e recortar caminhos, rabiscar. Na medida em que os lugares deixarem de existir apenas para uma função. Na medida em que… nos perdemos em sombras confusas e… não há nem coragem para o suicídio e tampouco confiança para berrar na rua.
-Só que tudo isto é loucura, é clichê, é obscurantismo! Coisa de personagem de filme cult. Veja, a onda é o silício. Quem não está gozando desse hype só pode ficar com esse tom cinzento mesmo. Venha, deixa de zigue-zague e venha experimentar dEUs!

⊗

– Não é mais questão de olhar uma pedra bruta e já logo pensar em seu estado objetificado e funcional, ignorando toda singularidade, textura, diferença irredutível.
– Quem pensa essas coisas desse jeito? Você parece considerar que esse tipo de olhar é cultural, como se ele não fosse a natureza humana. Ora, pare com bobagens. Olhe ao seu redor: a tal pedra já não é bruta. É cimento, cascalho, mármore, arenito. A calçada tem linhas e se divide claramente da rua. A árvore tem seu lugar, o canteiro denota. Tem a praça, que é para o laser, há bancos para se sentar, e o lugar de cada indivíduo na sociedade, visível, tudo bem visível. Tudo dentro do globo tem identidade, endereço, de modo que a mente não precisa mais perder tempo em confusão. Se antes era necessário seres humanos para nos alinharem no caminho do controle, hoje a própria paisagem já se encarrega disso. O mundo funciona. O mundo funciona!

Sentiu essa pegada fria? Sente esse espírito terminando sua existência, fazendo os retoques finais, o acabamento da obra. A obra do silício. Tudo passa pelo seu crivo técnico. O corpo, essa imperfeição de carne ambulante, é errante demais para os trabalhos divinos. Para os resultados, confiamos mais na inteligência nanométrica de um computador, aquela que pode selecionar, recortar, copiar com perfeição; aquela com a qual o ser goza da velocidade da luz. O projeto é todo feito no software.
E a rua já está ficando linda! s2
Vê, as lojinhas tem fachadas metálicas com pintura homogênea, os letreiros, as placas, os logotipos, são impressões 3D: materializações perfeitas do projeto. O mundo material se igualará ao virtual! A cidade está avançando prodigiosamente para alcançar a funcionalidade da tela (dos nossos olhos), nossos smartphones. As funções básicas funcionam discretamente, é tudo interativo, cada opção é bem clara e definida pelo design digital, e podemos nos divertir com aplicações. Vai dizer que o site da avenida paulista não é interativo?

Mas é claro, nem todos tem endereço. Nem todas tem sua identidade… identificada. Nem mesmo todos tem smartphones. Nem tampouco o privilégio da leitura. Como já foi dito, o paraíso ainda não chegou. Mas é questão de tempo. É só você não olhar muito para isso. Não olhe o caos. Aquela viela tortuosa, escura, que te chama, cheia de pessoalidade, como num sonho? Não olhe. Aqueles rostos amassados pelo pó e pelo tempo, catando a possibilidade do Sol nascer em sacos de lixo? Não olhe. Ou olhe. É um ou zero. Se o que você quer é desgrenhar das esteiras, pode cair. Se o que você deseja é o curto-circuito, vá em frente. A loucura, o clichê, o obscurantismo dos personagens de filme cult. Mas todos esses erros de rua que você advoga por aí, com seus olhos indiscretos, serão reparados na próxima atualização. Serão eliminados porque não funcionam. E você vai sobrar no limbo, cheio de amigos suicidas.
Ainda há tempo para embarcar na onda. Controle sua vida.

⊗

Mas quem é você? Não há ninguém aqui. Estou falando comigo mesmo. Com quem estou conversando? Estou confuso. Talvez esteja possuído. Como posso ter certeza de que controlo minhas ações? Como disse, faço parte de profanos sabotadores, não sou de silício e não quero que o paraíso se instale definitivamente sobre a Terra! Dela eu quero sentir as nuances, os relevos, as diferenças de temperatura. Quero experimentar os sentidos de cada paisagem. Vejo na pedra bruta uma forma ainda não geométrica, de superfície imensurável… Estou louco. Gostaria que alguém me ajudasse a saber: como posso ter certeza de que controlo minhas ações, de que estou ajudando a causa? Onde acaba o que sou EU e começa a cidade, as máquinas, o ônibus, o smartphone? Quais são os limites entre entre entre essas coisas? Me disseram que o limite quem dá é a pessoa. Mas não sei onde fazer esse corte. Estou tomado por um desejo de ter certeza. Um desejo que me impede. Vou em direção aos fatos, então. O que de fato eu posso fazer?

Pés no chão, experimento caminhar pela rua. Posso cruzar antes do sinal abrir? Posso ignorar os limites da calçada, invadir o espaço dos carros? Posso sair à noite, sentar na sarjeta e brincar com palavras? Sentar no degrau de uma loja fechada e apoiar minhas costas naqueles portões de aço pixados? Posso olhar os pixos, demorar-me neles e apreciá-los assim, desse jeito, sem entendê-los? Nesse momento um vento sopra pelas folhas. Posso tudo isso. Mas não por muitos minutos. A hora existe e já estou pensando: o que vou fazer com essa experiência? Qual a finalidade disso? As vozes me dizem que é coisa de deixar acontecer, sentir, sem a certeza de um propósito. Então continuo a vida, vou atrás do sonho, pego metrô. Vigoroso, inspiro esse ar. Vem a náusea do metrô. Colado em um monte de gente colada. Estamos mais próximos do que eu jamais fiquei de muitas pessoas que tenho amizade. Aqui o toque precisa ser esvaziado de sentido. Aqui tudo ao redor vira… massa humana. Inferno! Parece que a homogeneização se apodera de mim, o plano cartesiano, o espírito do silício… Mas não. Eu posso, eu posso, eu posso. E o que eu faço é me demorar, reparar em cada rosto, cada jeitinho, cada estilo. Só que cada estilo faz aparecer na minha cabeça um tipo de identidade. Isso aumenta minha náusea. Assim como as televisões penduradas no teto do vagão. Ah, elas são difíceis de ignorar, com sua luz forte e colorida. Colorido mesmo, de chegar a cansar a vista, são aqueles cartazes que ficam nas paredes das estações. Porque estou olhando pra isso?! Eu realmente não controlo: quando elas mudam, de uma marca para outra, sempre reparo! E mais: examino a propaganda nova e sinto um alívio profundo. Ah, eu precisava disso! Mas não dá tempo de sentir. Nem a náusea nem o alívio. O tempo é curto e eu preciso pensar e programar o tempo. O tempo que vai levar para chegar no lugar, o tempo que vai levar para realizar o sonho, o tempo dos encontros, o tempo das desprogramações, enfim, programar o tempo. Preciso? Quero. Posso? Talvez… mas tudo isso depende da velocidade do transporte público.

Quero sentar na sarjeta novamente, sentir o meio-fio. Entrar na viela, reparar na aspereza do muro, as nuances, as irregularidades expressivas que tanto me provocam e assim acabam realmente direcionando o sentido torto da minha vida. Estou a deriva. Quero pensar sobre a cidade, mesmo não sabendo o que sou, onde começo e onde acaba o mundo. Parece que esse pensar é tanto meu quanto de tudo isso que me atravessa. Talvez eu seja a própria cidade pensando sobre a cidade.

⊗

Pode ser que a superfície terrestre não se transforme num micro-chip planetário. Como se pode ver à partir das experiências pessoais, em que o meio parece invadir e brotar no meio do campo consciente, a ação pode não ser mesmo de deus. É possível que não aconteça a sua materialização definitiva pelo silício, com sua onipotência, sua capacidade de transformar instantaneamente a vontade em realização. Mas me parece que é isso que se deseja, quando o ser humano se afirma como Deus na Terra – seja no discurso eclesiástico, seja no científico. O antropocentrismo é a certeza de que a experiência da espécie humana (seja lá o que isso for), é a consciência cósmica iluminando a escuridão da matéria. Mas quem decidiu os limites? Onde acaba o consciente e começa o inconsciente? Pensa-se no silício como uma ferramenta controlada. Mas é possível e até fácil, observando o estado atual das coisas, falar de como esse mesmo silício se utiliza de nós, de como nos tornamos ferramenta da ferramenta. É louco né? Ficou difícil falar de controle agora.
Nos parece vital trazer uma recordação: o limite quem dá é a pessoa. E esse limite, esse corte, é uma ação. Uma escolha a ser tomada e um erro a ser vivido. Mas mesmo que a consciência não se apodere desse corte, ele está se dando continuamente, a cada instante, e é essa a grande onda.

A verdade é que deseja-se esse poder absoluto. Existe uma vontade de poder. E, veja, essa frase tem uma força gravitacional tremenda, como se fosse algo do mais profundo, como se fosse um fundamento. Mas se esquece que é uma escolha, ainda. Podemos preferir ao poder, a criação. Ainda há o desejo de criação. Mas acontece que a criação se dá mesmo no encontro com o mistério. A matéria, escura, faz a luz curvar-se. Se estas fendas cósmicas forem eliminadas, o acontecimento será aprisionado no infinito.

Para terminar falando em modos de existência, ainda existe o da Terra. Uma vida. Uma natureza povoada de outras, que não se encerra numa forma. É algo que perfura os céus com o incontrolável. Algo como o desejo, uma força que provoca o espaço; instauração sólida da incerteza. Isto ainda existe e o controle não se tornará absoluto. A menos que este poder seja o objeto do nosso desejo. Mas não é.

18/09/20

“Estou Pensando em Acabar com Tudo”: Interpretações

 18/09/2020

Seguindo as pistas


De quem estamos falando?


O pesadelo é nosso

17/03/20

“O Farol” e o Inferno da Masculinidade

 17/03/2020

No cinema estamos vivendo uma onda de lançamentos profundamente anti-sistêmicos, anti-hegemônicos e minoritários. Mais recentemente Bacurau, Coringa e Parasita se apresentam junto a “Roma” e “A Criada”, de 2018. O Farol, dirigido Robert Eggars, também entra na lista, mas de uma maneira tão esquisita que facilmente poderia ficar sem reconhecimento, ofuscado. Como um filme com apenas dois homens brancos estadunidenses trabalhando num farol poderia ganhar estes adjetivos? É porque se trata de uma apresentação afiada dos limites mais críticos de uma masculinidade hegemônica, que insistentemente reencarna como herói do ocidente. É o escancaramento da toxicidade e da podridão de um modo de ser homem, realizado numa forma tão pungente, tão azeda, que fica impossível a indiferença, mostrando que ainda tem relevância política um filme dedicado ao formal e ao jeito de expressar.

Antes de começar, um fato pessoal interessante. Levou algum tempo para eu perceber — o que, descobri em conversas, pra alguns era claro — que se tratava também de uma narrativa mitológica. O filme apresenta os mitos de Prometeu e Proteu com fidelidade. Mas mesmo sem ter percebido isso, já fui atravessado de muitas maneiras, sentindo ter assistido a um filme de grande potência e possibilidades de reflexão. Tenho certeza que pela internet xs leitorxs encontrarão resenhas que destrinchem, com ferramentas teóricas, esse aspecto mitológico como forças internas que guiam a forma, o texto, etc. Mas essa resenha está escrita num outro sentido. Há aqui uma intenção de defender uma relação experiencial do filme, que é por mim entendido enquanto uma expressão coextensiva à atualidade concreta. De começo, quero dizer como foi a estética do filme para este espectador em particular, como ela agiu sobre mim.

A luz é um ruído

Desde o início, o filme nos intriga com seu quadro em proporção quase de 1:1, o que, somado ao P/B, logo nos lembra da primeira era da fotografia. Então, de cara, já estamos atraídos por esse aspecto fotográfico — do registro da luz –, assim como pelo sofisticado contraste entre claro e escuro, o que estabelece uma atmosfera barroca que perdura ao longo de todo o filme. Mas observando-se os enquadramentos, penso que a referência à fotografia primitiva, com sua baixa definição e alto contraste, acaba delegando à iluminação um papel ativo, ao mesmo tempo que questiona o sentido da visão.

Como essa iluminação excêntrica se relaciona com o pensamento implicado pelo filme? Apesar da luz e do visual influírem muito na expressividade, o que nos provoca a colocá-los no mínimo como análogos do conteúdo, o filme não é destes que se propõe a tornar visível algo que está oculto, nem tampouco se trata de um processo de iluminação a respeito de algum tema, onde a luz funcionaria como elemento benéfico. Excetuando-se algumas informações — duvidosas — surgidas no meio, o que se sabe no começo é o mesmo do que se sabe no final. Me pergunto se há algum sentimento de resposta ou insight com a conclusão do filme… Uma grande resolução do sofrimento? Não apostaria nisso.
A iluminação não esclarece nada; unida à sonoplastia ruidosa de fricção, fica tingida de um tom conflitante. A iluminação é ruidosa.
Pensemos ainda o papel da luz, agora num plano mais simbólico. É o elemento da verdade? Da justiça? Da paz? Mas o filme começa e termina duvidoso, desequilibrado e violento. Não há um progresso linear. Da mesma forma, a luz — a verdade, a justiça, a paz -, é descontínua e radicalmente variante ao longo das cenas. Permanece insistentemente dificultada pela materialidade bruta e áspera da costa marítima e dos corpos sujos daqueles dois homens. E ainda assim continuamos atraídos pela iluminação. A luz é dominante e irracional. Por esse motivo, as arestas, as dobras, os traços pontiagudos e as linhas erráticas, ganham destaque; perfuram a paz e a passividade de um olhar preguiçoso. Pensemos barroco?

Há, entretanto, momentos em que a luz atinge seus extremos totais, quase pura luz ou pura sombra, quando não se vê nada. Algumas cenas internas são quase totalmente negras; há também o desfecho obsessivo de Winslow tentando agarrar o fogo, onde a luz queima os frames em brancura. Mas estes exemplos, por estarem seguidos sempre de uma nova variação violenta da luz, contribuem ainda mais para uma sensação geral de instabilidade, de contraste. Ora, se pensarmos a luz como símbolo da sabedoria, da verdade, ou da justiça, a sensação de extrema instabilidade acentua-se ainda mais, na dúvida. Não se tem certeza alguma sobre o passado dos dois homens, não obstante haja ênfase em suas falas de recordação e revelação. Apesar de suas falas terem ótima articulação e uma oralidade clara, não se sabe qual deles fala a verdade. E qual está mais louco? Qual deles é mais violento? Como “bons homens”, ambos realizam ações objetivando demonstrar coerência e sanar todas estas dúvidas. Mas eles não conseguem. Efetivamente, eles não transmitem nenhuma confiança nem segurança — nem a nós nem entre si! Apesar das enérgicas aberturas e escancaramentos de si que eles realizam, não se sabe nada de fato. A pretensa luz masculina fraqueja. Como no aspecto formal, há muito movimento e pouca conclusão. Winslow de fato cuspiu seus feijões. Só que o tal gesto é mais feio do que revelador.

Não se sabe nem ao menos qual é a beleza ou mesmo a feiúra daquela “maldita pedra”. A escolha do P/B impede uma identificação. É tudo sem caráter. Não há o caminho liso e agradável das cores, o que nos afetaria em memórias pessoais ou coletivas de costas marítimas. Não há nenhuma familiaridade, na mesma medida em que nada é decididamente fantástico ou inverossímil. Nada além do todo é surpreendente. Revela-se, expõe-se todos os lugares daquele ambiente minuciosamente explorado ao longo filme de locação única, e não há nada de “novo”. Mas é tudo diferente. Embora seja claro de qual lugar se trata, não haja uma ocultação sobre esse paradeiro e, de certa forma, a escolha seja “entediante”, essas positividades são corroídas pelo P/B, pelos enquadramentos e, novamente, pelo virtuoso claro-escuro do filme. O céu, o interior das construções, o chão, as rochas e o mar, enfim, tudo é impessoal e estranho. Essa atmosfera é por si só tão perturbadora que as visões delirantes de Winslow nos parecem coextensivas à natureza do lugar. Mas, novamente, somos obrigados a admitir contrariadxs que é “apenas a realidade deste trabalhador psiquicamente adoecido”. E como são angustiantes essas ambiguidades, esse irresoluto movimento. Quando se considera seu efeito do ponto de vista da paisagem, do meio, a incerteza ganha, finalmente, estatuto ontológico.

Então surge a questão: se claramente não se trata de um triunfo da claridade nem da sombra, e impede-se de sentir um progresso linear a uma iluminação ou escuridão total, qual tipo de movimento óptico ou epistemológico o filme realiza? Por não se tratar de uma expansão pacífica da luz, em que cada cena mais coisas se tornam claras, e ao mesmo tempo sermos atingidos pela força, justamente, dos contrastes violentamente variantes entre luz e sombra -entre fala(o) e fato -, é que se realiza no filme um gesto que contesta o estatuto transcendental da luz. Não estamos mais num mundo onde pré-existe uma luz da criação, um fundamento a priori ou Ideia, que abrigasse em si a consciência numa pureza a ser recuperada por meio do enfrentamento da sombra, elemento maligno, a posteriori. Em O Farol é impossível cair em qualquer dualismo estático. Há dialética e há fluxo. A luz realmente é um elemento importante da vida, mas compete com outros elementos numa grande ondulatória ou vibração. Um firmamento de água e pedra. Viver a costa marítima com a intensidade desta proposta, faz a luz descer do paraíso para ser concebida na imanência, ondulando junto a toda materialidade. Afinal, só se sabe deste único “desde sempre”: conflito enérgico entre luz e matéria. Panta rei. É esta a sabedoria que aos poucos vamos recuperando ao longo do filme, numa dura lição. Heráclito sonhando com Poseidon.

Em suma, existe a tentativa de revelar um processo. Por meio da exposição, do escancaramento de conflitos humanos e não-humanos, aparece, onde não havia, um movimento insuspeito. Na paisagem do farol, a fotografia de época revela, entre a torre simbólica e a rocha assignificante, dois homens; um trabalhando em condições insalubres e o outro apoderado, em condições também insalubres. Revela-se também uma gaivota. É um país conhecido (Estados Unidos), num lugar conhecido (Nova Inglaterra). Revela-se uma velha história mítica de marinheiros, dessas concebidas numa vida alcoólica. Nada de novo. Mas a exposição não termina, nem vencem a luz ou a sombra, e onde se pensa haver, numa imagem, a sólida ordem natural das coisas, encontra-se uma mutação. Possivelmente monstruosa. E parece tender ao que simplesmente é desconhecido.

Poderia dizer então que se trata, antes da revelação de uma verdade, da destituição de uma ilusão. O real revela-se como devir. A eficácia concreta do filme desestabiliza, de modo físico, corporal, a ordem do real. Não por meio de uma irrealidade construída na imaginação pura — o que apenas reforçaria o real em contraposição — mas sim por meio de uma revelação do conflito que relaciona ambos, real e irreal. Conflito que nunca os conseguiu separar.

Máquina de ondas

A matéria e a luz enquanto conflito. Ou, talvez, o mar corroendo o farol. Afinal, encontra-se um princípio justamente no conflito e na corrosão. Em algum grau, há instabilidade em tudo, porque tudo está ondulando, friccionando, decaindo, pesando nos ombros, doendo no corpo e na alma, que lutam contra o perecimento. Tudo que é sólido se dissolve no Mar. Esse princípio natural provoca a angústia existencial e física dos dois faroleiros, que são a apresentação datada de uma antiga pretensão masculina. A cenografia e a atuação, como duplos um do outro, erguem entidades eretas (o farol e seus homens), mergulhados no mesmo devir masculino. O filme traz o farol como um símbolo fálico representando a tentativa do homem de vencer e dominar o mar, levando sua ordem a novas terras. Ou, em outras palavras, a tentativa masculina de controlar, pela virilidade ou pela astúcia, o
aspecto mutante da natureza. E trazer essa tentativa é trazer a consequente crise desse projeto.

Sim, é possível existir assim, lutando contra o destino. Como o ocidente nos mostra, é possível até mesmo erigir uma subjetividade consistente (ainda que estando sempre iludida e nunca satisfeita, ainda que jamais realizando o próprio objetivo hercúleo em que se sustenta). Mas essa tentativa antiga, continuada pelos faroleiros, os leva a uma deterioração torturante, infernal, à medida em que o mar avança sobre a costa. À medida em que o próprio espírito econômico do ocidente os força a explorar-se e competir, o que mostra uma corrosão vinda também desde dentro; à medida, enfim, que a água salgada invade a lógica linear dos pensamentos, vinda do passado, do futuro e do catastrófico agora. O que é inevitável. Entretanto, ainda que, na verdade, a deterioração seja natural, o gesto de fundar uma natureza humana que se opõe virilmente à natureza (do mundo, da mulher), gesto que sedimentou ao longo da História várias camadas de subjetividade masculina, faz com que qualquer emergência dessa profundeza mutante e ocultada seja sentida como um caos medonho.

Para fazer passar essa condição crítica da masculinidade hegemônica pelo medo, esta fica posicionada onde a natureza mutável mostra justamente sua face mais intolerante. Em geral, aceita-se facilmente esta verdade sobre a vida ser fluxo, ondulatória, vibração. Mas a vida, enquanto subjetividade não-humana, expressa esta verdade em diferentes intensidades, a depender de espaços e tempos singulares. A fria costa marítima da Nova Inglaterra apresenta-se no filme como um espaço-tempo de ondas das mais violentas. E não somente pelas ondas do mar! As mais sutis são igualmente perigosas (o gotejar na cama, a inesgotável preocupação mental, etc). A intenção é trazê-las, todas elas, à tona, num turbilhão cinematográfico. O choque e a tensão, no sutil e no grosseiro, são trazidos ao primeiro plano. O filme convoca desde a ondulatória pesada — do mar e das rochas e das máquinas — passa pelas ondas sonoras — produzidas pelas fricções desses materiais — e vai minorando, minorando, até chegar às vibrações elétricas da psique e, por fim, da própria luz. Contempla-se todos os níveis de frequência, balanceando em equivalência todos esses reinos in-trincados, o que faz emergir um movimento perpétuo e nauseante. Mas se trata de algo além de um simples aparelho de tradução de ondas: o filme não é só belo e formalmente perspicaz. Há um posicionamento.

O inferno da masculinidade

A estética do filme exprime essa natureza tensa e mutante, que emana diretamente das profundezas, para atingir incisivamente a psiquê dos homens (e a nossa, na medida em que ocorre identificação). Profundezas que, no entanto, estão em qualquer lugar: são comuns, coextensivas ao que há de natural no mundo. Só que os homens fingem não senti-la; fingem suportá-la e vencê-la com indiferença, performando uma postura de fechamento e virilidade. Consequentemente, o todo do filme age como um inferno salgado, a corroer lentamente essas subjetividades da indiferença. Processo que se expressa mais radicalmente com Winslow, pois Wake, experiente, já está há muito tempo submerso em banho-maria.

Falemos então dos personagens e da identidade masculina que apresentam. Os dois homens, já deteriorados desde o início do filme, vivendo sempre o último dia de suas vidas, guardam e preservam em seus interiores o único bem que aparentemente a vida não pode tirar: sua macheza. Com seus olhares taciturnos, as sobrancelhas sempre franzidas, os pelos faciais e o jeito de desprezo, eles estão lá, resistindo em seus modos de ser. Trago após trago preserva-se o gosto do tabaco, que é como uma essência masculina a ser protegida da fúria e da confusão que os acossa desde o mundo natural. Condicionados, eles não protegem essa essência por capricho, mas porque não há outra possibilidade. Pois toda a materialidade do trabalho, da repetição e da dificuldade vai dominando tudo. Só resta esse gosto de ser homem para criar algum sentido imaterial que transcenda tudo isso.
Toda a socialização, somada à experiência no trabalho, afunila suas possibilidades de vida. É só aquilo que podem homens ser, como arautos inadvertidos da masculinidade. Mas eles já estão obsoletos. Como explica o sociólogo Michael Kimmel, num artigo intitulado “A Produção Simultânea de Masculinidades Hegemônicas e Subalternas”, a masculinidade é uma fábrica de subjetividades que constantemente atualiza seus produtos com novos modelos. Estes, ao aparecerem no mundo, fazem com que os antigos tornem-se subalternos.

Para o desgosto do velho Wake, os seus heróis marinheiros morreram, levando consigo toda uma poética que ele tenta obstinadamente ressuscitar. No lugar deles vieram homens chatos como Winslow. O lírico faroleiro viveu esta transição de gerações, mas parece incapaz de aceitar o fato de que ele e seu irritante pupilo são iguais na condição de refugos. Um muito molhado e o outro muito seco, ambos são resíduos de uma envelhecida narrativa sobre masculinidade, a apodrecer no tempo. Já estão imersos num contexto histórico em que, como explica Kimmel, já emergem os novos Self-Made Man, e eles são apenas dois trabalhadores braçais, presos numa máquina e rejeitados pelo mundo que os criou.

Antes de detalhar a singularidade de cada personagem, cabe fazer uma ilustração da relação entre eles e deles com o ambiente — uma possível cartografia desse inferno.

Como se espera, ambos compartilham do ideal de homem. Mas enquanto o novato ainda está cético e seco, o velho, que está a décadas absorvendo e se alimentando destas condições brutais, já está infestado de mitos. Crédulo, mostra-se já corrompido por um imaginário aquático, apresentando uma subjetividade invadida, permeada pelo fora. Nele, apresenta-se um híbrido, localizado na intersecção entre o sujeito-homem Wake, a tecnologia mecânica do farol, e a bruta natureza da costa. Assim, com Winslow, Wake, o farol e a costa, apresenta-se um espectro de subjetividades que tem o humano-homem em um extremo e a natureza não-humana no outro. Como termos intermediários, apresenta-se Wake — uma esponja-humana-do-mar — e o próprio farol, não-humano, mas fálico. A ação do filme, em termos gerais, apresenta uma linha de desterritorialização que vai ser percorrida por Winslow, o homem-homem que entra em devir.

Winslow vai perder-se de seu “si mesmo”. No instante em que, com a sensibilidade inexplorada de suas nádegas, encontra e toca no scrimshaw de sereia (tradicional artesanato de marinheiros que consiste num entalhe em osso), dá-se início a um processo de encantamento que tratará de deteriorar a estrutura da sua psique, tornando-a totalmente permeável ao fora.
A imagem do homem honesto e trabalhador, apto a mostrar sua força, que não demonstra surpresa com nada — tudo é real ou mentira. Possui as qualidades da diligência e da objetividade. Um ser à imagem de Deus, que possui o poder de decidir sobre a própria vida. Este é o papel que Winslow sempre tentou representar. E talvez essa estrutura até pudesse ser mantida por toda sua vida. Mas algo na singularidade mítica e líquida do novo posto de trabalho encontra uma brecha para se infiltrar e corroer.

A narrativa tem seus pontos chaves, apresentando grandes e até canônicos desafios à masculinidade, onde o sujeito se vê atravessado por um fora ou até associado à feminilidade. Ele será colocado em situações em que sente vergonha, como quando é obrigado a limpar o próprio sêmen — o que seria, como ele mesmo diz, o trabalho para uma “esposa/escravo”. Outras em que é obrigado a sentir e até expressar sua própria fraqueza para outro, sendo observado pelo patriarcal Wake. Como uma gaivota pôde exercer tanta força sobre seu corpo e seu autocontrole? Por que ele está tão afetado pela magia do artefato e do falatório supersticioso de Wake? Onde estão as mulheres sobre quem naturalmente é designado a exercer seu poder? São desafios reais para machos que se querem assim. Mas, talvez numa situação normal, todas eles pudessem ser contornados sem maiores abalos à sua sanidade e hombridade. Como qualquer homem faria. Afinal, ele é só mais um trabalhador explorado desse mundo. E não há nenhuma tentativa de descrevê-lo como alguém especial, predisposto à fraquejar. Seu interior não é interessante. Até mesmo o seu crime, de ter deixado o ex-patrão morrer e tomado sua identidade, até mesmo isso é uma expressão muito mais social do que pessoal, pois fez isso para sobreviver. Muitos outros fariam o mesmo. Contradições morais, inerentes ao capitalismo. Então, o que há de diferente no farol que o desterritorializa? É aí que entra Wake.

Thomas Wake é um velho emocionado. À essa altura de sua vida, aparece como uma pessoa espirituosa, afeita a cerimônias — etílicas — e ostensivamente lírica; sua oratória refinada parece indicar uma valorização da erudição literária; parece estar de alguma forma ligado às “belas artes”. Isso contrasta e fricciona com o caráter rígido e frio do seu ajudante. Mas apesar de ser individualmente muito diferente de Winslow, socialmente ele representa quase o mesmo, pois compartilha do ideal do ser homem no mundo (que já podemos resumir como o gosto pela afirmação de si por meio da dominação do outro) (e pelo tabaco). São apenas tipos distintos de masculinidade, muito próximas às descritas por Michael Kimmel no referido artigo. Enquanto Winslow é o operário heroico, Wake parece representar o patriarca afetuoso. Entende-se que, partilhando do mesmo espaço, já estariam predispostos a competir. Agora, como um é, tacitamente, patrão do outro, isso se intensifica.

O jeito como Wake expressa autoritarismo, com fraseados pomposos e poéticos, dá indícios de quais são seus meios de conseguir prazer — a Winslow só resta a masturbação. O novato é forçado a fazer o papel de sua fantasmagórica “esposa”, no sentido de uma alteridade que se pode explorar, encachaçar e agarrar (“infelizmente” esbarra-se no corpo de um homem, aversão que impede o beijo). Essa dinâmica ilustra muito bem o que é uma relação de exploração entre patrão e operário sendo intensificada pelo machismo — mesmo no caso homem x homem.

Acontece que, mesmo no topo do seu poder, Wake continua sendo apenas um faroleiro. Cena após cena, vai demonstrando ser um poço de frustração. Ele sabe: não existe mais, em parte alguma, o aspecto aventuresco da navegação, que agora é estritamente comercial. Também não há mais em seu mundo nenhuma mulher, para que pudesse explorar ou “conquistar”. Para piorar, seus ajudantes não satisfazem seu autoritarismo. Nem aprovam sua culinária! Todas essas pedras, ou melhor, poças, ele carrega no peito. Essas adversidades emocionais contribuem para uma frustração enorme, que o encaminha a mentir sobre seu passado. Mas, diferentemente, a sua excentricidade é resultado da adversidade concreta que é estar a décadas encarregado de um farol no meio do nada. O ambiente, extrapolando a condição de mera projeção do sujeito ou pura percepção cognitiva, emerge como agente. A materialidade não-humana — do farol, da costa e principalmente do mar — invade, a tempos, sua personalidade. Ele demonstra já estar “louco”, no sentido de que se distanciou da estrutura psíquica normatizada para um homem: já se distanciou do humano ocidental e se aproximou do anômalo. Vejamos por quê.

É instigante sua prece de proteção. Ela evoca o oceano de uma forma solícita, valorizada, parecendo demonstrar, ao mesmo tempo, medo e devoção; como sabendo profundamente que se trata de um titã da natureza. Nos momentos mais intensos, Wake parece uma espécie de bruxo ou clérigo do mar, invocando os elementos do oceano e da costa — os peixes, os corais, o sal — como aliados em suas maldições. Sua velha lábia humana persiste, na habilidade em que tece as falas expressivas desses feitiços. Mas surpreende a maneira como Wake tem uma sabedoria assustadora e uma percepção absurda a respeito de tudo que acontece naquele lugar. Conhece a relação mágica entre as gaivotas, o vento e o mar, como se tivesse aprendido destes e não de outro homem. Wake também sente todos os movimentos ao redor, como se sua sensibilidade fosse coextensiva ao meio. Encachaçado permanentemente, esparrama sua presença líquida e podre ao redor. E por vezes subitamente se endurece como um tridente feito de corais cortantes. Indícios de um hibridismo, um devir farol, devir costa, devir mar. Ainda que uma parte sua persista, a apontar para o passado — sua normalidade de humano “homem” — outra parte sua aponta para algum futuro incerto no mar salgado que o irá abrigar e dissolver.

Como clérigo do mar, patrão e homem, Wake catalisa um processo de dissolução das estruturas psíquicas de Winslow. O sujeito ereto terminará o filme vacilante. Rapidamente vencido pelo álcool, o novato fica aberto, vulnerável, em um meio que já é propício à devastação. Além dos efeitos próprios da substância, passa a ser atingido pela dominação patriarcal do seu patrão e, consequentemente, a ser influenciado por todos os outros elementos pelos quais este é atravessado. Vendo-se nessa situação devastadora, nesse inferno, Winslow precisa encontrar algum ponto de apoio psíquico, algo que proteja sua identidade desse mal externo; precisa vencer as forças desterritorializantes com uma força equivalente. Então, como quem agarra uma pedra para não ser levado, passa a apresentar um comportamento obsessivo. E o objeto de sua obsessão é, novamente, o posto do seu patrão, cuja conquista representaria a manutenção de sua masculinidade, a permanência na via “normal”. Ainda que, para nós expectadores, Winslow já apresente claramente sua loucura, é como se ele, obcecado por vencer Wake na competição de machos, não o percebesse. É por isso que começamos a enxergar em Winslow uma desconexão profunda. O resultado é um sujeito “esburacado”, cindido, que se torna intensamente violento, na medida em que persegue um objetivo à custa de qualquer moral, e ao mesmo tempo percebe que toda objetividade está corroendo.

Esta relação funciona como um retrato do trabalhador explorado duplamente — pelo patrão e pelo próprio ideal de homem. Mas há um terceiro elemento, singular, que produz
uma diferença em relação ao retrato puramente social da época, e que também contribui para a liquefação de Winslow. O não-humano, as forças da natureza, singularizadas pela costa marítima, também entram nesse conflito. Não apenas como adversárias de Winslow, mas de toda uma subjetividade humana fundada no homem moderno.

Um/a adversário/a não humano/a

Saturados/as que estamos desse universo masculino, como é possível atribuir um sentido anti-hegemônico a’O Farol? Não se trata de mais um filme excessivamente masculino? De fato, é impossível falar de representatividade feminina no filme, e isto é uma crítica a ser levantada. Mas é de uma maneira feliz que não aparece uma grande figura opositora — algo ou alguém que representasse uma subjetividade feminina delegada a contrariar toda uma hegemonia. Tratando-se de um filme dirigido por um homem, isso geralmente acarreta uma nova idealização do feminino. E ainda um endossamento da ordem binária dos gêneros. A estratégia alternativa, adotada pela direção para dissolver essa masculinidade, é a introdução de um elemento estranho a esse binarismo. É justamente o “fora”, surgindo enquanto entidade impessoal, que vem balancear o excesso de masculinidade, na posição de adversário. Com a introdução desse fora, “masculino” não preenche mais a metade das possibilidades de ser, tornando-se algo muito mais contingente, específico.

O “fora”, agente não humano, é o elemento mais “estranho” e talvez mais interessante do filme (até porque está objetivamente conectado aos dois homens). A luminosidade unida à sonoplastia, numa orquestração poética e tecnicamente sofisticada, faz falar uma voz-ruído: o rumor do ambiente enquanto expressão ativa. O que o olhar da gaivota faz passar? Não tem significado, mas certamente faz passar algo que paralisa Winslow. Não tem significado, também, a expressividade de seus ganidos agudos ecoando pelo ar, refletidos pelas paredes do farol. Assim como as pedras que amortecem o mar, ganhando contornos tão sinuosos e cortantes que sua simples visão é agressiva a uma percepção cartesiana, ordenadora. Mais além, um mar tão severo quanto um deus, mas também tão mutável, que vai da tempestade à calmaria, quando acolhe sereias debaixo do luar. É na condição de forças que esses elementos nos atingem. Sua falta de significado é apenas a prova de sua exterioridade, algo que nossa leitura do mundo sempre não lê.

Sim, nós lemos algo. A gaivota, as pedras, o mar, têm sua carga simbólica, um conjunto semântico que foi historicamente construído. Mas, concomitante à construção desses significados, há uma relação, também histórica, mas da qual o humano é apenas uma das partes. Essa relação inter-específica é algo que o símbolo, por vezes, esconde. O filme utiliza uma delicadeza em captar a singularidade dos elementos que carregam esses símbolos — sua irregularidade, sua textura e, principalmente, a diferença irredutível entre eles. Dessa maneira, propiciam que o fundo assignificante emerja, sem que o simbólico se perca. Para provocar essa emergência, foi necessária uma estética particular, cuja fotografia já foi discutida. Mas o que dá a esse assignificante sua participação ativa, adversária aos sujeitos homens, é principalmente o som.

Gerado em captações de notável precisão, o som desses elementos naturais funde-se ao som rítmico das máquinas no farol, removendo-as, também, de um invólucro semiótico. Microfonadas com delicadeza, as máquinas em funcionamento emanam um som que as libertam de serem lidas apenas como instrumentos, realizações técnicas, diagramas físicos, enfim, puras extensões do humano. Fossem assim, funcionariam sempre exatamente como as projetamos. Aqui elas se apresentam como pedaços de matéria: inescapavelmente irregular — mesmo que num nível imperceptível. Esse reduto do irregular, que é o traço de uma dimensão incontrolável pela mente, emerge do encontro das peças na forma sonora da fricção: sinal do desgaste. O desgaste é o eco, nos sólidos, das profundezas vibracionais; expressão da mutabilidade natural que existe até no que aparenta perenidade. Sobrepõe-se essa sonoridade maquinal com a do ambiente da costa, para que ganhe corpo uma grande massa sonora, coextensiva e múltipla, que dissolve as fronteiras entre o artificial e o natural.

Nessa situação, poderíamos pensar que a adição de uma trilha sonora provocaria uma desconexão. Por estar inexoravelmente ligada à artificialidade humana e ao significante, ou ela comprometeria o caráter não-humano da sonoplastia, ou funcionaria como uma representação do humano, fundada na perspectiva dos homens, contrapondo-se ao externo. Nada disso. Na verdade, a trilha sonora expressa a voz externa que permeia o próprio “interno” dos homens. Graças ao que há de único na composição de Mark Korven, onde o timbre lidera os longos blocos de acordes dissonantes, há um efeito que pode ser traduzido como uma tensão insolúvel, cuja intensidade cresce e decresce lentamente, lembrando o mar em câmera lenta. A memória acumulada da diferença, do conflito. Novamente, o conflito como elemento de unidade. Mesmo que se associe a música à condição subjetiva dos homens, aqui ela vibra a dificuldade de mantê-la; é sinal da relação com a presença do que lhes escapa, mesmo dentro do próprio corpo, da própria imaginação.
Desse modo, tanto a sonoridade do mar, quanto a das máquinas e da trilha sonora, estão profundamente conectadas. Mais do que isso, dá-se a impressão de serem coextensivas, como um grande Coro, uma multiplicidade sonora ubíqua que está no mar, nas pedras, no aço e na própria carne. Ouvidos mais atentos nos levam a dizer que são vozes tão ativas no filme quanto a dos homens. Unem-se ao visual claro-escuro para tornar presente a natureza em toda sua contradição; não idealizada ou essencializada por uma verdade, mas sim uma natureza singularizada e concretizada pelo espaço físico (que é também psíquico). O filme realiza o trabalho desafiador de trazer essa alteridade para o primeiro plano, tornando-a participante da história. É o imperceptível a desterritorializar os faroleiros.

Diante dessa alteridade, Wake e principalmente Winslow aparecem como uma fundação antiga, à beira de um desmoronamento que selaria uma derrota. Fica exposto um antagonismo entre a subjetividade natural concretizada na matéria e o sujeito humano fundado no homem. A ilustração mais bem acabada desse conflito é própria costa, onde a primeira é representada pelo mar e, a segunda, pelo o farol. Nesta construção fálica, elemento central do filme, temos um emblema luminoso da ordem, da bravura e da racionalidade humana. Um estandarte erguido no meio do caos. E é para ele, para a manutenção desse símbolo, que os homens trabalham, não o contrário. Para o farol, os homens são arautos, mesmo que inadvertidos. A chave para reconhecer essa posição de defensores que os homens desempenham está tanto na sua relação subjetiva com o farol, quanto objetiva.

Para defender esse emblema, há o trabalho material de Winslow, que sofre as consequências mais objetivas do meio. Ele carrega o peso dos recursos, escorrega ridiculamente na lama, enfrenta o calor das máquinas e resiste às intempéries da água que se infiltra. Winslow, em suma, aparece como o homem que luta contra a materialidade a favor do ideal que, como subalterno, não pode conhecer. Ele não tem a chance de ver a sala de luz, onde está a imagem desse ideal, reservada ao patrão Wake. Este, por sua vez, desempenha a função mais litúrgica e mais subjetiva na relação com o farol, de modo a engrandecer sua existência para além da realidade física. Ele impõe ao subalterno que respeite seu cargo miserável, como se fosse uma grande honra. Ele mantêm a ordem espiritual do local, com suas preces e suas cerimônias, sem nunca sujar as mãos (a não ser para cozinhar). Por fim, e o que é mais importante, ele pratica uma adoração sem fim à luz do farol, como quem goza de uma permissão para ver o divino (mecânico). Assim, é como se houvesse uma dinâmica formada por uma divindade, um sacerdote e um iniciado. Mas não há nada de sobrenatural acontecendo.

Por um instante parece insólito o modo como Wake fica hipnotizado ali. No entanto, e o que é mais surpreendente, é possível intuir uma lógica que sustente esse comportamento sem precisarmos convocar instâncias sobrenaturais ou transcendentais. É só observarmos o que a materialidade fotográfica do filme nos revela, na única cena em que aparece de perto a luz do farol. Não há nada de sobrenatural ali. É literalmente um grande compartimento de vidro, que abriga em seu interior uma chama à lenha. Nada também de muito estranho é o fato de que todo o trabalho desempenhado naquele local (no sentido humano e no sentido físico mais amplo), converge, basicamente, na manutenção do funcionamento giratório deste compartimento de vidro. Se trata do ponto de culminação de toda essa energia, que faz girar perfeitamente e de modo tão solene, um material transparente, liso, lapidado por linhas suaves e gentis. O resultado é a (mera?) projeção da luz linear que guia as máquinas humanas no oceano abismal. Sim, é simbólico. Mas a força extraordinária que passa por esses símbolos corresponde ao que é concreto e singular. O filme, permanecendo no limite do que é real, mostra a força da imanência. Uma força que pode transformar relações de dominador-dominado, inclusive invertendo as posições.

Esse conjunto simbólico-físico sob o qual Wake dispensa toda a sua atenção e seu amor, fica localizado no lugar mais confortável do interior do farol, a sala de luz. Esse lugar contrasta violentamente com toda a materialidade do abaixo e do afora, onde tudo expressa instabilidade, permeabilidade e sujeira. De maneira quase oposta, essa diferença extrema de aspecto, de aparência e de substância, expressão da própria matéria, como um gesto do mundo em sua concretude mais externa, é por si só uma força que magnetiza Wake e, por consequência, aquele que ele proíbe de ver; é por si só uma ato mágico, de desafiar o destino, impondo à própria natureza que se apazigue. Na claridade daquela sala iluminada, elimina-se toda alteridade que desafie o sujeito: parece existir ainda um resquício de estabilidade e pureza. Na lisura daquele grande lampião de vidro, o homem finalmente encontra a matéria em seu estado controlado.

Enfim, por mais grandiosa que seja a engenhosidade humana, por mais hercúleo que seja o sujeito-homem, ele jamais está acima do acontecimento. Os navegantes não poderão jamais deixar de negociar com Poseidon sua travessia. O empreendimento de expandir pelos mares e pelos milênios a ordem civilizatória — algo de uma peculiar mística anti-mítica — possui o corpo dos que o realizam, isolando-os do fora, que se torna inanimado. Assim, encantado pela razão, o homem vive aprisionado num mundo de matéria inerte, que não tem alma, exceto a alma de si. Tendo o próprio corpo obstruído e moldado pelo idealismo, o homem vive o uma longa morte, levando, como única relação real, aquela que se define pela exploração e a de devastação do/a outro/a. Tendo almejado uma liberdade fechada, ele é livre apenas para alterar o tempo — marcado — de sua deterioração. Mas a matéria não é inerte, ela é expressiva; a natureza é viva, ativa e se fará escutar. Mais cedo ou mais tarde, os arautos da masculinidade encontrarão o destino comum das coisas, no lugar mais infernal. Desde as profundezas, o deus sem-rosto, o oceano.


_________________________

Que se reconheça a coragem do gesto cinematográfico que deu vida à “O Farol”, filme de Robert Eggars. Por meio da estética, o filme se lança num território inóspito, aparecendo, na conjuntura atual, como uma pedra ônix: sombria e brilhante. Sua presença contrastante, dilacerante de toda realidade estável, atravessa com insolência o território das masculinidades e até do humano moderno, provocando-as, processando-as. É dado a nós o momento da vingança do fora, que vem de tudo que é material, penetrando, fisicamente, nossos idealismos. Assim, nós temos a oportunidade de sentir o efeito insuspeito de um modelo de humanidade. Esse que a reveste de hombridade e a coloca como adversária e legisladora acima de toda alteridade não-humana, ou sub-humana. Nos esgotos do ocidente, revela-se o subproduto doentio desse homem fabricado, que acaba servo de si mesmo, na intensificação da exploração que o capitalismo historicamente produz. Não nos enganemos pela excentricidade do filme, pois ele diz respeito mais sobre o presente do que do passado. Estamos vivendo cada vez mais dentro do frame 1:1, numa crise ontológica sufocante, e a qualquer momento a alteridade romperá nossas janelas, como o mar em sua expressão mais infernal.

26/01/20

do progresso

 26/01/2020

nos momentos em que me invade o espírito mais amorfo, me vejo desejando sombras gigantes.
nos momentos em que me sinto mais animal, vejo o ser humano por olhos sem íris.
nos momentos em que jogo a moral no lixo, eu quero ver a grande confusão.

Homem, você precisa deixar morrer seu homem. O largue ao sabor da própria gula. E que a fome instaurada no mundo se adense em seu corpo, ao que se devorará os próprios tecidos.

Vou lhe contar uma história. A história do progresso. Penso que se instituiu demasiadamente. E pouco se confiou no corpo. O caos não é mal, é apenas o caos.

Certamente não foi fácil para quem viu um relâmpago destruir seu lar, instantaneamente pulverizando todos os horizontes da vida. Um e logo Zero. 

O trauma: a experiência da máxima incerteza propagou-se nas pessoas ao longo de milênios. Assim, penso que a instituição é tão natural quanto o relâmpago. Precisamos de grandes máquinas impessoais para nos dar alguma garantia de que a vida amanhecerá amanhã.

 
Ainda mais traumático, no entanto, foi perceber o fogo dentro de si. A incerteza dentro de si. Abaixo da pele alguma coisa tão incontrolável quanto a morte. E assim, institui-se. Não para evitar algo do caos, mas para possibilitar esquecê-lo, ignorá-lo por algum tempo.

 
Mas essa não foi a grande audácia humana; não foi isso que fez nascer o homem demasiado homem. Ordenar nomes para os dias, falar de leis, criar consensos provisórios.. não foi essa a pretensão que nos lançou na virtualidade do fim em que nos encontramos hoje. A instituição foi um problema quando passou a se tornar um hábito. Instituir morais a priori se tornou tão frequente quanto defecar ou comer. Invocar leis eternas ou executar vidas na mesma frequência em que surgem as menores expressões do caos. E qual frequência será esta? Talvez algo tão rápido quanto a oscilação dos elétrons ao redor do núcleo.

 De que época estou falando? De nenhuma. Isto é um delírio. Acontece em um lugar muito mais real do que aqui.

Os úteros expressam o caos porque sangram incontrolavelmente. Não é do controle de ninguém, mesmo do corpo em que repousa. Mas o que expressa esse sangrar? Viver mortes  em vida refunda os ímpetos, redireciona as pulsões, ativa o desejo. Assim se dá também a todas as criaturas que, paralelamente à educação, recebem a pedagogia física do caos, desde o nascimento. Não é preciso ter o órgão para sentir que o próprio corpo é uma história. O útero é uma potência consistente, uma força, que muito bem poderia chamar-se Oceano.

 
Viver a morte exige muita força. Essa grande força, que é indomesticável, vinda do próprio corpo.  Aos olhos das que não a temem, o caos não é mal. O caos é apenas o caos. A dor é apenas a dor. E na vida há algo mais do que controlar ou ignorar os processos. É um mistério.

O homem faltoso, que tem nojo de útero e ódio do oceano, que não sangra sem que isso signifique martírio, finalmente institui o que faltava: a guerra ao mistério. Para isso, faz pré-existir Deus à sua imagem branca. Ou, quando a moda pede algo mais adulto - mas não menos branco - faz pré-existir a Razão. Lança mão de um fundamento imaterial, uma legitimação eterna. Dita que existe algo bom, essencialmente bom, mas que é transcendental à carne, ao sangue, ao pecado, à mulher. Enquanto os teólogos instituem um passado puro, os tecnólogos prometem a pureza no futuro. Indiferente. Pois ambos tornam-se arautos dessa mesma Lei e rondam a terra à procura do mesmo inimigo.

E o encontram. No escuro abaixo do viaduto, na falta de branquitude da pele, no estrangeiro sujo que chega de longe, no corpo desviante que confunde suas categorias... Encontra em todo lugar, na verdade. Encontra dentro de casa, dentro do armário, na rachadura que o pedreiro não evitou, na mancha que a "moça da limpeza" não consertou, no pelo que a esposa não depilou, no pênis que não sobe quando se ordenou... Enfim, já sabemos que o mistério é, como Deus, uma ubiquidade: está em tudo. Portanto, o homem institui uma guerra que é total. E assim, a máquina ocupa o lugar do relâmpago, pulverizando lares no intervalo de um tiro. Um e logo Zero.

Os combates são intermitentes, mas a Guerra é um acontecimento que não para de acontecer. Pensou-se que esse caráter contínuo da guerra tornasse ela uma ação suficiente para que o caos, não apenas esquecido, fosse extinto. Um extermínio institucional. O Progresso. Esta é a história que você precisa conhecer.


Umberto Boccioni, 1911


às vezes não me sinto gente. sou capaz de abrigar uma indiferença total com a espécie humana. sinto no sentido de que catástrofes me dariam muito prazer. a cidade em chamas destruindo de uma vez por todas a falsa promessa do progresso! mas não.. não posso imaginar demais... pois, se por um instante, no meio dessa massa humana, vejo um rosto.. ah! se eu vejo um rosto que seja, tudo se acaba! um rosto, uma pessoa... logo estou amando, inserido na trama a se destruir e, pior, morrendo frustrado. morrer com poças no peito, já que não há certeza de que, após o fogo, não se retomará a ordem, o estado de coisas, e ressurgirá, renovada, uma máquina ainda melhor. ainda pior: sem que nós estejamos aqui para denunciá-la. talvez essa seja a pior das mortes. e quantos, quantas já não morreram assim, aqui na Terra? 


Ora, homem! Você não precisa sangrar para sentir. Vamos lá, a situação não é assim tão irremediável. Atente-se. A pele do corpo, o que me diz dela? Um órgão ambíguo, que é tanto no sentido de delimitar quanto no sentido de deixar passar. Sinta. A pele é o signo da presença inelutável do mistério. Acredite, homem, até em ti o caos habita. E nunca foi possível detê-lo ou contorná-lo. Teu corpo, ele próprio é a prova de que a ordem coabita o caos até mesmo em teu peito forte, em teu crânio avantajado, até mesmo em teu pênis bélico, marcial.
Não acredita? Então lamba a espada e me diga: como é o gosto do metal? Sim: é difícil definir. Sente que sabe, mas não sabe o que sente!

Agora, lembre-se da experiência do relâmpago destruindo tudo que você conhece. Claro, dá muito medo. E este parece que não vai desaparecer tão cedo. Mas fosse essa memória profunda a prova de que não há possibilidade de vida com o caos, bem, então logo você teria que lançar seu corpo no magma. Seu corpo, feito de extensões. Certo. Volumes, vetores, tecidos e até, veja só, os diabólicos neurônios com suas vias elétricas indiscerníveis. Pequenos relâmpagos? Infinitos deles. Extensões são habitadas por intenções que a anatomia nem cogita. Então... é tarde demais para ter medo de viver?

o medo não é nunca de outra coisa que não de uma dor. não há limite para a dor. por mais que já tenha doído, existem sempre artérias menores e mais delicadas para se estourarem, existem sempre do outro lado da ponte os olhos do oprimido encharcados de sangue seco, a decair em proporção contrária a uma dor que só cresce e cresce e nem a morte dá fim

Bem se vê que o suicídio não vence a barreira do orgulho. Você, homem, continua aí, cotidiano, vivendo moralmente, desejando farmácias, se alimentando de pílulas. Os fármaco-aplicativos estão na palma da mão e você nem precisa pagar pela gasolina do entregador.

Em nome da civilização, por meio de uma tecnologia protética, você vai aumentando indefinidamente a sua capacidade de esquecer ou de ignorar. Ignorar o corpo, em primeiro lugar. Em segundo lugar, quem cuida do seu descuido com ele. Em outras palavras, você é um grande técnico em instituições, treinado por dois milênios para gradear, cercear e, enfim, ocultar a realidade do caos. Ou simplesmente canalizá-la em direção ao colo das operárias que você nunca viu o rosto. Mas esse mistério continua passando por você, secretamente, nas frestas. A parte de você que não é sua e nunca será. Você não é seu. Essa é a contradição da carne, a de ser marginal à consciência que a tenta possuir. Nem mesmo o nosso corpo é imediato.

Ah, mas você já até aprendeu alguns métodos para lidar com paradoxos como esse, não é mesmo? Armas de fogo, com sua eficiência instantânea; famílias, com sua mitologia positivada pela ciência.. Muitos métodos grandes e também pequenos, engendrados sobre o fundo falso dessa "razão humana". Variados, diversificados. Desde a instituição da igreja até a instituição do netflix. A sua normatização da hipocrisia deu lugar à naturalização do cinismo. Belo ser humano esse que se construiu! Bom... ele até pode ser belo. Mas nunca será tão belo quanto o Deus que o devora por dentro, tornando insuficiente toda a matéria prima e toda a extensão do globo. 

Como resolver esse problema, se o caos é coextensivo à vida? Realmente há um problema. No domingo vem a infame crise existencial e você pergunta aos céus: "Talvez falte mesmo transcender a carne. Como?" E a resposta cai do céus (ou seja, de todos os lados). 

Homem! Siga diligentemente estas instruções!


A solução para os seus problemas será, primeiramente, isolar do corpo a consciência pura. Então, acople essas informações em uma nave hermética, feita de luz. Em outras palavras, faça upload na nuvem de Noé. Finalmente, é só dizer adeus e viajar na fibra ótica universal. 

Percebe? Assim, vocês estarão livres do erro que a matéria traz consigo! Parece bom, não é? E é mesmo. Pode confiar. Vá. Deixe a carne para os "pobres", para as "mulheres"; transcenda a carne, deixe para trás as feridas, o sangue. Dissolva-se na sopa de fótons, junte-se a Deus no paraíso. Nos deixe. Deixe a Terra. Acelere o progresso ao infinito e viaje, homem, viaje para sempre, sem nunca mais errar, em direção ao seu tão desejado fim!


me vejo desejando sombras gigantes
vejo o ser humano por olhos sem íris
quero ver a grande, a maior, a derradeira confusão