21/01/22

um trago esperando na rua

edição de um poema de 2018

 

Queria por um momento
que a pele da serpente
se invertesse
com o mundo,

que o ar me ligasse
a escamas viscosas
beijando
em todos os lábios dos poros;

que o ar me mordesse
em cada textura escondida,
que fosse
muito menos sutil.

Pervertam as mônadas
em gordas
escamas de atrito
para que a cobra converta,
inverta seu dentro no fora,
e o ar
que nos liga em soltura
se lote
suado
dos pulsos e músculos seus.

Rajadas de vento
no máximo tangem o bafo.
É frio em contraste
com nosso desejo.

Conquistar nas venturas
calor carnudo de apertos
das duras paredes
de um corpo curvo
que esgote
o espaço.

23/12/21

o sonho do autômato

liberdade é uma questão de escolha.
essa frase é um absurdo e se refere precisamente à realidade.
não se pode ser livre sem que a liberdade esteja possibilitada antes.
você não pode conquistar a liberdade porque a conquista é um modo de agir.
penso que agir implica uma fagulha de não-determinação ou, no mínimo, uma contra-determinação.
ao menos é nessa direção que o sentido da palavra aponta.
então há um paradoxo: ter de conquistar a liberdade é não tê-la.
não ter liberdade é impossibilidade de agir e, portanto, de conquistar.
parece uma rua sem saída.
por outro lado, parece um deserto.


por liberdade entende-se a ausência de impedimentos externos, que tiram o poder
de se fazer o que se quer*
de se pensar o que se quer
de ser o que se quer
enfim de realizar

nesse sentido, liberdade é apenas desejo
mas o desejo de comer dá em liberdade?
matar a fome é libertar-se?

um animal, entendido como um ser de instintos, pode fazer o que deseja
um autômato, entendido como um animal artificial, pode fazer o que deseja seu artífice
contudo estas potências
são liberdades paupérrimas
são potências mínimas

quando pautamos a liberdade humana, não é de potências mínimas que falamos
não é da potência do autômato porque
por mais complexo ou extraordinário que seja seu ato
por mais articulações que movimente
nada que faz escapa
de uma determinação

(a não ser que a falha,
o atrito,
o curto-circuito,
sejam feitos
ou contra-determinações)

a liberdade humana é mais
do que poder matar a fome
mais do que poder comprar iPhone
porque essas potências
são potências do animal
e do autômato

nossa pauta é uma potência maior
que a do ser de instintos
que a do ser autômato
por mais sofisticados seus cálculos
tecnológicas suas atividades
por mais delicadas suas articulações
caprichosas suas vontades
não escapa a uma determinação
um robô pode tudo isso

só é livre o artífice:
o que determina a potência do animal

pensou-se que era deus
pensou-se que era a razão universal
hoje pensamos
que é o capital

Klimt





*Thomas Hobbes, "O Leviatã"

08/12/21

a recife criativa da unesco

 

"Recifenses conferem o título de condenscendente à Unesco."
 
Mas falando sério, eu fico muito incomodado lendo coisas como "Recife se tornou uma cidade criativa". Claro que, mediante uma reflexãozinha bem banal, a gente já ressalva que é "só um título conferido por tal instituição". Mas o que há por trás dessa nomeação? É um ato de linguagem, é um ato que engendra uma concepção de mundo. Uma concepção globalista, que toma o "Mundo" como ponto de partida. E aí já vem a imagem da esfera azul e verde. O "olho que tudo vê" dos satélites, a tecnosfera enquanto uma espécie de entidade transcendental, capaz de conferir e retirar essências das coisas do mundo. Enfim, um pacto social global que tenta regular o jogo entre imperialismos, e essas instituições internacionais com o papel de juízes universais. Porque é a UNESCO que valora Recife, e não Recife que valora a UNESCO? Não desprezo os efeitos benéficos desse ato de linguagem, na medida em que pode atrair recursos materiais pras comunidades locais. Mas é ingênuo relevar o fato de que a Recife-da-UNESCO é vinculada a uma perspectiva burguesa e mercadológica. De que esses recursos chegarão destinados à essa Recife - Cidade Criativa, a mais nova mercadoria capaz de gerar valor para esse capital cada vez mais incorporado à tecnosfera. E, bem, que isso aumente a renda de algumas pessoas, que pequenas empresas de turismo se beneficiem disso, que oportunidades nasçam para empreendedores praticarem o "cálculo racional", "serem racionais", e, se abstendo dos afetos locais e suas valorações próprias, vislumbrar uma "criativa" forma-mercadoria de sua própria terra, de sua própria história, de sua própria verdade. Vejam aí o PIB aumentando, a glória econômica coroando a UNESCO como Leviatã, autômato hiper-complexo, invenção científica, que levará a humanidade para seu futuro prometido, de muito consumo, novas moedas. E assim, da singela vontade de aumentar sua qualidade de vida e participar desse futuro, esses novos empreendedores sem saber se transformam na lubrificação da máquina global, ou, quiçá, nas novas linhas do código do grande software. O que é fácil de entender, no entanto, é que na sombra dos crescimentos econômicos há uma edificação de novos abismos entre as pessoas, entre as espécies, entre classes, etc. E a cidade de Recife, que sempre foi "uma cidade criativa", para a qual a palavra "criativa" é quase uma diminuição, veste seu uniforme de competidora global, ganha sua insígnia e avança nas raias do progresso.

07/12/21

eu, pequeno burguês

 Reedição de um poema de 2018


Fumadora de ópio, Fernand Cormon
 

 

a questão toda da sua vida toda ser apenas um universo infinito de demolições
ou ser uma raspa de tijolo quente como a baba de um sol convulsionando
na sala de estar

nascemos pra trair o bom nascimento

então a única maneira de fazer do jeito certo é se lançar pra fora cada vez mais pra fora e estabelecer contato com os dentes dos ratos e lembrar de todo o horror e
se culpar e queimar junto com a culpa de tudo
até não existir mais como pensar em voltar a sentir saudades da infância

com toda essa discussão silenciosa, a micro política a macro política...
qual é a ponte entre as duas ?
cadê a possibilidade de ação ?

o outro é sempre o pior, o fascista, o reaça, o ignorante, o bolsonaro, o "aquele", o "eu" que represento, minha identidade top
ah mas que droga. deveria fazer algo com a minha vida já que
teoricamente tenho todas as armas teóricas na mão.. o chumbo logo apodrece,
logo vai espalhar suas toxinas opressivas no ar ao meu redor. é preciso agir.
vamos logo às pesquisas, fazer trabalho científico, produzir conhecimento
vamos logo às bases, conversar ouvir entender mudar de hábitos
vamos, rápido, pras barricadas trincheiras piquetes explodir bancos
vamos eleger presidentes estudados e representativos de minorias
vamos seu inútil
mas
afinal,
se eu não tenho nem vontade de
parar de comer pacotes inteiros de bis depois do almoço
dormir mais cedo, dormir melhor, dormir de fato
cuidar de um corpo próximo como o "meu" próprio
realizar metade dos projetos que minha mente produz incessantemente
produzindo ideias, planos, planos perfeitos
se às vezes não tenho nem vontade de querer
parar de sofrer
nem dar a cara a bater
implacavelmente rendido à condição factual de ser uma mediocridade definitiva
como posso, ainda, me relacionar como humano?
é possível chegar na conclusão mais nefasta sobre mim mesmo
é possível, é fácil, é
normal até
o mundo parece uma mãe cujo rosto envergonhado vai pairar sobre minha pele
até o fogo da próxima morte


e então acordarei novamente, repetido, suficientemente esquecido,
e vou pegar o busão,
com uma poça a mais no peito

02/12/21

simulacras

Reedição de um poema de 2019.

  É crescente a flora infernal que esgueira seu tortuoso apetite
nas sombras retidas atrás.
Atrás das placas
polidas típicas
pálidas máquinas cívicas.
Atrás das peças.
Por entre as soldas
que em continência
não podem as ver.
São elas as ervas
danadas. Diabas.
Racham paredes,
bebem concreto,
pixam os corpos e
transam o lixo.
Enfim elas gestam
com vulvas nas testas
os templos profanos
e conjuram o fim
das finalidades.

 

Poppies' (ポピー),1925, Takashima Yajuro

 

10/09/21

apresentação do autor e a questão do híbrido

 

não encontrei a/o autor/a desse desenho

Minhas primeiras memórias de escrita são da escola. Aulas de redação. De fato, não é um exemplo bonito de início, daqueles que uma criança poética se encanta com o poder de colocar palavras num papel. No meu caso, foi bem diferente disso. Meus primeiros contatos com a escrita foram carregados de sentimentos conflitantes. Muitos deles raivosos, tensos. Afinal, o que me colocou pra escrever não foi inspiração mas sim a força da pura obrigação. Era aula de redação e eu precisava passar de ano. Fora essa pressão, me faltariam motivos para me debruçar sobre a escrita. Não encontrava sentido naquilo e, na verdade, em nenhuma outra atividade escolar. Entendia essas demandas como regras de um jogo antiquado e perverso, que eu precisaria respeitar apenas pra não ser punido. Até tinha certa razão. Mas não fosse essa falta de sentido, não teria me deparado com a folha em branco. Atravessado de conflitos, em meio à vontade de gritar contra o mundo, abria-se uma possibilidade: diante de mim uma folha em branco, que eu poderia preencher com o sentido que eu bem entendesse. 

Não fui um bom aluno, como se pode inferir. Esburacadas de desordem, minhas redações recebiam notas medianas. Mas em cada uma eu descobria um refúgio, uma espécie de brecha no sistema. Eu só precisava mostrar uma boa gramática, uma certa noção de desenvolvimento e um pouco de coerência – esta última, a mais difícil de conseguir. Esse mínimo de bom comportamento me daria a nota de aprovação e me livraria das punições morais. Com relutância, aceitava que parte do meu texto teria de ser concedido ao correto. Assim, me sentiria suficientemente acobertado. Era parte do jogo. Em compensação, poderia continuar materializando em texto um espírito clandestino que começava a me ganhar. E a vida foi se tornando um pouco como a Julia de “1984” define: “uma coisa muito simples. Você fica querendo se divertir e ‘eles’, ou seja, o Partido, faz de tudo para evitar que você se divirta. Você faz de tudo para infringir as regras.” Sem ser pego, completaria.

Mesmo que numa dimensão muito pessoal e até mesmo um pouco paranóica, escrever já nasceu um ato de afronta e, porque não, de política. Claro que não a política do social, que mais tarde viria a me tomar de assalto. Mas uma política do jogo, da diplomacia na relação com o adversário. Um jogo de elegância, de disfarces, feito de glórias silenciosas e vitórias sutis. Eles teriam de engolir meu texto iconoclasta, niilista, destruidor de morais, pois estava “bem escrito”, digamos assim. Nisso não havia a mesma força que no malandro, este arquétipo do marginal que se torna liso ao portar certas elegâncias, mas se tratava do mesmo tipo de combate. Poder denunciar o embuste do jogo, ao mesmo tempo que o joga. Estudar o mecanismo simbólico pelo qual a boa gramática torna legítimo qualquer conteúdo. É um lance estético, entende? Se você mostrar que sabe pilotar a linguagem, eles vão ficar impressionados. Mesmo que, no fundo, você não saiba. E nem eles. O que importa é “mostrar que sabe”. 

Felizmente, quando pude me livrar da formalidade escolar e me lançar no ócio desconhecido, amadureci. Conhecendo o mundo e encontrando mundos dentro, descobri os outros sentidos da escrita. Diante do globo capitalista, confirmei: as aparências e o jogo estético são armas das mais poderosas. Por outro lado, aprendi que num mundo feito de matéria e de corpos de gente viva, o conteúdo e os efeitos concretos de um texto importam. Importam a ponto de, na ponta, matar ou morrer. E sabendo disso, você deve escolher uma posição: está com os que sempre morreram ou com os que sempre mataram? Esta lição trouxe um elemento novo pro meu texto, o elemento da luta social. Esta adição, é inegável, conflita com aquilo que até então compunha minha escrita. E até hoje é assim. Mas, para o bem ou para o mal, o elemento estético nunca deixou de ser o núcleo motriz. Mais especificamente, a questão que me impele é esta: qual o poder do belo? Quem define o belo? Nós podemos alterar isto? 

O efeito material e o efeito subjetivo do texto não são coisas totalmente dissociáveis. Hoje eu estou um tanto mais consciente da relação existente entre esses dois elementos, ao ponto de poder afirmar: é delicado. Mas é aí, em direção ao delicado, que vai minha expedição. Na direção do balanço frágil entre luta social e subversão estética. Do contato com a vibração que vem do chão, o sismógrafo traduz o conflito entre o sólido e o volátil. Esse é o grafo que eu quero mimetizar.

século XIX, Índia, anônimo

híbrido

Mas afinal, porque escritos híbridos? Bom, esta palavra tem seu uso mais comum na arena da biologia. Diz-se do indivíduo gerado no cruzamento de espécies diferentes. E daí a linguagem derivou seu uso figurativo, pra qualificar tudo que nasce de um cruzamento heterogêneo. O interessante sobre essa palavra é que, por ser usada na biologia, indica um contexto formado por seres vivos. E o que isso traz de vantajoso? No reino do que é vivo, não faz sentido falar de contrários e nem de idênticos. Só há diferentes. A hibridição não é uma síntese entre duas coisas contrárias, e tampouco é o inverso de uma geração entre iguais. O que ela gera não homogeiniza os dois termos da relação em uma nova unidade. O híbrido manifesta um meio, um novo meio; é um terceiro que carrega qualidades do primeiro e do segundo, sem por isso sê-los. 

No reino da escrita, as espécies são os gêneros textuais. Prosa, poesia, ensaio, artigo, tese, resenha, crítica, etc. E dentro delas, um punhado de subespécies. Cada gênero tem suas qualidades particulares de tamanho, tom, linguagem, interlocutor e propósito, e a combinação destes atributos resulta naquilo que o texto tem de mais concreto: sua efetivação no suporte e o efeito que dali ele terá no mundo, por meio dos/as leitores/as. Assentado esse assunto, já podemos deduzir o que seria um escrito híbrido: um escrito que não se identifica com nenhum dos gêneros textuais, mas que se encontra no entremeio dos mesmos. Na fauna textual, um híbrido exemplar é a prosa-poética. Talvez seja o mais aceito e utilizado. É a mula dos textos, poderíamos dizer. Possui a força explosiva de um cavalo – poesia – com a resistência incansável de um jegue – prosa. 

Não vou inspecionar aqui cada detalhe dessa metáfora, ainda que seja interessante. (O híbrido coloca em questão a oposição entre artificialidade e natureza, questão essa que, em termos de escrita, alimenta uma bela e longa viagem. Mas isto é para um outro momento.) Meu interesse agora é contar o que penso ser a principal causa de meus textos devirem híbridos. E digo: é a qualidade subjetiva presente lá na origem, nas aulas de redação, e que reverbera até hoje. Como disse, a minha escrita nasceu em um contexto de conflito pessoal, de tensão. O mundo pequeno, estreito, delimitado pela escola e pelas relações de poder inerentes, transbordava em regras complicadas e arbitrárias. A maioria delas, não ditas. Para respeitá-las, para agir conforme, era preciso, primeiro, decifrar uma rede complexa e invisível de normas, segundo, domar os impulsos e modelar-se. Mas eu dificilmente conseguia decifrar essas normas, e mesmo quando conseguia, minha vontade era contrária ao modelo. Uma dupla dificuldade – incapacidade de compreensão das normas e também uma afronta inconsequente – foi o signo sob o qual brotou minha escrita. E essa dupla dificuldade reverbera até hoje. Eu ainda peno para adequar meu texto às exigências formais, seja porque me parecem complicadas, seja porque me parecem demasiado arbitrárias.

No entanto, com o passar dos anos, eu soube dar a devida atenção às normas, de modo a poder descobrir razões subjacentes que me provam: não é pura arbitrariedade. Objetivamente falando, na escrita as normas prescrevem a boa gramática e a adequação às formas textuais. Como norma, isso soa apenas como uma tentativa forçada de disciplinar a arte textual. Era assim que eu via. Mas o amadurecimento me proporcionou encontrar um sentido não normativo para a preocupação com a forma. A razão é que tais qualidades promovem a capacidade do texto de ser socializado; sem nenhuma preocupação formal, o texto isola-se em si mesmo. 

Por mais geniais e/ou criativas que sejam as ideias de um/a escritor/a, por mais ousadas as direções que ele/a pretenda tomar em sua escrita, ainda precisa materializá-las num corpo textual e colocá-lo num suporte. Na imaginação, esse corpo textual é um colóide quimérico que pode assumir infinitas formas sem perder sua potência incisiva num suposto leitor. Mas no suporte essa liberdade privada desaparece, dando lugar às limitações do mundo material. Nele, o compartilhamento entre as pessoas de formas textuais definíveis, adequadas aos meios atuais, garante a possibilidade de comunicação. Por isso, é interessante para o/a criador/a textual respeitar as formas e gerar escritos que possuam os atributos formais correspondentes. É poder ser acessado por diversos/as leitores/as, não só aqueles que partilham de suas ligações estéticas. 

Por outro lado, essas formas compartilhadas não são dadas naturalmente, como se uma objetividade última nos dissesse: é assim que as coisas são e devem ser. Há um processo pelo qual se engendram formas aceitáveis e se excluem outras. E a suspeita de que novas formas pudessem surgir residia na minha convicção de que a natureza da escrita não poderia ser tão auto-limitante. Eis que hoje eu sou convicto para afirmar: aquilo que limita e define as formas textuais não é amigo da potencialidade artística e, mais do que isto, se apoia em convenções secretamente arbitrárias, apegadas ao passado antiquado do mundo textual (ocidental). Essa crítica à forma, que hoje eu faço com maior embasamento, pesa muito. E a balança da escrita continua instável, sem render-se a nenhum dos polos.

Uma escrita que ignore ou desconheça completamente a razão das formas textuais convencionais, tende ao isolamento e à privatização. Eu, com minha rebeldia imatura, fiz dos meus textos reféns, condenados ao ensimesmamento. Claro que foi importante experimentar, brincar de palavras, construir um laboratório textual, mas isso raramente produziu pontes com o mundo. Pese-se o fato de que esse isolamento não foi fruto de simples rebeldia; como disse, também era uma honesta incapacidade de entender as normas e formas. Assim, a dificuldade de adestrar a fruição de minha escrita se deve tanto à sua ferocidade plena de justiça, quanto à minha incapacidade técnica. Eu sabia – e sei – que sem uma insubmissão às regras formais não seria possível revelar a arbitrariedade estética que as governa por trás; que muito do que é considerado belo é apenas correto, e vice-versa. Mas é preciso desconstruir o sistema por dentro, infiltrando-se, jogando seu jogo, camuflando a rebeldia com a perspicácia de uma técnica textual que respeita formas. Pois as formas textuais são critérios de visibilidade e legibilidade. Sem elas, o texto, mesmo escrito com sangue e sabedoria, pode tornar-se invisível.

O híbrido é, portanto, uma maneira de balancear, sem equilibrar, esse aparente antagonismo entre a convenção e a invenção. De forma alguma meus textos devém híbridos por uma decisão consciente, baseada em um raciocínio como o que eu consegui destrinchar aqui, neste texto. O hibridismo foi efeito de uma tensão afetiva, emocional e política. Eu ainda sinto a necessidade de desestabilizar os tácitos acordos estéticos que são revestidos de “maneiras certas de escrever”. Mas com o tempo eu fui entendendo que saber usar palavras da moda, respeitar as convenções semânticas e gramaticais, despojar-se de sintaxes experimentais e, principalmente, escrever dentro dos moldes das formas textuais, é uma atividade trabalhosa e nobre, admirável até. Mais do que isto, o estudo que permite sustentar essa atividade também pode alimentar o/a escritor/a com um conhecimento valioso. Pois sem conhecer as espécies aceitas de texto, não seria possível escrever no cruzamento delas. O texto híbrido, habitante da zona limítrofe entre as formas textuais, instiga o/a leitor/a ao estranho e ao mesmo tempo o/a acolhe dentro do familiar. Sem se alienar nem se alinhar ao formal, os escritos híbridos expressam uma tentativa textual de manter a diferença viva, selvagem, mas socializável.

É assim que eu consigo entender grande parte do meu processo de criação textual. Hoje, particularmente, estou me empenhando em trazer meus escritos para formas mais bem definidas. Dar maior tempo e espaço para a etapa da projeção, qualificá-la com planejamento, para que os textos devenham estruturalmente limpos e elegantes. Principalmente, para o que o tamanho do texto, esse atributo dificílimo de controlar, se adeque melhor às situações. Que esse tamanho se equilibre com o combustível da fruição, para nutrir o fôlego do/a leitor/a, tornando o texto interessante o bastante para ser lido até o fim, sem perder as ideias principais. Bom, é o que eu estou tentando fazer ultimamente. Espero que escritore/as possam identificar-se com alguma parte do meu processo. Adoraria escutá-los à esse respeito. No mais, que possamos desafiar o público leitor em direção às bordas do esperado, adentrando juntes nas margens das formas para experimentar coletivamente o fascínio do desconhecido. Oxalá a gente possa participar de uma transformação da norma estética, quem sabe até desestabilizar a beleza.

31/08/21

na sociedade do controle: o deus micro-chip

 


O silício é a nova onda. Todo mundo está atrás desse hype. O micro-chip como objeto-símbolo da glória. O sucesso. “Trabalhai com o silício e poderás reduzir infinitamente o tempo entre o objetivo e o resultado.” Foi isto que a vida me ensinou. Você consegue imaginar? Imediatamente, querer e conseguir! Isso não seria a experiência de dEUs?

Mas eu não me sinto assim. Meus amigos estão se suicidando e os que não conheço de perto estão sendo assassinados por suicidas. O tempo de fato se reduz, mas não para de ficar menor. Então, essa glória de silício… Pra quem ela funciona? Talvez estejamos redescobrindo que o ser humano foi mesmo uma invenção divina. Cordeirinhos lógicos.

Deus quer e deus faz acontecer. Ele vai descer à Terra, gozar de existência sólida, incorporar-se, sem por isso deixar que as dificuldades da matéria impeçam o livre exercício de sua existência divina. Ele descerá e continuará onipotente. Mas qual será o corpo que assumirá? Nós, o pessoal do círculo de profanos sabotadores, ficamos sabendo que a glória do silício está reservada para um avatar não-humano. O paraíso sobre a Terra está próximo, muito próximo de acontecer. Mas nós não vamos experienciar isto, porque está para além dos sentidos, como já foi repetido tantas vezes.

É possível, no entanto, ter um vislumbre. Vocês já devem ter visto as imagens aéreas da cidade e das zonas rurais. (O satélite tem a visão dos anjos, porque pode ver os movimentos de deus na Terra.) Sim, você está vendo um grande chip. Tudo está medido, toda a superfície terrestre, esquadrinhada. Não há mais um “fora”. Agora falta apenas trabalhar os sólidos que ainda apresentam alguma irregularidade. Aos poucos tudo vai assumindo a forma de uma plano cartesiano bidimensional. A altura? É apenas a possibilidade de se empilharem os planos. Você pensava que a imagem de deus fosse uma coisa mais bela, não é mesmo?

Podemos perceber que tudo é uma questão de asfaltar, de se expandirem as vias, de se multiplicarem – controladamente – os canais por onde passa a energia. Que energia? Ora, são os elétrons, finalmente controlados. Após dois milênios de domesticação da Terra, o impulso elétrico, o sutil, a primeira densificação material da energia, está controlado. Graças ao trabalho de bilhões de pessoas ao longo dos séculos. Mas vejam, isto já era novidade no século XX. A onda agora é controlar a energia em seu estado ainda imaterial, para que ela também possa ser canalizada pelas vias do silício. Estou falando do desejo. Sim, o impulso, o querer, a vontade, dê o nome que quiser, é essa dimensão imaterial que está se conseguindo canalizar. Fora isto não haverá mais nada.

Então a cena aí, para contemplarmos. O chip como modo de existência se materializando. Exemplo: a cidade. Ela é também um corpo binário, de vias e chaves. Vias por onde passamos – sem escolha, pois sempre há a smartness de um phone para nos fornecer o caminho mais rápido. O objetivo é chegar o mais rápido possível num lugar e ativar sua função, chavinha no ON. Entretenimento, trabalho. Ativa-se, cumpre-se o objetivo, desativa-se. Chavinha no OFF. A vida para nós humanos parece ter sido reduzida ao grau mínimo do movimento, o binarismo da diferença: o zero/um. Tudo é uma questão de verdadeiro ou falso. “Meu amigo: ou você está dentro da identidade que eu construí com as informações dadas, ou você simplesmente não existe. Não tem erro.” É isso que pensamos quando olhamos no espelho – seja ele opaco ou transparente.  Sim, para nós humanos não há muita liberdade, onipotência, porque nós somos apenas os peões, os elétrons.

– Zero / um. Ou se está na unidade, onde todo o universo está pleno, preenchido de sentido, sem sobras, sem espaço para criação; ou se está no absoluto vazio, na completa falta de sentido, existência sentida como pura destruição, pura morte.
– Ora, mas isto é um exagero! É possível vivenciar o meio! Estamos certos de que vivemos o meio como algo real.
-Evidentemente ainda existem nuances, ainda existe o possível, na medida em que conseguimos subverter a linearidade fixa das vias e recortar caminhos, rabiscar. Na medida em que os lugares deixarem de existir apenas para uma função. Na medida em que… nos perdemos em sombras confusas e… não há nem coragem para o suicídio e tampouco confiança para berrar na rua.
-Só que tudo isto é loucura, é clichê, é obscurantismo! Coisa de personagem de filme cult. Veja, a onda é o silício. Quem não está gozando desse hype só pode ficar com esse tom cinzento mesmo. Venha, deixa de zigue-zague e venha experimentar dEUs!

– Não é mais questão de olhar uma pedra bruta e já logo pensar em seu estado objetificado e funcional, ignorando toda singularidade, textura, diferença irredutível.
– Quem pensa essas coisas desse jeito? Você parece considerar que esse tipo de olhar é cultural, como se ele não fosse a natureza humana. Ora, pare com bobagens. Olhe ao seu redor: a tal pedra já não é bruta. É cimento, cascalho, mármore, arenito. A calçada tem linhas e se divide claramente da rua. A árvore tem seu lugar, o canteiro denota. Tem a praça, que é para o laser, há bancos para se sentar, e o lugar de cada indivíduo na sociedade, visível, tudo bem visível. Tudo dentro do globo tem identidade, endereço, de modo que a mente não precisa mais perder tempo em confusão. Se antes era necessário seres humanos para nos alinharem no caminho do controle, hoje a própria paisagem já se encarrega disso. O mundo funciona. O mundo funciona!

Sentiu essa pegada fria? Sente esse espírito terminando sua existência, fazendo os retoques finais, o acabamento da obra. A obra do silício. Tudo passa pelo seu crivo técnico. O corpo, essa imperfeição de carne ambulante, é errante demais para os trabalhos divinos. Para os resultados, confiamos mais na inteligência nanométrica de um computador, aquela que pode selecionar, recortar, copiar com perfeição; aquela com a qual o ser goza da velocidade da luz. O projeto é todo feito no software.
E a rua já está ficando linda! s2
Vê, as lojinhas tem fachadas metálicas com pintura homogênea, os letreiros, as placas, os logotipos, são impressões 3D: materializações perfeitas do projeto. O mundo material se igualará ao virtual! A cidade está avançando prodigiosamente para alcançar a funcionalidade da tela (dos nossos olhos), nossos smartphones. As funções básicas funcionam discretamente, é tudo interativo, cada opção é bem clara e definida pelo design digital, e podemos nos divertir com aplicações. Vai dizer que o site da avenida paulista não é interativo?

Mas é claro, nem todos tem endereço. Nem todas tem sua identidade… identificada. Nem mesmo todos tem smartphones. Nem tampouco o privilégio da leitura. Como já foi dito, o paraíso ainda não chegou. Mas é questão de tempo. É só você não olhar muito para isso. Não olhe o caos. Aquela viela tortuosa, escura, que te chama, cheia de pessoalidade, como num sonho? Não olhe. Aqueles rostos amassados pelo pó e pelo tempo, catando a possibilidade do Sol nascer em sacos de lixo? Não olhe. Ou olhe. É um ou zero. Se o que você quer é desgrenhar das esteiras, pode cair. Se o que você deseja é o curto-circuito, vá em frente. A loucura, o clichê, o obscurantismo dos personagens de filme cult. Mas todos esses erros de rua que você advoga por aí, com seus olhos indiscretos, serão reparados na próxima atualização. Serão eliminados porque não funcionam. E você vai sobrar no limbo, cheio de amigos suicidas.
Ainda há tempo para embarcar na onda. Controle sua vida.

Mas quem é você? Não há ninguém aqui. Estou falando comigo mesmo. Com quem estou conversando? Estou confuso. Talvez esteja possuído. Como posso ter certeza de que controlo minhas ações? Como disse, faço parte de profanos sabotadores, não sou de silício e não quero que o paraíso se instale definitivamente sobre a Terra! Dela eu quero sentir as nuances, os relevos, as diferenças de temperatura. Quero experimentar os sentidos de cada paisagem. Vejo na pedra bruta uma forma ainda não geométrica, de superfície imensurável… Estou louco. Gostaria que alguém me ajudasse a saber: como posso ter certeza de que controlo minhas ações, de que estou ajudando a causa? Onde acaba o que sou EU e começa a cidade, as máquinas, o ônibus, o smartphone? Quais são os limites entre entre entre essas coisas? Me disseram que o limite quem dá é a pessoa. Mas não sei onde fazer esse corte. Estou tomado por um desejo de ter certeza. Um desejo que me impede. Vou em direção aos fatos, então. O que de fato eu posso fazer?

Pés no chão, experimento caminhar pela rua. Posso cruzar antes do sinal abrir? Posso ignorar os limites da calçada, invadir o espaço dos carros? Posso sair à noite, sentar na sarjeta e brincar com palavras? Sentar no degrau de uma loja fechada e apoiar minhas costas naqueles portões de aço pixados? Posso olhar os pixos, demorar-me neles e apreciá-los assim, desse jeito, sem entendê-los? Nesse momento um vento sopra pelas folhas. Posso tudo isso. Mas não por muitos minutos. A hora existe e já estou pensando: o que vou fazer com essa experiência? Qual a finalidade disso? As vozes me dizem que é coisa de deixar acontecer, sentir, sem a certeza de um propósito. Então continuo a vida, vou atrás do sonho, pego metrô. Vigoroso, inspiro esse ar. Vem a náusea do metrô. Colado em um monte de gente colada. Estamos mais próximos do que eu jamais fiquei de muitas pessoas que tenho amizade. Aqui o toque precisa ser esvaziado de sentido. Aqui tudo ao redor vira… massa humana. Inferno! Parece que a homogeneização se apodera de mim, o plano cartesiano, o espírito do silício… Mas não. Eu posso, eu posso, eu posso. E o que eu faço é me demorar, reparar em cada rosto, cada jeitinho, cada estilo. Só que cada estilo faz aparecer na minha cabeça um tipo de identidade. Isso aumenta minha náusea. Assim como as televisões penduradas no teto do vagão. Ah, elas são difíceis de ignorar, com sua luz forte e colorida. Colorido mesmo, de chegar a cansar a vista, são aqueles cartazes que ficam nas paredes das estações. Porque estou olhando pra isso?! Eu realmente não controlo: quando elas mudam, de uma marca para outra, sempre reparo! E mais: examino a propaganda nova e sinto um alívio profundo. Ah, eu precisava disso! Mas não dá tempo de sentir. Nem a náusea nem o alívio. O tempo é curto e eu preciso pensar e programar o tempo. O tempo que vai levar para chegar no lugar, o tempo que vai levar para realizar o sonho, o tempo dos encontros, o tempo das desprogramações, enfim, programar o tempo. Preciso? Quero. Posso? Talvez… mas tudo isso depende da velocidade do transporte público.

Quero sentar na sarjeta novamente, sentir o meio-fio. Entrar na viela, reparar na aspereza do muro, as nuances, as irregularidades expressivas que tanto me provocam e assim acabam realmente direcionando o sentido torto da minha vida. Estou a deriva. Quero pensar sobre a cidade, mesmo não sabendo o que sou, onde começo e onde acaba o mundo. Parece que esse pensar é tanto meu quanto de tudo isso que me atravessa. Talvez eu seja a própria cidade pensando sobre a cidade.

Pode ser que a superfície terrestre não se transforme num micro-chip planetário. Como se pode ver à partir das experiências pessoais, em que o meio parece invadir e brotar no meio do campo consciente, a ação pode não ser mesmo de deus. É possível que não aconteça a sua materialização definitiva pelo silício, com sua onipotência, sua capacidade de transformar instantaneamente a vontade em realização. Mas me parece que é isso que se deseja, quando o ser humano se afirma como Deus na Terra – seja no discurso eclesiástico, seja no científico. O antropocentrismo é a certeza de que a experiência da espécie humana (seja lá o que isso for), é a consciência cósmica iluminando a escuridão da matéria. Mas quem decidiu os limites? Onde acaba o consciente e começa o inconsciente? Pensa-se no silício como uma ferramenta controlada. Mas é possível e até fácil, observando o estado atual das coisas, falar de como esse mesmo silício se utiliza de nós, de como nos tornamos ferramenta da ferramenta. É louco né? Ficou difícil falar de controle agora.
Nos parece vital trazer uma recordação: o limite quem dá é a pessoa. E esse limite, esse corte, é uma ação. Uma escolha a ser tomada e um erro a ser vivido. Mas mesmo que a consciência não se apodere desse corte, ele está se dando continuamente, a cada instante, e é essa a grande onda.

A verdade é que deseja-se esse poder absoluto. Existe uma vontade de poder. E, veja, essa frase tem uma força gravitacional tremenda, como se fosse algo do mais profundo, como se fosse um fundamento. Mas se esquece que é uma escolha, ainda. Podemos preferir ao poder, a criação. Ainda há o desejo de criação. Mas acontece que a criação se dá mesmo no encontro com o mistério. A matéria, escura, faz a luz curvar-se. Se estas fendas cósmicas forem eliminadas, o acontecimento será aprisionado no infinito.

Para terminar falando em modos de existência, ainda existe o da Terra. Uma vida. Uma natureza povoada de outras, que não se encerra numa forma. É algo que perfura os céus com o incontrolável. Algo como o desejo, uma força que provoca o espaço; instauração sólida da incerteza. Isto ainda existe e o controle não se tornará absoluto. A menos que este poder seja o objeto do nosso desejo. Mas não é.