14/02/22

utopia

imaginem uma ditadura
não há chicotes
tangíveis

imaginem o espetáculo
a tortura
não há sangue

a sobrevida do escravo
vira imagem do sucesso
resiliência
exemplo

o trabalho do carrasco
expressa o mal
sua morte
o bem

agora,
imaginem um senhor
prédios iguais
espelhados
imunes
à nossa revolta






21/01/22

um trago esperando na rua

edição de um poema de 2018

 

Queria por um momento
que a pele da serpente
se invertesse
com o mundo,

que o ar me ligasse
a escamas viscosas
beijando
em todos os lábios dos poros;

que o ar me mordesse
em cada textura escondida,
que fosse
muito menos sutil.

Pervertam as mônadas
em gordas
escamas de atrito
para que a cobra converta,
inverta seu dentro no fora,
e o ar
que nos liga em soltura
se lote
suado
dos pulsos e músculos seus.

Rajadas de vento
no máximo tangem o bafo.
É frio em contraste
com nosso desejo.

Conquistar nas venturas
calor carnudo de apertos
das duras paredes
de um corpo curvo
que esgote
o espaço.

23/12/21

o sonho do autômato

liberdade é uma questão de escolha.
essa frase é um absurdo e se refere precisamente à realidade.
não se pode ser livre sem que a liberdade esteja possibilitada antes.
você não pode conquistar a liberdade porque a conquista é um modo de agir.
penso que agir implica uma fagulha de não-determinação ou, no mínimo, uma contra-determinação.
ao menos é nessa direção que o sentido da palavra aponta.
então há um paradoxo: ter de conquistar a liberdade é não tê-la.
não ter liberdade é impossibilidade de agir e, portanto, de conquistar.
parece uma rua sem saída.
por outro lado, parece um deserto.


por liberdade entende-se a ausência de impedimentos externos, que tiram o poder
de se fazer o que se quer*
de se pensar o que se quer
de ser o que se quer
enfim de realizar

nesse sentido, liberdade é apenas desejo
mas o desejo de comer dá em liberdade?
matar a fome é libertar-se?

um animal, entendido como um ser de instintos, pode fazer o que deseja
um autômato, entendido como um animal artificial, pode fazer o que deseja seu artífice
contudo estas potências
são liberdades paupérrimas
são potências mínimas

quando pautamos a liberdade humana, não é de potências mínimas que falamos
não é da potência do autômato porque
por mais complexo ou extraordinário que seja seu ato
por mais articulações que movimente
nada que faz escapa
de uma determinação

(a não ser que a falha,
o atrito,
o curto-circuito,
sejam feitos
ou contra-determinações)

a liberdade humana é mais
do que poder matar a fome
mais do que poder comprar iPhone
porque essas potências
são potências do animal
e do autômato

nossa pauta é uma potência maior
que a do ser de instintos
que a do ser autômato
por mais sofisticados seus cálculos
tecnológicas suas atividades
por mais delicadas suas articulações
caprichosas suas vontades
não escapa a uma determinação
um robô pode tudo isso

só é livre o artífice:
o que determina a potência do animal

pensou-se que era deus
pensou-se que era a razão universal
hoje pensamos
que é o capital

Klimt





*Thomas Hobbes, "O Leviatã"

08/12/21

a recife criativa da unesco

 

"Recifenses conferem o título de condenscendente à Unesco."
 
Mas falando sério, eu fico muito incomodado lendo coisas como "Recife se tornou uma cidade criativa". Claro que, mediante uma reflexãozinha bem banal, a gente já ressalva que é "só um título conferido por tal instituição". Mas o que há por trás dessa nomeação? É um ato de linguagem, é um ato que engendra uma concepção de mundo. Uma concepção globalista, que toma o "Mundo" como ponto de partida. E aí já vem a imagem da esfera azul e verde. O "olho que tudo vê" dos satélites, a tecnosfera enquanto uma espécie de entidade transcendental, capaz de conferir e retirar essências das coisas do mundo. Enfim, um pacto social global que tenta regular o jogo entre imperialismos, e essas instituições internacionais com o papel de juízes universais. Porque é a UNESCO que valora Recife, e não Recife que valora a UNESCO? Não desprezo os efeitos benéficos desse ato de linguagem, na medida em que pode atrair recursos materiais pras comunidades locais. Mas é ingênuo relevar o fato de que a Recife-da-UNESCO é vinculada a uma perspectiva burguesa e mercadológica. De que esses recursos chegarão destinados à essa Recife - Cidade Criativa, a mais nova mercadoria capaz de gerar valor para esse capital cada vez mais incorporado à tecnosfera. E, bem, que isso aumente a renda de algumas pessoas, que pequenas empresas de turismo se beneficiem disso, que oportunidades nasçam para empreendedores praticarem o "cálculo racional", "serem racionais", e, se abstendo dos afetos locais e suas valorações próprias, vislumbrar uma "criativa" forma-mercadoria de sua própria terra, de sua própria história, de sua própria verdade. Vejam aí o PIB aumentando, a glória econômica coroando a UNESCO como Leviatã, autômato hiper-complexo, invenção científica, que levará a humanidade para seu futuro prometido, de muito consumo, novas moedas. E assim, da singela vontade de aumentar sua qualidade de vida e participar desse futuro, esses novos empreendedores sem saber se transformam na lubrificação da máquina global, ou, quiçá, nas novas linhas do código do grande software. O que é fácil de entender, no entanto, é que na sombra dos crescimentos econômicos há uma edificação de novos abismos entre as pessoas, entre as espécies, entre classes, etc. E a cidade de Recife, que sempre foi "uma cidade criativa", para a qual a palavra "criativa" é quase uma diminuição, veste seu uniforme de competidora global, ganha sua insígnia e avança nas raias do progresso.

07/12/21

eu, pequeno burguês

 Reedição de um poema de 2018


Fumadora de ópio, Fernand Cormon
 

 

a questão toda da sua vida toda ser apenas um universo infinito de demolições
ou ser uma raspa de tijolo quente como a baba de um sol convulsionando
na sala de estar

nascemos pra trair o bom nascimento

então a única maneira de fazer do jeito certo é se lançar pra fora cada vez mais pra fora e estabelecer contato com os dentes dos ratos e lembrar de todo o horror e
se culpar e queimar junto com a culpa de tudo
até não existir mais como pensar em voltar a sentir saudades da infância

com toda essa discussão silenciosa, a micro política a macro política...
qual é a ponte entre as duas ?
cadê a possibilidade de ação ?

o outro é sempre o pior, o fascista, o reaça, o ignorante, o bolsonaro, o "aquele", o "eu" que represento, minha identidade top
ah mas que droga. deveria fazer algo com a minha vida já que
teoricamente tenho todas as armas teóricas na mão.. o chumbo logo apodrece,
logo vai espalhar suas toxinas opressivas no ar ao meu redor. é preciso agir.
vamos logo às pesquisas, fazer trabalho científico, produzir conhecimento
vamos logo às bases, conversar ouvir entender mudar de hábitos
vamos, rápido, pras barricadas trincheiras piquetes explodir bancos
vamos eleger presidentes estudados e representativos de minorias
vamos seu inútil
mas
afinal,
se eu não tenho nem vontade de
parar de comer pacotes inteiros de bis depois do almoço
dormir mais cedo, dormir melhor, dormir de fato
cuidar de um corpo próximo como o "meu" próprio
realizar metade dos projetos que minha mente produz incessantemente
produzindo ideias, planos, planos perfeitos
se às vezes não tenho nem vontade de querer
parar de sofrer
nem dar a cara a bater
implacavelmente rendido à condição factual de ser uma mediocridade definitiva
como posso, ainda, me relacionar como humano?
é possível chegar na conclusão mais nefasta sobre mim mesmo
é possível, é fácil, é
normal até
o mundo parece uma mãe cujo rosto envergonhado vai pairar sobre minha pele
até o fogo da próxima morte


e então acordarei novamente, repetido, suficientemente esquecido,
e vou pegar o busão,
com uma poça a mais no peito

02/12/21

simulacras

Reedição de um poema de 2019.

  É crescente a flora infernal que esgueira seu tortuoso apetite
nas sombras retidas atrás.
Atrás das placas
polidas típicas
pálidas máquinas cívicas.
Atrás das peças.
Por entre as soldas
que em continência
não podem as ver.
São elas as ervas
danadas. Diabas.
Racham paredes,
bebem concreto,
pixam os corpos e
transam o lixo.
Enfim elas gestam
com vulvas nas testas
os templos profanos
e conjuram o fim
das finalidades.

 

Poppies' (ポピー),1925, Takashima Yajuro

 

10/09/21

apresentação do autor e a questão do híbrido

 

não encontrei a/o autor/a desse desenho

Minhas primeiras memórias de escrita são da escola. Aulas de redação. De fato, não é um exemplo bonito de início, daqueles que uma criança poética se encanta com o poder de colocar palavras num papel. No meu caso, foi bem diferente disso. Meus primeiros contatos com a escrita foram carregados de sentimentos conflitantes. Muitos deles raivosos, tensos. Afinal, o que me colocou pra escrever não foi inspiração mas sim a força da pura obrigação. Era aula de redação e eu precisava passar de ano. Fora essa pressão, me faltariam motivos para me debruçar sobre a escrita. Não encontrava sentido naquilo e, na verdade, em nenhuma outra atividade escolar. Entendia essas demandas como regras de um jogo antiquado e perverso, que eu precisaria respeitar apenas pra não ser punido. Até tinha certa razão. Mas não fosse essa falta de sentido, não teria me deparado com a folha em branco. Atravessado de conflitos, em meio à vontade de gritar contra o mundo, abria-se uma possibilidade: diante de mim uma folha em branco, que eu poderia preencher com o sentido que eu bem entendesse. 

Não fui um bom aluno, como se pode inferir. Esburacadas de desordem, minhas redações recebiam notas medianas. Mas em cada uma eu descobria um refúgio, uma espécie de brecha no sistema. Eu só precisava mostrar uma boa gramática, uma certa noção de desenvolvimento e um pouco de coerência – esta última, a mais difícil de conseguir. Esse mínimo de bom comportamento me daria a nota de aprovação e me livraria das punições morais. Com relutância, aceitava que parte do meu texto teria de ser concedido ao correto. Assim, me sentiria suficientemente acobertado. Era parte do jogo. Em compensação, poderia continuar materializando em texto um espírito clandestino que começava a me ganhar. E a vida foi se tornando um pouco como a Julia de “1984” define: “uma coisa muito simples. Você fica querendo se divertir e ‘eles’, ou seja, o Partido, faz de tudo para evitar que você se divirta. Você faz de tudo para infringir as regras.” Sem ser pego, completaria.

Mesmo que numa dimensão muito pessoal e até mesmo um pouco paranóica, escrever já nasceu um ato de afronta e, porque não, de política. Claro que não a política do social, que mais tarde viria a me tomar de assalto. Mas uma política do jogo, da diplomacia na relação com o adversário. Um jogo de elegância, de disfarces, feito de glórias silenciosas e vitórias sutis. Eles teriam de engolir meu texto iconoclasta, niilista, destruidor de morais, pois estava “bem escrito”, digamos assim. Nisso não havia a mesma força que no malandro, este arquétipo do marginal que se torna liso ao portar certas elegâncias, mas se tratava do mesmo tipo de combate. Poder denunciar o embuste do jogo, ao mesmo tempo que o joga. Estudar o mecanismo simbólico pelo qual a boa gramática torna legítimo qualquer conteúdo. É um lance estético, entende? Se você mostrar que sabe pilotar a linguagem, eles vão ficar impressionados. Mesmo que, no fundo, você não saiba. E nem eles. O que importa é “mostrar que sabe”. 

Felizmente, quando pude me livrar da formalidade escolar e me lançar no ócio desconhecido, amadureci. Conhecendo o mundo e encontrando mundos dentro, descobri os outros sentidos da escrita. Diante do globo capitalista, confirmei: as aparências e o jogo estético são armas das mais poderosas. Por outro lado, aprendi que num mundo feito de matéria e de corpos de gente viva, o conteúdo e os efeitos concretos de um texto importam. Importam a ponto de, na ponta, matar ou morrer. E sabendo disso, você deve escolher uma posição: está com os que sempre morreram ou com os que sempre mataram? Esta lição trouxe um elemento novo pro meu texto, o elemento da luta social. Esta adição, é inegável, conflita com aquilo que até então compunha minha escrita. E até hoje é assim. Mas, para o bem ou para o mal, o elemento estético nunca deixou de ser o núcleo motriz. Mais especificamente, a questão que me impele é esta: qual o poder do belo? Quem define o belo? Nós podemos alterar isto? 

O efeito material e o efeito subjetivo do texto não são coisas totalmente dissociáveis. Hoje eu estou um tanto mais consciente da relação existente entre esses dois elementos, ao ponto de poder afirmar: é delicado. Mas é aí, em direção ao delicado, que vai minha expedição. Na direção do balanço frágil entre luta social e subversão estética. Do contato com a vibração que vem do chão, o sismógrafo traduz o conflito entre o sólido e o volátil. Esse é o grafo que eu quero mimetizar.

século XIX, Índia, anônimo

híbrido

Mas afinal, porque escritos híbridos? Bom, esta palavra tem seu uso mais comum na arena da biologia. Diz-se do indivíduo gerado no cruzamento de espécies diferentes. E daí a linguagem derivou seu uso figurativo, pra qualificar tudo que nasce de um cruzamento heterogêneo. O interessante sobre essa palavra é que, por ser usada na biologia, indica um contexto formado por seres vivos. E o que isso traz de vantajoso? No reino do que é vivo, não faz sentido falar de contrários e nem de idênticos. Só há diferentes. A hibridição não é uma síntese entre duas coisas contrárias, e tampouco é o inverso de uma geração entre iguais. O que ela gera não homogeiniza os dois termos da relação em uma nova unidade. O híbrido manifesta um meio, um novo meio; é um terceiro que carrega qualidades do primeiro e do segundo, sem por isso sê-los. 

No reino da escrita, as espécies são os gêneros textuais. Prosa, poesia, ensaio, artigo, tese, resenha, crítica, etc. E dentro delas, um punhado de subespécies. Cada gênero tem suas qualidades particulares de tamanho, tom, linguagem, interlocutor e propósito, e a combinação destes atributos resulta naquilo que o texto tem de mais concreto: sua efetivação no suporte e o efeito que dali ele terá no mundo, por meio dos/as leitores/as. Assentado esse assunto, já podemos deduzir o que seria um escrito híbrido: um escrito que não se identifica com nenhum dos gêneros textuais, mas que se encontra no entremeio dos mesmos. Na fauna textual, um híbrido exemplar é a prosa-poética. Talvez seja o mais aceito e utilizado. É a mula dos textos, poderíamos dizer. Possui a força explosiva de um cavalo – poesia – com a resistência incansável de um jegue – prosa. 

Não vou inspecionar aqui cada detalhe dessa metáfora, ainda que seja interessante. (O híbrido coloca em questão a oposição entre artificialidade e natureza, questão essa que, em termos de escrita, alimenta uma bela e longa viagem. Mas isto é para um outro momento.) Meu interesse agora é contar o que penso ser a principal causa de meus textos devirem híbridos. E digo: é a qualidade subjetiva presente lá na origem, nas aulas de redação, e que reverbera até hoje. Como disse, a minha escrita nasceu em um contexto de conflito pessoal, de tensão. O mundo pequeno, estreito, delimitado pela escola e pelas relações de poder inerentes, transbordava em regras complicadas e arbitrárias. A maioria delas, não ditas. Para respeitá-las, para agir conforme, era preciso, primeiro, decifrar uma rede complexa e invisível de normas, segundo, domar os impulsos e modelar-se. Mas eu dificilmente conseguia decifrar essas normas, e mesmo quando conseguia, minha vontade era contrária ao modelo. Uma dupla dificuldade – incapacidade de compreensão das normas e também uma afronta inconsequente – foi o signo sob o qual brotou minha escrita. E essa dupla dificuldade reverbera até hoje. Eu ainda peno para adequar meu texto às exigências formais, seja porque me parecem complicadas, seja porque me parecem demasiado arbitrárias.

No entanto, com o passar dos anos, eu soube dar a devida atenção às normas, de modo a poder descobrir razões subjacentes que me provam: não é pura arbitrariedade. Objetivamente falando, na escrita as normas prescrevem a boa gramática e a adequação às formas textuais. Como norma, isso soa apenas como uma tentativa forçada de disciplinar a arte textual. Era assim que eu via. Mas o amadurecimento me proporcionou encontrar um sentido não normativo para a preocupação com a forma. A razão é que tais qualidades promovem a capacidade do texto de ser socializado; sem nenhuma preocupação formal, o texto isola-se em si mesmo. 

Por mais geniais e/ou criativas que sejam as ideias de um/a escritor/a, por mais ousadas as direções que ele/a pretenda tomar em sua escrita, ainda precisa materializá-las num corpo textual e colocá-lo num suporte. Na imaginação, esse corpo textual é um colóide quimérico que pode assumir infinitas formas sem perder sua potência incisiva num suposto leitor. Mas no suporte essa liberdade privada desaparece, dando lugar às limitações do mundo material. Nele, o compartilhamento entre as pessoas de formas textuais definíveis, adequadas aos meios atuais, garante a possibilidade de comunicação. Por isso, é interessante para o/a criador/a textual respeitar as formas e gerar escritos que possuam os atributos formais correspondentes. É poder ser acessado por diversos/as leitores/as, não só aqueles que partilham de suas ligações estéticas. 

Por outro lado, essas formas compartilhadas não são dadas naturalmente, como se uma objetividade última nos dissesse: é assim que as coisas são e devem ser. Há um processo pelo qual se engendram formas aceitáveis e se excluem outras. E a suspeita de que novas formas pudessem surgir residia na minha convicção de que a natureza da escrita não poderia ser tão auto-limitante. Eis que hoje eu sou convicto para afirmar: aquilo que limita e define as formas textuais não é amigo da potencialidade artística e, mais do que isto, se apoia em convenções secretamente arbitrárias, apegadas ao passado antiquado do mundo textual (ocidental). Essa crítica à forma, que hoje eu faço com maior embasamento, pesa muito. E a balança da escrita continua instável, sem render-se a nenhum dos polos.

Uma escrita que ignore ou desconheça completamente a razão das formas textuais convencionais, tende ao isolamento e à privatização. Eu, com minha rebeldia imatura, fiz dos meus textos reféns, condenados ao ensimesmamento. Claro que foi importante experimentar, brincar de palavras, construir um laboratório textual, mas isso raramente produziu pontes com o mundo. Pese-se o fato de que esse isolamento não foi fruto de simples rebeldia; como disse, também era uma honesta incapacidade de entender as normas e formas. Assim, a dificuldade de adestrar a fruição de minha escrita se deve tanto à sua ferocidade plena de justiça, quanto à minha incapacidade técnica. Eu sabia – e sei – que sem uma insubmissão às regras formais não seria possível revelar a arbitrariedade estética que as governa por trás; que muito do que é considerado belo é apenas correto, e vice-versa. Mas é preciso desconstruir o sistema por dentro, infiltrando-se, jogando seu jogo, camuflando a rebeldia com a perspicácia de uma técnica textual que respeita formas. Pois as formas textuais são critérios de visibilidade e legibilidade. Sem elas, o texto, mesmo escrito com sangue e sabedoria, pode tornar-se invisível.

O híbrido é, portanto, uma maneira de balancear, sem equilibrar, esse aparente antagonismo entre a convenção e a invenção. De forma alguma meus textos devém híbridos por uma decisão consciente, baseada em um raciocínio como o que eu consegui destrinchar aqui, neste texto. O hibridismo foi efeito de uma tensão afetiva, emocional e política. Eu ainda sinto a necessidade de desestabilizar os tácitos acordos estéticos que são revestidos de “maneiras certas de escrever”. Mas com o tempo eu fui entendendo que saber usar palavras da moda, respeitar as convenções semânticas e gramaticais, despojar-se de sintaxes experimentais e, principalmente, escrever dentro dos moldes das formas textuais, é uma atividade trabalhosa e nobre, admirável até. Mais do que isto, o estudo que permite sustentar essa atividade também pode alimentar o/a escritor/a com um conhecimento valioso. Pois sem conhecer as espécies aceitas de texto, não seria possível escrever no cruzamento delas. O texto híbrido, habitante da zona limítrofe entre as formas textuais, instiga o/a leitor/a ao estranho e ao mesmo tempo o/a acolhe dentro do familiar. Sem se alienar nem se alinhar ao formal, os escritos híbridos expressam uma tentativa textual de manter a diferença viva, selvagem, mas socializável.

É assim que eu consigo entender grande parte do meu processo de criação textual. Hoje, particularmente, estou me empenhando em trazer meus escritos para formas mais bem definidas. Dar maior tempo e espaço para a etapa da projeção, qualificá-la com planejamento, para que os textos devenham estruturalmente limpos e elegantes. Principalmente, para o que o tamanho do texto, esse atributo dificílimo de controlar, se adeque melhor às situações. Que esse tamanho se equilibre com o combustível da fruição, para nutrir o fôlego do/a leitor/a, tornando o texto interessante o bastante para ser lido até o fim, sem perder as ideias principais. Bom, é o que eu estou tentando fazer ultimamente. Espero que escritore/as possam identificar-se com alguma parte do meu processo. Adoraria escutá-los à esse respeito. No mais, que possamos desafiar o público leitor em direção às bordas do esperado, adentrando juntes nas margens das formas para experimentar coletivamente o fascínio do desconhecido. Oxalá a gente possa participar de uma transformação da norma estética, quem sabe até desestabilizar a beleza.