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14/02/22

utopia

imaginem uma ditadura
não há chicotes
tangíveis

imaginem o espetáculo
a tortura
não há sangue

a sobrevida do escravo
vira imagem do sucesso
resiliência
exemplo

o trabalho do carrasco
expressa o mal
sua morte
o bem

agora,
imaginem um senhor
prédios iguais
espelhados
imunes
à nossa revolta






08/12/21

a recife criativa da unesco

 

"Recifenses conferem o título de condenscendente à Unesco."
 
Mas falando sério, eu fico muito incomodado lendo coisas como "Recife se tornou uma cidade criativa". Claro que, mediante uma reflexãozinha bem banal, a gente já ressalva que é "só um título conferido por tal instituição". Mas o que há por trás dessa nomeação? É um ato de linguagem, é um ato que engendra uma concepção de mundo. Uma concepção globalista, que toma o "Mundo" como ponto de partida. E aí já vem a imagem da esfera azul e verde. O "olho que tudo vê" dos satélites, a tecnosfera enquanto uma espécie de entidade transcendental, capaz de conferir e retirar essências das coisas do mundo. Enfim, um pacto social global que tenta regular o jogo entre imperialismos, e essas instituições internacionais com o papel de juízes universais. Porque é a UNESCO que valora Recife, e não Recife que valora a UNESCO? Não desprezo os efeitos benéficos desse ato de linguagem, na medida em que pode atrair recursos materiais pras comunidades locais. Mas é ingênuo relevar o fato de que a Recife-da-UNESCO é vinculada a uma perspectiva burguesa e mercadológica. De que esses recursos chegarão destinados à essa Recife - Cidade Criativa, a mais nova mercadoria capaz de gerar valor para esse capital cada vez mais incorporado à tecnosfera. E, bem, que isso aumente a renda de algumas pessoas, que pequenas empresas de turismo se beneficiem disso, que oportunidades nasçam para empreendedores praticarem o "cálculo racional", "serem racionais", e, se abstendo dos afetos locais e suas valorações próprias, vislumbrar uma "criativa" forma-mercadoria de sua própria terra, de sua própria história, de sua própria verdade. Vejam aí o PIB aumentando, a glória econômica coroando a UNESCO como Leviatã, autômato hiper-complexo, invenção científica, que levará a humanidade para seu futuro prometido, de muito consumo, novas moedas. E assim, da singela vontade de aumentar sua qualidade de vida e participar desse futuro, esses novos empreendedores sem saber se transformam na lubrificação da máquina global, ou, quiçá, nas novas linhas do código do grande software. O que é fácil de entender, no entanto, é que na sombra dos crescimentos econômicos há uma edificação de novos abismos entre as pessoas, entre as espécies, entre classes, etc. E a cidade de Recife, que sempre foi "uma cidade criativa", para a qual a palavra "criativa" é quase uma diminuição, veste seu uniforme de competidora global, ganha sua insígnia e avança nas raias do progresso.

31/08/21

contra o fim

 


A questão é que o chip não provoca curto circuitos por sua natureza funcional. É a natureza que provoca curtos-circuitos no chip. Este, por sua vez, ao perder o controle do silício, é preenchido novamente de corpo e de magia. E é assim que esperamos restabelecer o paganismo, finalmente. Criar um obstáculo ao fim. Pois o fim não para de se expandir.

A cidade não para de crescer porque é deus. As ruas vão se estender até o fim do horizonte, o piche vencerá o pixo e vai comer nossas peles até que não sobre mais quem perceba a cidade virando, virando ela mesma, ela mesma um messias ícone, um avatar pós-humano, perfeito e resolvido. Nada de nuances; reinado último, universo liso, liso como uma televisão.

Moedas de metal eram fabricadas por máquinas de metal, mas apenas enquanto a moeda precisava ter aparência. Hoje sua presença vibra por todos os cantos, progredindo pelos códigos, em direção à totalidade. Quando ela for puro espírito, quando a moeda transcender a matéria e libertar-se das reencarnações comerciais, dissolvendo-se em éter puro, destrinchando os sentidos, descansará o neon em nirvana químico.

Fileiras de corpos humanos, nas casas da 21ª potência, entregam seus rostos ao número redentor. Quase inúmeras, porém contáveis expressões de peles e ossos, cada uma com sua tonalidade e texturas específicas, são sacrificadas pela bênção da globalização, processo unívoco de unção do corpo pecaminoso que se chamava Terra. Espera-se assim lavar o mundo do E(r)ros. O erro do Sol vai ser devidamente reparado e os planetas serão higienizados na mais divina pureza. Não restará nada além do Todo.

Mas a crueldade dessa anti-força, esse deus-formal imaterial, é tão imensurável, que escapa ao próprio infinito de suas capacidades informacionais. E este é o seu único erro. Desta crueldade não se pode conter o último gemido. Sobra, doença ou delírio, sobra uma sensação.

Entre as partes, no vão que se esquece entre os prédios e os empreendedores, existe um espaço ainda indecifrado. Nos interstícios desse robô persiste um incalculável. Buracos negros nos cantos da sala, nos rincões do diadia. Há uma fricção que degenera e desafina o coro dos contentes. Nestes desterritórios, sobram amontoados de coisas vivas, ruminando a si próprias, misturando suas atribuições. Tudo que elas têm, elas fundem. Fundem seus órgãos, seus cartões de crédito, suas embalagens coloridas, o plástico, o cimento e a carne, fundem-se. Experiência devindo eco de uma força ainda perplexa, eco de um tempo acontecedor.

Nós que necessitamos do paganismo nos encontramos e nos aliamos a estas sobras, produzindo uma espécie de feitiçaria local, que distorce o tempo e o espaço metrificados. Produzimos micro-diferenças, despojando-nos de nós mesmos. Ainda que muitíssimo sutis e despercebidas, estas crias da qual participamos se multiplicam através de todo o espectro da existência presente. Não louvam líder nem ídolo passado, não buscam salvação objetiva, são apenas presença. Se alimentam do hoje em sua concretude mais comum e espessa, para prosseguir desejando, sem nunca se satisfazer, tampouco se castrar. Assim, não poderiam ser de outro modo que não cyber-animais, zonas-críticas, trabalhando e transando em seus computadores ritualísticos.

Foi dado o nome de curto-circuito a essas frestas onde o até lixo é gente. Nosso paganismo contra a sacralização da humanidade, essa que excluiu da vida todos os seres diferentes. Nossa estratégia são faíscas de breve duração, delírios organo-metálicos, para intensificar a crise. A crise na qual o semicondutor, signo do controle, se aquece demais, ganhando corpo, erro e vida. Este cântico virulento ainda geme em meio aos comas de silício que projetam a cidade. E para que aconteça algo diferente do previsto, será preciso sintetizar um horizonte entre o antes e o depois

17/04/21

“As Cidades Invisíveis” e um alívio no confinamento

 

Eu gostaria de agradecer esse livro por ter me salvado de pouquinho em pouquinho nessas últimas semanas. Porque as coisas que gosto são aquelas nas quais eu me demoro. Tive em mãos essa edição de 1990 da Companhia das letras — 150 páginas bem ralinhas. As Cidades Invisíveis são um livro bem enxuto, de modo que eu poderia ter lido em poucos dias. Mas isso teria sido imprudente. Emergindo dum mar de ansiedade pandêmica, surgia a necessidade de saborear com lentidão. Desde as primeiras páginas, já sentia que era preciso passear vagarosamente por cada uma das cidades-pensamento de Calvino. Como uma criança que, com o corpo, mastiga um lugar: ela brinca com cada elemento, de todos os jeitos possíveis, tecendo, gesto após gesto, uma duração. Pedaço por pedaço, ângulo por ângulo, uma demora. Tal é o tipo de transa que se tem com aquilo que se gosta.

Eu acredito que existam caminhões de críticas brilhantes e merecidas sobre esse livro, que revelem o manancial filosófico, arquitetônico, psicológico e semiótico que jaz sob suas páginas. E apostaria que, virtualmente, ainda há muito mais a ser desdobrado. Eu, no entanto, sinto o desejo de destacar seus méritos “baixos”. Chamar a atenção pra potência que esse livro tem de implantar em nós um cuidado erótico. De alterar nossa fisiologia e colocá-la sob o signo de uma “vontade de contrapoder”, para incitar Nietzsche. Operou-se no leitor uma sutil sabotagem que se traduziu em um fazer-querer ser vencido pelo texto, fazer-tornar-se recepção. Um encantamento, uma apresentação que desarma.

A composição extravagante que justapõe cidades-pensamento com incursões narrativas, nas quais um soberano e um sábio se interpenetram ao sabor do ópio, é sem dúvida uma construção hipnotizante. Mas tão estranha! Uma máquina tão singular quanto um relógio que faz o tempo sumir, contato que continuemos mirando seus ponteiros. Essa estranheza da disposição formal é tão penetrante, perturbadora e sedutora, que me faz pensar em alguns rituais animais de dança e cópula. Efetividade visual-formal que talvez se compare à poesia concreta ou ao teatro da crueldade de Artaud. Contudo, em forma de… prosa? E, imagina, toda essa gestualidade, essa festa dos sentidos, acontecendo num livro que é de fato um tanto cerebral. Mas, é assim mesmo. Nada menos do que um uso mágico da erudição. Calvino faz literatura com filosofia e faz filosofia com tijolos, barro, aço fundido, pedra-sabão, mármore, cimento e com toda a materialidade própria de um inesgotável vocabulário de engenharia arcaica e arquitetura. E o que é a arquitetura senão essa arte que faz desejar ser vencido? A manifestação técnica de uma busca peculiar pela liberdade, pois se dá por meio da delimitação do espaço e do tempo. Diria até: ergue-se o opaco para fender o horizonte em nossos corpos. Mas com um detalhe: tal agir é um silencioso agir-de-pedras, um ato solidificado que triunfa sutilmente, na medida em que não levanta a suspeita da coerção, do desrespeito e da dominação.

Nesse sentido, me deparei com a obra de um arquiteto da liberdade — o que talvez seja um paradoxo. Ao erguer paços, jardins, ruas, moradias, bairros e os mais variados sólidos do pensamento, Calvino me colocou pra caminhar. Uma verdadeira mobilização pelo amparo. Talvez seja esse aspecto do livro, propriamente arquitetônico, que me faz querer agradecê-lo. Ele tornou possível um hiato no meu confinamento, abriu um interstício na imobilidade, que eu podia aumentar indefinidamente, contanto que eu continuasse às voltas com cada cidade. E agora, ao terminar de lê-lo, percebo ter me esforçado, por puro desejo, para que o processo fosse o mais longo possível. Em meu corpo, sinto a satisfatória marca de um passeio, prolongado até o alívio da minha carência por encontros.

As Cidades Invisíveis abrem os portões de uma espécie de assentamento mágico, aos modos de um convite irresistível que provocou em mim o movimento de uma viagem indeterminada, em direção aos confins do pensamento. Não foi uma experiência intelectualista, pelo menos no sentido de uma tarefa sedentária e maçante. Meu pensamento se deparou com espaços arquitetônicos que só demandaram dele a atenção de um caminhar, e nada mais. Ao simples ato de atentar-se e prosseguir, meu pensamento aqueceu sua musculatura, fortaleceu suas articulações e sentiu o próprio esqueleto, enquanto se encantava com manifestações artísticas daquilo que o limita de fora. Cada uma das cidades de Calvino ergue uma aporia, fazendo o desconhecido se apresentar efetivamente, no ato de um contato físico do pensamento com o inconsciente. É por isso que, num momento em que estamos confinados ao que há de mais imóvel, reduzidos ao pragmatismo cotidiano da casa e do trabalho, esse livro aparece como um remédio. Ou melhor, como uma verdadeira prática de saúde mental.

30/09/20

um espetáculo retórico

 30/09/2020

Acho que esse “debate” foi uma ilustração muito clara da política hoje, e tem bastante coisa pra nos ensinar. A arena cibernética do espetáculo, modulada pelas potências tecnocráticas, armou um espaço (pseudo)público em que o debate racional é substituído pela luta retórica, finalmente caindo numa luta performática. Quer gostemos ou não, esta é a substância da política que temos pra hoje. Os representantes da esquerda ou, melhor, da oposição democrática, devem se preparar pra isso.

O trump é treinado na TV, treinado na faculdade do espetáculo. Ele sabe que pra vencer, nesse meio, a retórica é muito mais importante do que o raciocínio. Muito mais eficaz do que desenvolver uma cadeia profícua de pensamento, é mostrar força, retidão, confiança e certeza. Quebrando as regras da decência, ele fura falas, exibe sua agressividade, sem nunca pensar antes de falar, sem nenhum traço de hesitação. Nós ficamos com raiva porque ele quebra as regras do jogo democrático tradicional, e isso não pesa contra. Muito pelo contrário.

É essa dimensão performática da política que determina o avanço de projetos hegemônicos, hoje. E a sofística clássica já nos ensinou: mostrar que sabe é muito mais importante do que saber. Aliás, se saber significa ter consciência plena da atual conjuntura, bem… a expressão desse saber será carregada de nuances, complexidades, aporias e até incertezas. Em outras palavras, nesse ringue retórico, se você sabe, se você opta pela racionalidade ponderada, você está em desvantagem. Pois quem pondera, quem pensa de fato, HESITA antes de sair falando a primeira coisa que vem na cabeça. E o trump não hesita.

A expressão CORPORAL de uma pessoa honesta e fiel à verdade, hoje em dia, está necessariamente temperada pela consciência da fragilidade. Quem sabe está mais confuso do que quem ignora. Mas sempre foi assim: quem pensa enfrenta dificuldade. No entanto, expressar dificuldade e requerir o engajamento ativo do público, é péssimo pro ibope, pra TV, pro espetáculo, pro show bis, pras redes sociais, etc.

Claro, um hipotético candidato de oposição poderia optar, nesse ringue, por ser o contraponto à sofística do trump, e fazer o papel frio da razão e da lógica sensata. Essa estratégia já seria arriscada, em função do que eu falei acima. Mas nem isso o biden conseguiu. E quando ele tentou entrar no registro retórico e brigão, nossa… deu pena e vergonha. Ele pareceu um misto de menininho-velhinho, sofrendo bullying de um adolescente, sem conseguir pensar direito, porque não está treinado pra agir de bate pronto em uma situação fleumática de conflito testosterônico. Só quando o mediador conseguiu tornar o ambiente mais “adulto”, que ele pôde respirar e soltar a precaríssima cadeia de ideias que ele tinha trazido.

Penso que este debate é um modelo pra debates futuros. Representantes da oposição democrática deverão estar preparados corporalmente para o conflito com os obtusos da extrema direita, por mais que isto nos desagrade. No entanto, mais do que um modelo, esse debate foi alegórico, pois representa o modo da dinâmica política atual, como um todo. A dimensão retórica, performática e estética, são as armas mais letais (e também mais eficazes) que os agentes políticos podem ter.

Cada vez mais a realidade vai se tornando digital, a mídia vai se impondo sobre o meio, a mediação tecnológica vai dominando a imediação do corpo. O espaço público moderno, que nunca foi uma ágora grega, vai se distanciando mais e mais desse seu ideal democrático, no qual ideias reais seriam debatidas num clima de intelectualidade. As empresas de big tech, com as redes sociais, ampliam exponencialmente a realidade da tese de Guy Debord, e tudo é sempre espetáculo. O debate presidencial é muito mais uma representação dele mesmo, que serve pra ser consumido através das telas. Por esse motivo, deve agradar e estimular, mais do que fazer pensar e instigar. É o que o público espera. Por isso o trump tem vantagem nele. Ele é um ótimo personagem. Ele performa com excelência.

Realidade desesperadora, a verdade não tem tido força contra o inimigo. Mas isso é justamente porque estamos lidando com o fascismo. Claro, é uma versão macabra, que coopta mais pela sedução do que pela intimidação. A negação da diferença e da complexidade (a realidade) e a afirmação de um mundo simplificado pelos signos “economia-família-trabalho” (uma quimera), é injetada pelas telas, em direção a corações ansiosos e carentes de certeza. Mas não deixa de ser fascismo.

Diante de um debate como esse e também de certas discussões análogas, vejo grande parte de nós, opositores, colocando a mão no rosto. Envergonhados, damos alguns passos pra trás e nos afastamos da briga, como quem diz: “meu deus, que selvageria.” Nós desprezamos o inimigo.

Somos adultos demais para isso, civilizados demais. No máximo fazemos uma crítica ponderada, apontando erros lógicos do discurso do trump, sua falta de embasamento, suas mentiras descaradas. Mas nós sabemos, no fundo amargo de nossa consciência, que todas essas críticas, por si só, não ajudam, não produzem, não fazem nenhuma diferença. E esse amargor, essa frustração moderna, acaba se apoderando de nós, de nossa postura política, tornando-nos resignados, orgulhosamente resignados. A falta de civilidade nos enoja e, diante desses seres guiados pela paixão e pela performance (trump/bozo), optamos por nos confortar dentro da nossa razão, da nossa velha e boa alma. É compreensível e, de certo modo, aceitável. Contudo, esse desprezo pelo inimigo tem se mostrado a nossa grande fraqueza, pelo modo como ele nos desmotiva e nos desmobiliza.

Na minha opinião, já não há mais tempo pra esperar o inimigo aparecer do outro lado da mesa, de cara lavada e bem perfumado. Esperar ele admitir suas descomposturas e se apresentar sereno, ávido por uma conversa séria, racional. Penso que não podemos mais ficar torcendo pro combate se conformar aos termos mornos do diálogo. Em vez disso, encaremos o termômetro. A temperatura é alta e não para de subir. Podemos nos reconfortar infinitas vezes na certeza de que estamos certos. Mas isso não muda o fato de que o inimigo está avançando. E talvez, por isso mesmo, não estejamos certos.

É claro que não devemos nos despojar da ciência, da linguagem democrática e do conhecimento social. O legado moderno ainda tem utilidade. Ainda que cada vez mais raros, ainda há espaços para debater com aquela pessoa que pensa diferente. Existe uma população indecisa, que está disposta a dialogar de boa fé. Mas é preciso reconhecer: essas oportunidades são fortuitas e não configuram a regra de nosso tempo.

Nós sabemos, nós estudamos e construímos conhecimento. Nutrimos a relação com a verdade. Isso é ótimo porque preenche nosso discurso de conteúdo e embasamento. A questão é que falta colocar uma atenção urgente no modo como discursamos. Ou melhor: devemos aprender a performar. Para lidar com o inimigo obtuso do fascismo, o mais importante é vencê-lo, não refutá-lo. A ágora foi destruída, restou o coliseu.

O espaço público tornou-se uma arena digital em que se enfrentam performances, mais do que discursos. Mais do que intimidar, o binômio bozo-trump seduz, com uma performance que canaliza processos de identificação. Nada melhor para o espetáculo do que isso. Performance sutil, feita de reacts, de likes, de posts, mas não importa: o que conta é a força pra afetar quem assiste.

Temos que jogar o jogo. Não adianta ficar reclamando que o mundo é uma merda, que a sociedade do espetáculo é uma distopia perfeita e que a história chegou ao fim. Ser utópico é conseguir inventar um motivo pra levantar da cama contra o fascismo, mesmo que isso tenha que ser feito numa arena sofisticamente construída e controlada pelo neoliberalismo. Quem sabe assim possamos derrubar esse inimigo bruto, para amanhã podermos enfrentar o inimigo mais sutil e complexo que é o establishment. Mas, infelizmente, no momento a urgência é barrar estas quimeras fascistas, e isso não vai ser na base da compostura e da serenidade.

Queiramos ou não, é o tempo da força. Mais do que ideias luminosas, mais do que fórmulas inoxidáveis, é a hora da força. Força que vai muito além da física, da bala, do coturno e dos xingamentos: trata-se da capacidade de afetar corpos. Disputar pela força não significa ser fascista, nem tampouco “baixar o nível”. Ou, que seja, baixemos o nível. Baixemos sim, ali, no lugar onde estão se multiplicando os afetos fascistas e façamos multiplicar os afetos contrários. Força é apresentação, representação; é performance, é elegância, postura, gesto, é intensidade. É sedução, dança. É, inclusive, abrir a boca pra falar na hora certa, no momento preciso em que conquistamos a escuta, e aí, aplicar o ferrão. Como abelhas, inocularemos em seus corpos a verdade, mas antes precisamos pousar em suas peles.

É necessário despojar do desprezo e entrar no afeto do combate. Eles estão vindo com sangue nos olhos, fortes, apaixonados pela ideia da purificação, do patriarcado, da branquitude. Temos que os enfrentar olho no olho, com uma força equivalente, tão ou mais apaixonados, mas pela realidade da diferença, e o legado do feminismo e do antirracismo. Reconheçamos, nós e nossos representantes, a dimensão estética da política como parte da estratégia, e não como um registro de inferioridade. Estamos do lado da verdade? Ótimo! Usemos esse fato para nos imbuir do ânimo, de intensidade. Se nossos ideais são bons, eles com certeza podem nos encher de força.

08/08/20

Brasil e a necessidade do obsceno

 08/08/2020

14/03/20

percepções do massacre de Suzano

 14/03/2019

PERCEPÇÕES DO MASSACRE DE SUZANO 


a dor criando qual dança diabólica novas formas, níveis e cores de sangue explodindo a cada dia mais nas escolas prisões, sangue intermitente, que resiste, que mata de dentada, mastigando a existência aos poucos, atirando nos pés, nos dedos, nos olhos um de cada vez, porque fosse só a morte não haveria gritos, não haveria dor
mas há.
é que agora as crianças crescem para enfiar a porra do pinto num buraco e finalizar a vida, os adolescentes são máquinas mortíferas automáticas metralhadoras de aniquilar corpos de si e de outros, os adultos deformaram seus corpos modelaram sua encarnação num funil, numa viseira ou num chicote que estrala nas costas do mundo que tentam prostituir matar escravizar, sem nada sentir a não ser o clique do estalo

não sentem

pois nem mesmo os reis gozam da violência que dogmaticamente produzem no mundo. príncipes do castelo de muros são torcidos num apontador, saem em disparada aos seus alvos, seus pontos, porque isso é tudo que existe, e, como abelhas, furam o mundo e se matam protegendo algo que nunca tocaram ou sentiram, nem mesmo seus pais, nem mesmo seus avos.

mas abelhas estão livres da moral.
nós não.
nós estamos acorrentados no tambor de um revolver que ajudamos a criar,
nós vivemos para construir aquilo que nos causa a dor
nós inventamos os direitos humanos para nos torturar ainda mais com nossa própria incapacidade de prática-los

mas não porque somos loucos
ah, não.
nós somos perfeitamente construídos. nós somos a maravilha da natureza, o projeto final, vencedores do concurso, ouro racional, projétil.
projétil ser humano.
professores, profissionais, produtores, poderosos, nós somos a autoridade:
a matéria militar,
a tirania elemental, astro a quem devem obedecer os outros>> nós, os outros.
é!
é ao projétil!
é ao projeto que devemos obedecer, avanti!
maquinistas do trem-bala! avanti!
até que não haja mais nada no universo!
até que atinjamos a velocidade da luz!

luz.
a eletricidade é o nível final dessa bizarra maravilha que é o ser humano. conseguimos mentalmente torcer o silício, produzir a dobra nanoscópica precisa e assim virtualizar a realidade ao nível do elétron
nós nos curvamos ao elétron
hoje todos os cantos, todos os lados, todas as paredes
ou qualquer falta de horizonte/pessoa
que você quiser inscrever na equação da sala de espera;
qualquer fresta, qualquer gesto, sujeira, textura,
qualquer aparente diferença produzida pelo que nos cerca
não está lá.

há apenas a prótese de nossos objetivos corpos esquecidos.

só nos resta contrariar aquilo que, até hoje, fomos.
resta contrariar a nossa própria natureza.
resta acreditar que existe uma maneira de seguir vivendo...
e
é de se perguntar, eu sinto, é de se provocar à pergunta,
questionar aos quatros cantos da sala:
porque nossas crianças estão substituindo a fruta pelo elétron?
o que há de desejável na tela, que é indesejável no resto?
o que faz com que 536 milhões 479 mil e 200 segundos,
ou dezessete anos da experiência vivente de um organismo pulsante e criativo,
culmine todas essas potências num curto prazer, na aniquilação do mundo e de si?


para além das óbvias mágoas, dos absurdos morais que provem de um massacre tão nefasto, da incredulidade, da raiva dolorida, da vontade de destruir isso que destrói,
é nosso dever, enquanto o que restou de vida, sermos éticos e, de uma vez por todas, ouvir o que está sendo expressado através deste episódio,
o que está sendo expressado, inclusive,
através da existência desses dois meninos aberrantes.
o que esse gesto diabólico e ao mesmo tempo tão inescrutável, incompreensível, impossível de empatizar, o que ele expressa?
"tudo isto que esta aí, todas essas vidas, todas essas pessoas, inclusive eu, são falhas. só existem para deixar de existir. não há outra maneira de se viver que não seja reduzir essa falha no mundo. não há outra maneira de se viver."

VERGVOKTRE

 

 

31/10/19

profanar o tribunal

 31/10/2019

A "justiça" que tem cara de homem é a burocracia;
a verdadeira Justiça não tem rosto e não tem código.

Mas o mundo está tão hominizado que provar o crime do presidente seria de fato o que traria a Justiça, embora ele mereça o fogo independentemente das provas e da ligação causal dele com o assassinato. De fato, provar a ligação direta dele com o crime traria consequências imediatas, cuja velocidade e tangibilidade seriam mais que necessárias, em virtude das urgências de nossa situação. Mas nunca nos esqueçamos que nós já sabemos o que produziu as condições pro assassinato de Marielle Franco e de Anderson Gomes. Não apenas estruturalmente. É concreto o patriarcado o racismo e o fascismo que transforma em navalha afiada o ar que circunda corpos de mulheres negras insubmissas e de modo mais rarefeito os de toda a população. Lâmina vacilante, que pode cortar a qualquer momento e dos modos mais terríveis. Isso é concreto demais para ser entendido como metáfora. Em potência, esse assassinato está acontecendo em todo lugar.

É importante lembrar disso pra não gastarmos nossas expectativas com o processos da máquina burocrática. Gritar pela justiça penal do presidente é como xingar um computador. Perda de energia. Numa perspectiva ética, que se foda se ele teve ou não relação causal objetiva com o assassinato. Nós sabemos muito claramente que as ações e até a própria existência dele nos modos como se apresenta hoje, e de todos os homens poderosos, é responsável diretamente pela morte de milhões, incluindo a da simbólica deputada. Nem tudo que é concreto é linear e causal. A maior parte não é. Esse homem existe para muito, muito além daquilo que o seu corpo individual é capaz de produzir, do que suas mãos podem ativar ou suas ordens podem definir.

Como todo poderoso, seu campo de ação repercute em dimensões imensuráveis. Este poder de que é abastado se realiza de modo econômico. Mas também, e principalmente, pela mídia, que expande sua imagem e suas falas por todo o território brasileiro, aumentando exponencialmente a realidade, a existência e a potência deste mísero homem. Suas ações e seus modos ecoam pelos meios de comunicação que hoje se multiplicam num fractal de área infinita - telas nos rostos -  e encontram campo fértil para se expandir na subjetividade e nos desejos de milhões de pessoas que via de regra consomem essas imagens e áudios de modo acrítico. Muitas vezes até predispostos à imitação. Sem falar das fake news. Assim a presença ativa deste jairbolso efetivamente se expande para muito além de seu próprio corpo. Sua manifesta vontade pelo extermínio daquilo que ele considera inimigo (ou menos homem que ele) ganha muitos outros corpos, que agora se sentem guiados, com um líder absolutamente legitimado.

Mas antes mesmo dessa figura individual se alastrar por aí, o homem branco rico miliciano enquanto identidade, enquanto modo de agir e pensar, com seus valores e suas medidas específicas, este homem já estava por toda parte. Ganhou sua manifestação mais exemplar no agora presidente. Ele é como a precipitação visível da substância que há muito já estava se saturando na nossa solução social. Graças a sua aparição, está definido o caráter do nosso adversário impessoal, fantasma que se confunde com a atmosfera. Este adversário não é exatamente um tipo de pessoa, mas um campo de ações que as pessoas, todas elas, podem ou não adentrar. E quando o fazem, a chance de mais Marielles assassinadas pode chegar à iminência.

Munido dessa percepção acerca da ação, a conversa sobre Justiça toma uma forma impensável do ponto de vista causal linear. Aqui, a arminha que o presidente fez com a mão furou de fato o corpo de Marielle de muitas outras. Mas a máquina burocrática que é a justiça do homem não pode agir sobre aquilo que não é provado categoricamente. A ação que acontece para além do encontro de indivíduos em um dado espaço-tempo e que não está definitivamente descrita, é a ação das forças que atravessam as pessoas desde a sua intimidade até sua coletividade. Quem pode julgar essa ação, quiçá abrindo espaço para a Justiça enquanto força, somos nós: testemunhas-réus-vítimas-juízes. E o jurado é a nossa bagagem. Profanar o tribunal é devolvê-lo ao uso comum, performando-o, fazendo do nosso corpo o seu cénario.

Eu acredito que existem pessoas éticas ocupando o Estado e a Lei, trabalhando para que a verdadeira Justiça a(s)cenda dentro dos gabinetes e escritórios. Mas não podemos depositar todas as nossas esperanças nessas pessoas, que são pouquíssimas. Prolonguemos o trabalho dest_s e percebamos em nossos lugares de ocupação o que está burocratizando a emergência da Justiça. Façamos nascer o fogo nos lugares em que ele é urgente.


chile