imaginem uma ditadura
não há chicotes
tangíveis
imaginem o espetáculo
a tortura
não há sangue
a sobrevida do escravo
vira imagem do sucesso
resiliência
exemplo
o trabalho do carrasco
expressa o mal
sua morte
o bem
agora,
imaginem um senhor
prédios iguais
espelhados
imunes
à nossa revolta
14/02/22
utopia
08/12/21
a recife criativa da unesco
31/08/21
contra o fim
A questão é que o chip não provoca curto circuitos por sua natureza funcional. É a natureza que provoca curtos-circuitos no chip. Este, por sua vez, ao perder o controle do silício, é preenchido novamente de corpo e de magia. E é assim que esperamos restabelecer o paganismo, finalmente. Criar um obstáculo ao fim. Pois o fim não para de se expandir.
A cidade não para de crescer porque é deus. As ruas vão se estender até o fim do horizonte, o piche vencerá o pixo e vai comer nossas peles até que não sobre mais quem perceba a cidade virando, virando ela mesma, ela mesma um messias ícone, um avatar pós-humano, perfeito e resolvido. Nada de nuances; reinado último, universo liso, liso como uma televisão.
Moedas de metal eram fabricadas por máquinas de metal, mas apenas enquanto a moeda precisava ter aparência. Hoje sua presença vibra por todos os cantos, progredindo pelos códigos, em direção à totalidade. Quando ela for puro espírito, quando a moeda transcender a matéria e libertar-se das reencarnações comerciais, dissolvendo-se em éter puro, destrinchando os sentidos, descansará o neon em nirvana químico.

Fileiras de corpos humanos, nas casas da 21ª potência, entregam seus rostos ao número redentor. Quase inúmeras, porém contáveis expressões de peles e ossos, cada uma com sua tonalidade e texturas específicas, são sacrificadas pela bênção da globalização, processo unívoco de unção do corpo pecaminoso que se chamava Terra. Espera-se assim lavar o mundo do E(r)ros. O erro do Sol vai ser devidamente reparado e os planetas serão higienizados na mais divina pureza. Não restará nada além do Todo.
Mas a crueldade dessa anti-força, esse deus-formal imaterial, é tão imensurável, que escapa ao próprio infinito de suas capacidades informacionais. E este é o seu único erro. Desta crueldade não se pode conter o último gemido. Sobra, doença ou delírio, sobra uma sensação.
Entre as partes, no vão que se esquece entre os prédios e os empreendedores, existe um espaço ainda indecifrado. Nos interstícios desse robô persiste um incalculável. Buracos negros nos cantos da sala, nos rincões do diadia. Há uma fricção que degenera e desafina o coro dos contentes. Nestes desterritórios, sobram amontoados de coisas vivas, ruminando a si próprias, misturando suas atribuições. Tudo que elas têm, elas fundem. Fundem seus órgãos, seus cartões de crédito, suas embalagens coloridas, o plástico, o cimento e a carne, fundem-se. Experiência devindo eco de uma força ainda perplexa, eco de um tempo acontecedor.
Nós que necessitamos do paganismo nos encontramos e nos aliamos a estas sobras, produzindo uma espécie de feitiçaria local, que distorce o tempo e o espaço metrificados. Produzimos micro-diferenças, despojando-nos de nós mesmos. Ainda que muitíssimo sutis e despercebidas, estas crias da qual participamos se multiplicam através de todo o espectro da existência presente. Não louvam líder nem ídolo passado, não buscam salvação objetiva, são apenas presença. Se alimentam do hoje em sua concretude mais comum e espessa, para prosseguir desejando, sem nunca se satisfazer, tampouco se castrar. Assim, não poderiam ser de outro modo que não cyber-animais, zonas-críticas, trabalhando e transando em seus computadores ritualísticos.
Foi dado o nome de curto-circuito a essas frestas onde o até lixo é gente. Nosso paganismo contra a sacralização da humanidade, essa que excluiu da vida todos os seres diferentes. Nossa estratégia são faíscas de breve duração, delírios organo-metálicos, para intensificar a crise. A crise na qual o semicondutor, signo do controle, se aquece demais, ganhando corpo, erro e vida. Este cântico virulento ainda geme em meio aos comas de silício que projetam a cidade. E para que aconteça algo diferente do previsto, será preciso sintetizar um horizonte entre o antes e o depois17/04/21
“As Cidades Invisíveis” e um alívio no confinamento
Eu gostaria de agradecer esse livro por ter me salvado de pouquinho em pouquinho nessas últimas semanas. Porque as coisas que gosto são aquelas nas quais eu me demoro. Tive em mãos essa edição de 1990 da Companhia das letras — 150 páginas bem ralinhas. As Cidades Invisíveis são um livro bem enxuto, de modo que eu poderia ter lido em poucos dias. Mas isso teria sido imprudente. Emergindo dum mar de ansiedade pandêmica, surgia a necessidade de saborear com lentidão. Desde as primeiras páginas, já sentia que era preciso passear vagarosamente por cada uma das cidades-pensamento de Calvino. Como uma criança que, com o corpo, mastiga um lugar: ela brinca com cada elemento, de todos os jeitos possíveis, tecendo, gesto após gesto, uma duração. Pedaço por pedaço, ângulo por ângulo, uma demora. Tal é o tipo de transa que se tem com aquilo que se gosta.

Eu acredito que existam caminhões de críticas brilhantes e merecidas sobre esse livro, que revelem o manancial filosófico, arquitetônico, psicológico e semiótico que jaz sob suas páginas. E apostaria que, virtualmente, ainda há muito mais a ser desdobrado. Eu, no entanto, sinto o desejo de destacar seus méritos “baixos”. Chamar a atenção pra potência que esse livro tem de implantar em nós um cuidado erótico. De alterar nossa fisiologia e colocá-la sob o signo de uma “vontade de contrapoder”, para incitar Nietzsche. Operou-se no leitor uma sutil sabotagem que se traduziu em um fazer-querer ser vencido pelo texto, fazer-tornar-se recepção. Um encantamento, uma apresentação que desarma.
A composição extravagante que justapõe cidades-pensamento com incursões narrativas, nas quais um soberano e um sábio se interpenetram ao sabor do ópio, é sem dúvida uma construção hipnotizante. Mas tão estranha! Uma máquina tão singular quanto um relógio que faz o tempo sumir, contato que continuemos mirando seus ponteiros. Essa estranheza da disposição formal é tão penetrante, perturbadora e sedutora, que me faz pensar em alguns rituais animais de dança e cópula. Efetividade visual-formal que talvez se compare à poesia concreta ou ao teatro da crueldade de Artaud. Contudo, em forma de… prosa? E, imagina, toda essa gestualidade, essa festa dos sentidos, acontecendo num livro que é de fato um tanto cerebral. Mas, é assim mesmo. Nada menos do que um uso mágico da erudição. Calvino faz literatura com filosofia e faz filosofia com tijolos, barro, aço fundido, pedra-sabão, mármore, cimento e com toda a materialidade própria de um inesgotável vocabulário de engenharia arcaica e arquitetura. E o que é a arquitetura senão essa arte que faz desejar ser vencido? A manifestação técnica de uma busca peculiar pela liberdade, pois se dá por meio da delimitação do espaço e do tempo. Diria até: ergue-se o opaco para fender o horizonte em nossos corpos. Mas com um detalhe: tal agir é um silencioso agir-de-pedras, um ato solidificado que triunfa sutilmente, na medida em que não levanta a suspeita da coerção, do desrespeito e da dominação.
Nesse sentido, me deparei com a obra de um arquiteto da liberdade — o que talvez seja um paradoxo. Ao erguer paços, jardins, ruas, moradias, bairros e os mais variados sólidos do pensamento, Calvino me colocou pra caminhar. Uma verdadeira mobilização pelo amparo. Talvez seja esse aspecto do livro, propriamente arquitetônico, que me faz querer agradecê-lo. Ele tornou possível um hiato no meu confinamento, abriu um interstício na imobilidade, que eu podia aumentar indefinidamente, contanto que eu continuasse às voltas com cada cidade. E agora, ao terminar de lê-lo, percebo ter me esforçado, por puro desejo, para que o processo fosse o mais longo possível. Em meu corpo, sinto a satisfatória marca de um passeio, prolongado até o alívio da minha carência por encontros.
As Cidades Invisíveis abrem os portões de uma espécie de assentamento mágico, aos modos de um convite irresistível que provocou em mim o movimento de uma viagem indeterminada, em direção aos confins do pensamento. Não foi uma experiência intelectualista, pelo menos no sentido de uma tarefa sedentária e maçante. Meu pensamento se deparou com espaços arquitetônicos que só demandaram dele a atenção de um caminhar, e nada mais. Ao simples ato de atentar-se e prosseguir, meu pensamento aqueceu sua musculatura, fortaleceu suas articulações e sentiu o próprio esqueleto, enquanto se encantava com manifestações artísticas daquilo que o limita de fora. Cada uma das cidades de Calvino ergue uma aporia, fazendo o desconhecido se apresentar efetivamente, no ato de um contato físico do pensamento com o inconsciente. É por isso que, num momento em que estamos confinados ao que há de mais imóvel, reduzidos ao pragmatismo cotidiano da casa e do trabalho, esse livro aparece como um remédio. Ou melhor, como uma verdadeira prática de saúde mental.
30/09/20
um espetáculo retórico
30/09/2020
Acho que esse “debate” foi uma ilustração muito clara da política hoje, e tem bastante coisa pra nos ensinar. A arena cibernética do espetáculo, modulada pelas potências tecnocráticas, armou um espaço (pseudo)público em que o debate racional é substituído pela luta retórica, finalmente caindo numa luta performática. Quer gostemos ou não, esta é a substância da política que temos pra hoje. Os representantes da esquerda ou, melhor, da oposição democrática, devem se preparar pra isso.
O trump é treinado na TV, treinado na faculdade do espetáculo. Ele sabe que pra vencer, nesse meio, a retórica é muito mais importante do que o raciocínio. Muito mais eficaz do que desenvolver uma cadeia profícua de pensamento, é mostrar força, retidão, confiança e certeza. Quebrando as regras da decência, ele fura falas, exibe sua agressividade, sem nunca pensar antes de falar, sem nenhum traço de hesitação. Nós ficamos com raiva porque ele quebra as regras do jogo democrático tradicional, e isso não pesa contra. Muito pelo contrário.
É essa dimensão performática da política que determina o avanço de projetos hegemônicos, hoje. E a sofística clássica já nos ensinou: mostrar que sabe é muito mais importante do que saber. Aliás, se saber significa ter consciência plena da atual conjuntura, bem… a expressão desse saber será carregada de nuances, complexidades, aporias e até incertezas. Em outras palavras, nesse ringue retórico, se você sabe, se você opta pela racionalidade ponderada, você está em desvantagem. Pois quem pondera, quem pensa de fato, HESITA antes de sair falando a primeira coisa que vem na cabeça. E o trump não hesita.
A expressão CORPORAL de uma pessoa honesta e fiel à verdade, hoje em dia, está necessariamente temperada pela consciência da fragilidade. Quem sabe está mais confuso do que quem ignora. Mas sempre foi assim: quem pensa enfrenta dificuldade. No entanto, expressar dificuldade e requerir o engajamento ativo do público, é péssimo pro ibope, pra TV, pro espetáculo, pro show bis, pras redes sociais, etc.
Claro, um hipotético candidato de oposição poderia optar, nesse ringue, por ser o contraponto à sofística do trump, e fazer o papel frio da razão e da lógica sensata. Essa estratégia já seria arriscada, em função do que eu falei acima. Mas nem isso o biden conseguiu. E quando ele tentou entrar no registro retórico e brigão, nossa… deu pena e vergonha. Ele pareceu um misto de menininho-velhinho, sofrendo bullying de um adolescente, sem conseguir pensar direito, porque não está treinado pra agir de bate pronto em uma situação fleumática de conflito testosterônico. Só quando o mediador conseguiu tornar o ambiente mais “adulto”, que ele pôde respirar e soltar a precaríssima cadeia de ideias que ele tinha trazido.
Penso que este debate é um modelo pra debates futuros. Representantes da oposição democrática deverão estar preparados corporalmente para o conflito com os obtusos da extrema direita, por mais que isto nos desagrade. No entanto, mais do que um modelo, esse debate foi alegórico, pois representa o modo da dinâmica política atual, como um todo. A dimensão retórica, performática e estética, são as armas mais letais (e também mais eficazes) que os agentes políticos podem ter.
Cada vez mais a realidade vai se tornando digital, a mídia vai se impondo sobre o meio, a mediação tecnológica vai dominando a imediação do corpo. O espaço público moderno, que nunca foi uma ágora grega, vai se distanciando mais e mais desse seu ideal democrático, no qual ideias reais seriam debatidas num clima de intelectualidade. As empresas de big tech, com as redes sociais, ampliam exponencialmente a realidade da tese de Guy Debord, e tudo é sempre espetáculo. O debate presidencial é muito mais uma representação dele mesmo, que serve pra ser consumido através das telas. Por esse motivo, deve agradar e estimular, mais do que fazer pensar e instigar. É o que o público espera. Por isso o trump tem vantagem nele. Ele é um ótimo personagem. Ele performa com excelência.
Realidade desesperadora, a verdade não tem tido força contra o inimigo. Mas isso é justamente porque estamos lidando com o fascismo. Claro, é uma versão macabra, que coopta mais pela sedução do que pela intimidação. A negação da diferença e da complexidade (a realidade) e a afirmação de um mundo simplificado pelos signos “economia-família-trabalho” (uma quimera), é injetada pelas telas, em direção a corações ansiosos e carentes de certeza. Mas não deixa de ser fascismo.
Diante de um debate como esse e também de certas discussões análogas, vejo grande parte de nós, opositores, colocando a mão no rosto. Envergonhados, damos alguns passos pra trás e nos afastamos da briga, como quem diz: “meu deus, que selvageria.” Nós desprezamos o inimigo.

Somos adultos demais para isso, civilizados demais. No máximo fazemos uma crítica ponderada, apontando erros lógicos do discurso do trump, sua falta de embasamento, suas mentiras descaradas. Mas nós sabemos, no fundo amargo de nossa consciência, que todas essas críticas, por si só, não ajudam, não produzem, não fazem nenhuma diferença. E esse amargor, essa frustração moderna, acaba se apoderando de nós, de nossa postura política, tornando-nos resignados, orgulhosamente resignados. A falta de civilidade nos enoja e, diante desses seres guiados pela paixão e pela performance (trump/bozo), optamos por nos confortar dentro da nossa razão, da nossa velha e boa alma. É compreensível e, de certo modo, aceitável. Contudo, esse desprezo pelo inimigo tem se mostrado a nossa grande fraqueza, pelo modo como ele nos desmotiva e nos desmobiliza.
Na minha opinião, já não há mais tempo pra esperar o inimigo aparecer do outro lado da mesa, de cara lavada e bem perfumado. Esperar ele admitir suas descomposturas e se apresentar sereno, ávido por uma conversa séria, racional. Penso que não podemos mais ficar torcendo pro combate se conformar aos termos mornos do diálogo. Em vez disso, encaremos o termômetro. A temperatura é alta e não para de subir. Podemos nos reconfortar infinitas vezes na certeza de que estamos certos. Mas isso não muda o fato de que o inimigo está avançando. E talvez, por isso mesmo, não estejamos certos.
É claro que não devemos nos despojar da ciência, da linguagem democrática e do conhecimento social. O legado moderno ainda tem utilidade. Ainda que cada vez mais raros, ainda há espaços para debater com aquela pessoa que pensa diferente. Existe uma população indecisa, que está disposta a dialogar de boa fé. Mas é preciso reconhecer: essas oportunidades são fortuitas e não configuram a regra de nosso tempo.
Nós sabemos, nós estudamos e construímos conhecimento. Nutrimos a relação com a verdade. Isso é ótimo porque preenche nosso discurso de conteúdo e embasamento. A questão é que falta colocar uma atenção urgente no modo como discursamos. Ou melhor: devemos aprender a performar. Para lidar com o inimigo obtuso do fascismo, o mais importante é vencê-lo, não refutá-lo. A ágora foi destruída, restou o coliseu.
O espaço público tornou-se uma arena digital em que se enfrentam performances, mais do que discursos. Mais do que intimidar, o binômio bozo-trump seduz, com uma performance que canaliza processos de identificação. Nada melhor para o espetáculo do que isso. Performance sutil, feita de reacts, de likes, de posts, mas não importa: o que conta é a força pra afetar quem assiste.
Temos que jogar o jogo. Não adianta ficar reclamando que o mundo é uma merda, que a sociedade do espetáculo é uma distopia perfeita e que a história chegou ao fim. Ser utópico é conseguir inventar um motivo pra levantar da cama contra o fascismo, mesmo que isso tenha que ser feito numa arena sofisticamente construída e controlada pelo neoliberalismo. Quem sabe assim possamos derrubar esse inimigo bruto, para amanhã podermos enfrentar o inimigo mais sutil e complexo que é o establishment. Mas, infelizmente, no momento a urgência é barrar estas quimeras fascistas, e isso não vai ser na base da compostura e da serenidade.
Queiramos ou não, é o tempo da força. Mais do que ideias luminosas, mais do que fórmulas inoxidáveis, é a hora da força. Força que vai muito além da física, da bala, do coturno e dos xingamentos: trata-se da capacidade de afetar corpos. Disputar pela força não significa ser fascista, nem tampouco “baixar o nível”. Ou, que seja, baixemos o nível. Baixemos sim, ali, no lugar onde estão se multiplicando os afetos fascistas e façamos multiplicar os afetos contrários. Força é apresentação, representação; é performance, é elegância, postura, gesto, é intensidade. É sedução, dança. É, inclusive, abrir a boca pra falar na hora certa, no momento preciso em que conquistamos a escuta, e aí, aplicar o ferrão. Como abelhas, inocularemos em seus corpos a verdade, mas antes precisamos pousar em suas peles.
É necessário despojar do desprezo e entrar no afeto do combate. Eles estão vindo com sangue nos olhos, fortes, apaixonados pela ideia da purificação, do patriarcado, da branquitude. Temos que os enfrentar olho no olho, com uma força equivalente, tão ou mais apaixonados, mas pela realidade da diferença, e o legado do feminismo e do antirracismo. Reconheçamos, nós e nossos representantes, a dimensão estética da política como parte da estratégia, e não como um registro de inferioridade. Estamos do lado da verdade? Ótimo! Usemos esse fato para nos imbuir do ânimo, de intensidade. Se nossos ideais são bons, eles com certeza podem nos encher de força.
08/08/20
Brasil e a necessidade do obsceno
08/08/2020

Muitas/os de nós, quando pensamos em extermínios populacionais, temos apenas referências europeias. Digo extermínios no sentido de uma morte social extraordinária, cuja causa se encontra para além da normalidade. A peste negra e o nazismo são exemplos. O impacto que elas causaram receberam, na historiografia ocidental, contornos mais ou menos determináveis, com números de mortes satisfatoriamente calculáveis e uma duração delimitável. Foi possível destacá-los na história. Tornaram-se eventos. À partir do momento que escapam à normalidade e que recebem contornos espaço-temporais, tornam-se eventos. Nós, enquanto sujeitos históricos, criamos os eventos. A história, como ciência e como memória, tem a potência de produzir eventos e assim tornar perceptível aquilo que não pode passar despercebido. E tornando perceptível, visível, a coisa passa a afetar a sociedade, impelindo à mudança. Não apenas porque o extermínio é moralmente ruim, mas porque é obsceno: impossível não sentir-se atingido. É assim que se rasga um velho tecido social. É assim que se prossegue com uma nova trama.
Mas o que aconteceria numa sociedade em que o genocídio não tem contornos claros? Onde não é possível calcular com precisão satisfatória os mortos e os assassinos? Onde a maior parte da população é minoritária? Onde o tempo de duração do extermínio se confunde com a própria existência dessa sociedade? No Brasil, não há vulcões ou terremotos; não vemos os tais eventos. Ou, seria preciso dizer, o Brasil é o evento. E está acontecendo agora.
A morte aqui é distribuída como um gás na atmosfera da vida, de modo que ambos se confundem, se misturam e, por fim, se tornam indiscerníveis. Aqui o genocídio é visível sempre, mas apenas para a parte mais invisível da população. O que acontece com algo que está sempre visível, e não aparece como fenômeno extraordinário? Se a única regra universal é a vida, no Brasil temos o exemplo mais claro do estado de exceção que substitui essa máxima, tornando-se ele mesmo a regra. Como? Bom, nós sabemos que o ser humano é capaz de realizar o que parecia impossível, graças à tão louvada tecnologia. E não há um exemplo mais sofisticado de tecnologia do que esta: a necropolítica brasileira.
Aqui o assassinato nunca é extraordinário. Nunca se torna obsceno, mesmo até quando chega à grande mídia, como nos casos recentes de Miguel e João Pedro, ou Ágatha no ano passado. Fatos obscenos, intoleráveis, mas que aqui podem ser tratados como “apenas mais um, visto que tantos outros equivalentes os rodeiam”. Tratamento que ainda ganha méritos de racionalidade. Aquilo que partilhamos como “brasileiros”, nossa psicologia social, nasceu do extermínio e da crueldade. De tal modo que casos como esses não configuram trauma, nem mesmo um “evento” no sentido de quebra, mas sim a repetição de uma cena, a cena genética da nação. São o reflexo de um passado que não para de passar. A cisão senhor x escrava(o) — que poderia ser chamada de estupro ou de latrocínio — é o que há de mais fundamental no projeto Brasil de país. Não foi um mero “pecado original”, é uma vida inteira dedicada ao nefasto. Essa história não é apenas ruim, é insuportável.
Foram 520 anos aperfeiçoando a capacidade de, por um lado, naturalizar o assassinato, com as narrativas:
“ah, mas a polícia funciona assim mesmo!”;
“puts, triste né.. mas o fazendeiro apenas estava defendendo sua propriedade”;
“a população de rua é culpa da vagabundagem inerente ao ser humano!”;
“mulher morre mais porque nasce para o pecado!;
e agora
“o covid não escolhe classes”.
De um lado, a necropolítica possibilita essas contra-narrativas, quando o extermínio chega à visibilidade. Por outro, conseguir tornar o genocídio invisível, de tão onipresente.
Então, temos essa naturalização do assassinato. Para produzir o efeito de paz, criam-se narrativas que têm como modelo essas acima. Servem para tranquilizar em relação ao que, a duras penas, chega a aparecer na mídia hegemônica. Servem, acima de tudo, para realimentar a imagem pacífica de uma sociedade brasileira, soberana, composta de sujeitos, iguais e democráticos. O estado de exceção está estruturado de modo que cada vez que se reproduz a imagem da paz, aprofunda-se a realidade da guerra, e vice-versa. E quem morre na paz, morre uma morte natural, morte morrida. Mas todos estes corpos mortos, que eventualmente aparecem na TV, são vítimas de morte matada. São vítimas de um crime estrutural. São pessoas assassinadas pela reencarnação dos senhores donos da terra, hoje já sem rosto, dissolvidos na imaterialidade do capital (embora o rosto do presidente crie uma representação potente o suficiente para parecer a raíz do problema).
É extermínio consciente, guerra. Mas quando esses assassinatos surgem no JN, narra-se e entende-se o fato como morte morrida. Culpa da natureza ruim do humano ou da sociedade. Nada surpreendente, apenas é como é. Guerra é paz. Mas a verdade é que, vivendo ainda a atualização da escravidão, toda a morte do preto pobre e da indígena será morte matada. E é nesse sentido que, no Brasil, o número de mortes num caráter excepcional — caráter de estado de exceção — extrapola todos os nossos registros. E, ao mesmo tempo, é por ser tão fundido à própria normalidade, que os olhos vítreos da sociedade “brasileira” sempre perceberão tais mortes como morte morrida.
Ainda sobre a questão dos registros, insistimos: não está documentado, no sentido de que não temos estimativas numéricas de quantas pessoas foram exterminadas nessa história, como tem a Europa em relação ao nazismo. Não está documentado, mas está marcado à ferro e fogo na pele daquela população marginalizada. Esta memória é sólida como uma rocha, dolorosa como uma rocha nas costas, mas por falta de políticas públicas de memória social, não se produzem os documentos, monumentos e em última instância, a cultura necessária para tornar visível, definida e incontestável a realidade genocida de nossa história.
Voltando agora à questão atual. É preciso insistir que estas técnicas narrativas que invertem o significado original da morte e transformam guerra em paz produzem efeitos profundos, para muito além dos casos que brotam no noticiário. No geral, elas regem o próprio cotidiano brasileiro, principalmente na vida periférica. Nesse cotidiano, temos a repetição ad infinitum da cena genética, que é o crime: racismo efetivado em homicídio, estupro e latrocínio. Crimes transformados em norma, que por sua vez é prolongada de modo demoníaco na forma exploração. Esta, que passa a ser chamada de “trabalho”.
Tanto o “trabalho” da pessoa pobre, que é o de morrer o mais quieta possível, quanto o “trabalho” do poderoso, que é o de matar do modo mais silencioso possível. E o da pequena burguesia, que é a de criar a representação de uma democracia virtual que nunca se concretiza. Claro, isso também se dá de modo barulhento e brutal, quando a turbulência pede mais velocidade na execução. Quer dizer, pensando na ação das polícias e das milícias, também há a realidade da morte física, obscenamente visível. Mas ainda assim, a tecnologia de narrativa é tão bem estruturada, que nem mesmo a essas dores é dada a chance de ser socializadas de modo amplo. O luto não acontece socialmente, e se acumula nos corações dos corpos invisíveis. Será possível quebrar esse estado de exceção? Tornar visível o evento da guerra?
Acredito que foi razoável pensar que a atual pandemia de Covid pudesse ser a fonte de uma quebra. Cem mil mortes em cinco meses, mil mortes por dia, curva que não declina e, ainda, um grande diferencial: são noticiados, aparecem! Os números, mesmo escamoteados pela sub-notificação, já gritam: é algo fora da ordem, combustível mais que suficiente para uma quebra. E continua sendo razoável pensar que esses números têm, potencialmente, a força para tornar o extermínio um evento que mostre a exceção e produza luto, algo que neste país jamais aconteceu em escala nacional. Um evento visível, difundível e capaz de produzir lutos, rasgos e reestruturação. Explodir em luta radical. Pois para qualquer sociedade que se diga soberana e democrática, a atual crise sanitária seria vista como erupção de morte e seria matéria de trauma. Mas o que temos aqui é um estado de exceção, não uma sociedade.
Quando o estupro já não é motivo de ruptura, quando o racismo torna-se tolerável, quando a queimada de terras nativas é recheio de telejornal, não será a pandemia que fará brotar, na percepção do brasileiro, aquilo que é mais necessário: o obsceno. O obsceno que É o Brasil. Mas o Brasil só tem olhos para fora de si. Se os vira para dentro e vê sua história, nada sobra: vomitaria sem parar, até a morte. Porque não é uma questão moral; não se trata apenas de conscientizar-se do mal. É preciso que vísceras se contorçam, que o estômago embrulhe, que o peito ferva. É preciso tensionar os corpos vivos. É nesse sentido que a luta é afetiva, não afável.
É com o afeto também que pesamos o fato: nosso inimigo é poderoso. A situação convida constantemente à paralisia. Prostradas/os diante da impotência que vezes nos atinge, nos agarramos à uma esperança trágica. Nos perguntamos se a intensificação do genocídio pela pandemia terá ela própria a capacidade de gerar um salto qualitativo na injustiça, à ponto de tornar visível às bases o estado de exceção em que vivem. “Talvez o porvir dê conta de produzir a percepção de que não há mais nada a perder”. Esperança na providência. Tal é o estado desolado em que nos encontramos muitas vezes. É uma esperança covarde e desmobilizante. Mas é preciso admitir que a sensação de derrota, se não se apossou de nós, no mínimo nos atingiu. Encaremos de frente essa impotência. Não como condição, mas como pura sensação. Mergulhemos ainda mais fundo na escuridão para encontrar a mais negativa das realidades: não, nem mesmo o caráter aberrante da pandemia irá furar, por si só, as defesas inimigas. Que a pandemia é gasolina e a necropolítica é um trator.
No entanto, é preciso insistir na verdade. Mesmo sabendo que a crise de saúde pública é apenas um intensificador de qualidades estruturais já existentes, mesmo sabendo da aberrante naturalização do genocídio negro e indígena, é preciso insistir em reverberar em volume amplificado cada uma das mortes, como quem grita: assassinato! À ponto de incomodar os ouvidos sossegados com a potência do obsceno. É insistindo no que sabemos e dando tudo que temos para amplificar essa voz ancestral, que vamos penetrar os muitos isolamentos ideológicos com a memória da guerra e reverter a mentira. Não, não estamos em paz! Se a guerra se tornar evidente, as barricadas também se tornarão, as alianças se farão com mais rapidez e a confusão não será empecilho para o movimento. Sim, pode ser uma guerra silenciosa, descentralizada, onde qualquer lugar é o front. Mas é pela qualidade mesma da descentralização, que toda e qualquer atitude benéfica à vida e ao espírito social tem seu lugar histórico, numa história latente, pulsante e concreta, pronta para inundar essa normalidade nefasta. Vidas pretas importam, vidas indígenas importam! Nós não esqueceremos. E a hora da verdadeira Justiça chegará.
14/03/20
percepções do massacre de Suzano
14/03/2019
a dor criando qual dança diabólica novas formas, níveis e cores de
sangue explodindo a cada dia mais nas escolas prisões, sangue
intermitente, que resiste, que mata de dentada, mastigando a existência
aos poucos, atirando nos pés, nos dedos, nos olhos um de cada vez,
porque fosse só a morte não haveria gritos, não haveria dor
mas há.
é
que agora as crianças crescem para enfiar a porra do pinto num buraco e
finalizar a vida, os adolescentes são máquinas mortíferas automáticas
metralhadoras de aniquilar corpos de si e de outros, os adultos
deformaram seus corpos modelaram sua encarnação num funil, numa viseira
ou num chicote que estrala nas costas do mundo que tentam prostituir
matar escravizar, sem nada sentir a não ser o clique do estalo
não sentem
pois nem mesmo os reis gozam da violência que dogmaticamente produzem no
mundo. príncipes do castelo de muros são torcidos num apontador, saem
em disparada aos seus alvos, seus pontos, porque isso é tudo que existe,
e, como abelhas, furam o mundo e se matam protegendo algo que nunca
tocaram ou sentiram, nem mesmo seus pais, nem mesmo seus avos.
mas abelhas estão livres da moral.
nós não.
nós estamos acorrentados no tambor de um revolver que ajudamos a criar,
nós vivemos para construir aquilo que nos causa a dor
nós inventamos os direitos humanos para nos torturar ainda mais com nossa própria incapacidade de prática-los
mas não porque somos loucos
ah, não.
nós somos perfeitamente
construídos. nós somos a maravilha da natureza, o projeto final,
vencedores do concurso, ouro racional, projétil.
projétil ser humano.
professores, profissionais, produtores, poderosos, nós somos a autoridade:
a matéria militar,
a tirania elemental, astro a quem devem obedecer os outros>> nós, os outros.
é!
é ao projétil!
é ao projeto que devemos obedecer, avanti!
maquinistas do trem-bala! avanti!
até que não haja mais nada no universo!
até que atinjamos a velocidade da luz!
luz.
a eletricidade é o nível final dessa bizarra maravilha que é o
ser humano. conseguimos mentalmente torcer o silício, produzir a dobra
nanoscópica precisa e assim virtualizar a realidade ao nível do elétron
nós nos curvamos ao elétron
hoje todos os cantos, todos os lados, todas as paredes
ou qualquer falta de horizonte/pessoa
que você quiser inscrever na equação da sala de espera;
qualquer fresta, qualquer gesto, sujeira, textura,
qualquer aparente diferença produzida pelo que nos cerca
não está lá.
há apenas a prótese de nossos objetivos corpos esquecidos.
só nos resta contrariar aquilo que, até hoje, fomos.
resta contrariar a nossa própria natureza.
resta acreditar que existe uma maneira de seguir vivendo...
e
é de se perguntar, eu sinto, é de se provocar à pergunta,
questionar aos quatros cantos da sala:
porque nossas crianças estão substituindo a fruta pelo elétron?
o que há de desejável na tela, que é indesejável no resto?
o que faz com que 536 milhões 479 mil e 200 segundos,
ou dezessete anos da experiência vivente de um organismo pulsante e criativo,
culmine todas essas potências num curto prazer, na aniquilação do mundo e de si?
para além das óbvias mágoas, dos absurdos morais que provem de um
massacre tão nefasto, da incredulidade, da raiva dolorida, da vontade de
destruir isso que destrói,
é nosso dever, enquanto o que restou de
vida, sermos éticos e, de uma vez por todas, ouvir o que está sendo
expressado através deste episódio,
o que está sendo expressado, inclusive,
através da existência desses dois meninos aberrantes.
o que esse gesto diabólico e ao mesmo tempo tão inescrutável, incompreensível, impossível de empatizar, o que ele expressa?
"tudo
isto que esta aí, todas essas vidas, todas essas pessoas, inclusive eu,
são falhas. só existem para deixar de existir. não há outra maneira de
se viver que não seja reduzir essa falha no mundo. não há outra maneira
de se viver."
31/10/19
profanar o tribunal
31/10/2019
A "justiça" que tem cara de homem é a burocracia;
a verdadeira Justiça não tem rosto e não tem código.
Mas o mundo está tão hominizado que provar o crime do presidente seria
de fato o que traria a Justiça, embora ele mereça o fogo
independentemente das provas e da ligação causal dele com o assassinato.
De fato, provar a ligação direta dele com o crime traria consequências
imediatas, cuja velocidade e tangibilidade seriam mais que necessárias,
em virtude das urgências de nossa situação. Mas nunca nos esqueçamos que
nós já sabemos o que produziu as condições pro assassinato de Marielle
Franco e de Anderson Gomes. Não apenas estruturalmente. É concreto o
patriarcado o racismo e o fascismo que transforma em navalha afiada o ar
que circunda corpos de mulheres negras insubmissas e de modo mais
rarefeito os de toda a população. Lâmina vacilante, que pode cortar a
qualquer momento e dos modos mais terríveis. Isso é concreto demais para
ser entendido como metáfora. Em potência, esse assassinato está
acontecendo em todo lugar.
Como todo poderoso, seu campo de ação repercute em dimensões imensuráveis. Este poder de que é abastado se realiza de modo econômico. Mas também, e principalmente, pela mídia, que expande sua imagem e suas falas por todo o território brasileiro, aumentando exponencialmente a realidade, a existência e a potência deste mísero homem. Suas ações e seus modos ecoam pelos meios de comunicação que hoje se multiplicam num fractal de área infinita - telas nos rostos - e encontram campo fértil para se expandir na subjetividade e nos desejos de milhões de pessoas que via de regra consomem essas imagens e áudios de modo acrítico. Muitas vezes até predispostos à imitação. Sem falar das fake news. Assim a presença ativa deste jairbolso efetivamente se expande para muito além de seu próprio corpo. Sua manifesta vontade pelo extermínio daquilo que ele considera inimigo (ou menos homem que ele) ganha muitos outros corpos, que agora se sentem guiados, com um líder absolutamente legitimado.
Mas antes mesmo dessa figura individual se alastrar por aí, o homem branco rico miliciano enquanto identidade, enquanto modo de agir e pensar, com seus valores e suas medidas específicas, este homem já estava por toda parte. Ganhou sua manifestação mais exemplar no agora presidente. Ele é como a precipitação visível da substância que há muito já estava se saturando na nossa solução social. Graças a sua aparição, está definido o caráter do nosso adversário impessoal, fantasma que se confunde com a atmosfera. Este adversário não é exatamente um tipo de pessoa, mas um campo de ações que as pessoas, todas elas, podem ou não adentrar. E quando o fazem, a chance de mais Marielles assassinadas pode chegar à iminência.
Munido dessa percepção acerca da ação, a conversa sobre Justiça toma uma forma impensável do ponto de vista causal linear. Aqui, a arminha que o presidente fez com a mão furou de fato o corpo de Marielle de muitas outras. Mas a máquina burocrática que é a justiça do homem não pode agir sobre aquilo que não é provado categoricamente. A ação que acontece para além do encontro de indivíduos em um dado espaço-tempo e que não está definitivamente descrita, é a ação das forças que atravessam as pessoas desde a sua intimidade até sua coletividade. Quem pode julgar essa ação, quiçá abrindo espaço para a Justiça enquanto força, somos nós: testemunhas-réus-vítimas-juízes. E o jurado é a nossa bagagem. Profanar o tribunal é devolvê-lo ao uso comum, performando-o, fazendo do nosso corpo o seu cénario.
Eu acredito que existem pessoas éticas ocupando o Estado e a Lei, trabalhando para que a verdadeira Justiça a(s)cenda dentro dos gabinetes e escritórios. Mas não podemos depositar todas as nossas esperanças nessas pessoas, que são pouquíssimas. Prolonguemos o trabalho dest_s e percebamos em nossos lugares de ocupação o que está burocratizando a emergência da Justiça. Façamos nascer o fogo nos lugares em que ele é urgente.