Quem me dá resposta?
Quem me dá um ouvido?
Quem me dá um rosto
que se afeta ao ter
outro rosto em frente
que se afeta ao ser,
simplesmente?
Que se afeta ao ser?
Quem me dá resposta?
Que se afeta ao ser?
Eu gostaria de agradecer esse livro por ter me salvado de pouquinho em pouquinho nessas últimas semanas. Porque as coisas que gosto são aquelas nas quais eu me demoro. Tive em mãos essa edição de 1990 da Companhia das letras — 150 páginas bem ralinhas. As Cidades Invisíveis são um livro bem enxuto, de modo que eu poderia ter lido em poucos dias. Mas isso teria sido imprudente. Emergindo dum mar de ansiedade pandêmica, surgia a necessidade de saborear com lentidão. Desde as primeiras páginas, já sentia que era preciso passear vagarosamente por cada uma das cidades-pensamento de Calvino. Como uma criança que, com o corpo, mastiga um lugar: ela brinca com cada elemento, de todos os jeitos possíveis, tecendo, gesto após gesto, uma duração. Pedaço por pedaço, ângulo por ângulo, uma demora. Tal é o tipo de transa que se tem com aquilo que se gosta.

Eu acredito que existam caminhões de críticas brilhantes e merecidas sobre esse livro, que revelem o manancial filosófico, arquitetônico, psicológico e semiótico que jaz sob suas páginas. E apostaria que, virtualmente, ainda há muito mais a ser desdobrado. Eu, no entanto, sinto o desejo de destacar seus méritos “baixos”. Chamar a atenção pra potência que esse livro tem de implantar em nós um cuidado erótico. De alterar nossa fisiologia e colocá-la sob o signo de uma “vontade de contrapoder”, para incitar Nietzsche. Operou-se no leitor uma sutil sabotagem que se traduziu em um fazer-querer ser vencido pelo texto, fazer-tornar-se recepção. Um encantamento, uma apresentação que desarma.
A composição extravagante que justapõe cidades-pensamento com incursões narrativas, nas quais um soberano e um sábio se interpenetram ao sabor do ópio, é sem dúvida uma construção hipnotizante. Mas tão estranha! Uma máquina tão singular quanto um relógio que faz o tempo sumir, contato que continuemos mirando seus ponteiros. Essa estranheza da disposição formal é tão penetrante, perturbadora e sedutora, que me faz pensar em alguns rituais animais de dança e cópula. Efetividade visual-formal que talvez se compare à poesia concreta ou ao teatro da crueldade de Artaud. Contudo, em forma de… prosa? E, imagina, toda essa gestualidade, essa festa dos sentidos, acontecendo num livro que é de fato um tanto cerebral. Mas, é assim mesmo. Nada menos do que um uso mágico da erudição. Calvino faz literatura com filosofia e faz filosofia com tijolos, barro, aço fundido, pedra-sabão, mármore, cimento e com toda a materialidade própria de um inesgotável vocabulário de engenharia arcaica e arquitetura. E o que é a arquitetura senão essa arte que faz desejar ser vencido? A manifestação técnica de uma busca peculiar pela liberdade, pois se dá por meio da delimitação do espaço e do tempo. Diria até: ergue-se o opaco para fender o horizonte em nossos corpos. Mas com um detalhe: tal agir é um silencioso agir-de-pedras, um ato solidificado que triunfa sutilmente, na medida em que não levanta a suspeita da coerção, do desrespeito e da dominação.
Nesse sentido, me deparei com a obra de um arquiteto da liberdade — o que talvez seja um paradoxo. Ao erguer paços, jardins, ruas, moradias, bairros e os mais variados sólidos do pensamento, Calvino me colocou pra caminhar. Uma verdadeira mobilização pelo amparo. Talvez seja esse aspecto do livro, propriamente arquitetônico, que me faz querer agradecê-lo. Ele tornou possível um hiato no meu confinamento, abriu um interstício na imobilidade, que eu podia aumentar indefinidamente, contanto que eu continuasse às voltas com cada cidade. E agora, ao terminar de lê-lo, percebo ter me esforçado, por puro desejo, para que o processo fosse o mais longo possível. Em meu corpo, sinto a satisfatória marca de um passeio, prolongado até o alívio da minha carência por encontros.
As Cidades Invisíveis abrem os portões de uma espécie de assentamento mágico, aos modos de um convite irresistível que provocou em mim o movimento de uma viagem indeterminada, em direção aos confins do pensamento. Não foi uma experiência intelectualista, pelo menos no sentido de uma tarefa sedentária e maçante. Meu pensamento se deparou com espaços arquitetônicos que só demandaram dele a atenção de um caminhar, e nada mais. Ao simples ato de atentar-se e prosseguir, meu pensamento aqueceu sua musculatura, fortaleceu suas articulações e sentiu o próprio esqueleto, enquanto se encantava com manifestações artísticas daquilo que o limita de fora. Cada uma das cidades de Calvino ergue uma aporia, fazendo o desconhecido se apresentar efetivamente, no ato de um contato físico do pensamento com o inconsciente. É por isso que, num momento em que estamos confinados ao que há de mais imóvel, reduzidos ao pragmatismo cotidiano da casa e do trabalho, esse livro aparece como um remédio. Ou melhor, como uma verdadeira prática de saúde mental.
A cada quadrado no calendário
um bloco de cimento no sonho.
Conforme a geração se acaba
consumindo a si mesma,
nem mais em pensamento
se acessam utopias.
Não existe mais o fora,
não se está dentro de nada,
não há terra que se almeje;
o paraíso em nossas palmas
multiplica-se nos ares,
programando para sempre
os resquícios celestes.
A falta da imaginação
que engendrasse um bom viver,
a super vigília,
o ultrassonífero,
e o apagamento instantâneo
sob a luz do silício.
Inimigos vivendo encaixados
e impedidos de roçar
as vistas.
Militares ou militantes,
suas noites são a mesma
intranquila opacidade.
O horizonte se aproxima
junto às paredes do quarto
e a única saída é uma veia
que se abra.
Mas se ilude quem pensa
ser o cárcere maior
este corpo encarnado no cimento.
Nossa alma já não mais
encontrará refúgio.
E do lar primordial
só restarão relógios.
A única via é aquela
que ainda não existe,
mas que se indica
em algum lugar
da palavra barricada
ou aquela que se pensa ouvir cantar
quando o riso de um tambor
faz sair, por um momento,
do papelão um caracol.
O que nos restou?
Ó, meu pai, o que foi feito da minha vontade?
Ó, minha mãe, o que foi feito do nosso desejo?
Quando foi feito o acordo?
Qual foi a cláusula miúda?
Na letra alpha havia um buraco sem-fim
mas muito estreito.
Eu vejo a irmandade se tornar uma ideia infantil.
Eu vejo a infância se tornar uma ideia infantil.
Um labirinto já não vale a pena brincar;
uma gangorra é apenas um erro,
ultra-passada pelas libras.
Ah, minha irmã! Brinquedos não servem!
E as pessoas
- no máximo -
servem!
A quem?
A quê.
O Pai Severo se despiu,
e da sua braguilha saiu um monstro, sem rosto,
que muito se parece com um dia na metrópole.
Sim, a nudez do Rei!
O sonho acabou!
Não há mais fantasia, e assim o tirano desfigura-se.
Enfim, revela-se a fibra
sintética
da tal realidade:
Deus está morto, mas o pecado é secular
e a física se funde ao sacrifício.
Então, meu irmão, te pergunto:
Qual foi a oferenda?
Um fígado? Um cérebro? Uma flor?
Qual órgão voador foi amputado?
Qual órgão, meu Deus, qual órgão?!
Benedictus calculus,
me diga,
qual anatomia eu preciso rezar para poder pagar a dívida?
A resposta é automática:
o produto foi entregue. Há segurança.
Em linha reta se percorre uma avenida. Não tem erro.
Não tem erro!
O Paradise é uma esteira:
nela nós corremos, nela nós velamos,
nela estamos sempre
seguros para sempre;
mas para dormir
nós precisamos
de uma engenharia sempre nova
de roldanas neurológicas.
Ah, meu amigo, é que o mundo
amadureceu!
Uma academia, um espaço otimizado,
profissional, o mundo
adulteceu!
E a lição nós aprendemos:
A infância é um contratempo.
A infância é um contratempo.
A infância é um contratempo.
23/12/2020

Fala-se muito sobre mães. As mães; a mãe. Maternidade, dar a vida? O que se sabe? Que amam muito? Mães amam tanto, com uma ferocidade tão irrepreensível, que se dilaceram no próprio amar? Mães. Um jeito de ser ou uma posição genética? Ontológica: a mãe é assim assado, existe para tal; ai dela se desnaturar. Performática? A mãe apresenta um modo de ser! Ai dela se não for mulher! Mulher? Que ama. Seus filhos, sua casa, seus cuidados. A si mesma? Mães amam tanto, mas tanto, que não suportam.
Mas e as mães que não amam? Essas não são mães? Não posso voltar, já disse: mães que não amam (são mães)! Porque ninguém escolhe ser mãe: a humanidade gera-se. É basicamente um fardo. Ter ainda que amar? Que maldição! Ou não! O amanhã mais bonito é este depois do dia em que as mães puderem escolher se vão nascer. Ou não. Talvez seja este em que nenhuma mãe precise nascer. Porque no fim o que importa é o amor, não é mesmo?
O amor pode ser esse de mãe. Pode ser esse de fazer o mundo ter cuidado. Esse é o amor que faz uma pessoa se proteger na rua. É o amor que copula com o mundo e faz nascer o cuidado onde não há! Não há preferências! Todas as pessoas são mães! O humano existe para ser mãe! O amor não escolhe fatos, não privilegia, anarquiza sutilmente, destrona o bebê, o coloca no chão com delicadeza para então nascer como alimento, no outro lado da aventura possível. O amor é a possibilidade de que haja um sentido para esquecer a morte. E viver. Que mãe, nesse mundo, não gostaria de esquecer a morte por uns dias? Quem não gostaria de ser amada?
O problema da mãe é o filho. Os filhos da mãe! Estes só pensam em filosofar, policiar, fazer política, civilização, comer, comer muito, comer o mundo e poder se descuidar. Eles dizem: “Vocês que se virem com a merda do mundo! Eu não tenho culpa, quem defeca é meu ânus! Quem chupa é minha boca!”
Porque se os filhos aprenderam uma coisa, essa coisa é o descuido. Quando nem nada havia, aparecia uma teta para mamar. Uma minhoca suculenta. Uma providência divina. Mal sabiam eles que seus prazeres matavam mães e mães. Até Deus já morreu de tanto amamentar. Mas eles nunca vão aceitar o orfanato. Eles vão inventar tetas, minhocas, providências até no cú do outro pra não ter que aceitar o matricídio. Que os filhos da mãe não querem copular com o mundo; não querem ser penetrados nunca; não querem gestar a possibilidade do cuidado. E assim a paisagem vira monumento, a seca vira lei, e o outro que se foda.
No entanto, eis que se ouve, vindo de longe, um rumor de intimidade; no mais longínquo deserto, no meio do fim do mundo, uma voz de mãe menina se faz escutar: “A bandeira? A cultura e a civilização? Que se danem!
Ou não!”
Que as mães não são nada, ou que elas são tudo, ou que elas simplesmente não aceitam mais essa palavra infernal, assassina, pairando sobre elas! Mãe é o caralho! E os pais desviam o olhar, como se não fosse com eles. Os pais, que não aceitam performar nem gestar o cuidado. “Afinal, se assim o fizermos, seríamos todos mães, não é mesmo?” É o que dizem.
30/09/2020
Acho que esse “debate” foi uma ilustração muito clara da política hoje, e tem bastante coisa pra nos ensinar. A arena cibernética do espetáculo, modulada pelas potências tecnocráticas, armou um espaço (pseudo)público em que o debate racional é substituído pela luta retórica, finalmente caindo numa luta performática. Quer gostemos ou não, esta é a substância da política que temos pra hoje. Os representantes da esquerda ou, melhor, da oposição democrática, devem se preparar pra isso.
O trump é treinado na TV, treinado na faculdade do espetáculo. Ele sabe que pra vencer, nesse meio, a retórica é muito mais importante do que o raciocínio. Muito mais eficaz do que desenvolver uma cadeia profícua de pensamento, é mostrar força, retidão, confiança e certeza. Quebrando as regras da decência, ele fura falas, exibe sua agressividade, sem nunca pensar antes de falar, sem nenhum traço de hesitação. Nós ficamos com raiva porque ele quebra as regras do jogo democrático tradicional, e isso não pesa contra. Muito pelo contrário.
É essa dimensão performática da política que determina o avanço de projetos hegemônicos, hoje. E a sofística clássica já nos ensinou: mostrar que sabe é muito mais importante do que saber. Aliás, se saber significa ter consciência plena da atual conjuntura, bem… a expressão desse saber será carregada de nuances, complexidades, aporias e até incertezas. Em outras palavras, nesse ringue retórico, se você sabe, se você opta pela racionalidade ponderada, você está em desvantagem. Pois quem pondera, quem pensa de fato, HESITA antes de sair falando a primeira coisa que vem na cabeça. E o trump não hesita.
A expressão CORPORAL de uma pessoa honesta e fiel à verdade, hoje em dia, está necessariamente temperada pela consciência da fragilidade. Quem sabe está mais confuso do que quem ignora. Mas sempre foi assim: quem pensa enfrenta dificuldade. No entanto, expressar dificuldade e requerir o engajamento ativo do público, é péssimo pro ibope, pra TV, pro espetáculo, pro show bis, pras redes sociais, etc.
Claro, um hipotético candidato de oposição poderia optar, nesse ringue, por ser o contraponto à sofística do trump, e fazer o papel frio da razão e da lógica sensata. Essa estratégia já seria arriscada, em função do que eu falei acima. Mas nem isso o biden conseguiu. E quando ele tentou entrar no registro retórico e brigão, nossa… deu pena e vergonha. Ele pareceu um misto de menininho-velhinho, sofrendo bullying de um adolescente, sem conseguir pensar direito, porque não está treinado pra agir de bate pronto em uma situação fleumática de conflito testosterônico. Só quando o mediador conseguiu tornar o ambiente mais “adulto”, que ele pôde respirar e soltar a precaríssima cadeia de ideias que ele tinha trazido.
Penso que este debate é um modelo pra debates futuros. Representantes da oposição democrática deverão estar preparados corporalmente para o conflito com os obtusos da extrema direita, por mais que isto nos desagrade. No entanto, mais do que um modelo, esse debate foi alegórico, pois representa o modo da dinâmica política atual, como um todo. A dimensão retórica, performática e estética, são as armas mais letais (e também mais eficazes) que os agentes políticos podem ter.
Cada vez mais a realidade vai se tornando digital, a mídia vai se impondo sobre o meio, a mediação tecnológica vai dominando a imediação do corpo. O espaço público moderno, que nunca foi uma ágora grega, vai se distanciando mais e mais desse seu ideal democrático, no qual ideias reais seriam debatidas num clima de intelectualidade. As empresas de big tech, com as redes sociais, ampliam exponencialmente a realidade da tese de Guy Debord, e tudo é sempre espetáculo. O debate presidencial é muito mais uma representação dele mesmo, que serve pra ser consumido através das telas. Por esse motivo, deve agradar e estimular, mais do que fazer pensar e instigar. É o que o público espera. Por isso o trump tem vantagem nele. Ele é um ótimo personagem. Ele performa com excelência.
Realidade desesperadora, a verdade não tem tido força contra o inimigo. Mas isso é justamente porque estamos lidando com o fascismo. Claro, é uma versão macabra, que coopta mais pela sedução do que pela intimidação. A negação da diferença e da complexidade (a realidade) e a afirmação de um mundo simplificado pelos signos “economia-família-trabalho” (uma quimera), é injetada pelas telas, em direção a corações ansiosos e carentes de certeza. Mas não deixa de ser fascismo.
Diante de um debate como esse e também de certas discussões análogas, vejo grande parte de nós, opositores, colocando a mão no rosto. Envergonhados, damos alguns passos pra trás e nos afastamos da briga, como quem diz: “meu deus, que selvageria.” Nós desprezamos o inimigo.

Somos adultos demais para isso, civilizados demais. No máximo fazemos uma crítica ponderada, apontando erros lógicos do discurso do trump, sua falta de embasamento, suas mentiras descaradas. Mas nós sabemos, no fundo amargo de nossa consciência, que todas essas críticas, por si só, não ajudam, não produzem, não fazem nenhuma diferença. E esse amargor, essa frustração moderna, acaba se apoderando de nós, de nossa postura política, tornando-nos resignados, orgulhosamente resignados. A falta de civilidade nos enoja e, diante desses seres guiados pela paixão e pela performance (trump/bozo), optamos por nos confortar dentro da nossa razão, da nossa velha e boa alma. É compreensível e, de certo modo, aceitável. Contudo, esse desprezo pelo inimigo tem se mostrado a nossa grande fraqueza, pelo modo como ele nos desmotiva e nos desmobiliza.
Na minha opinião, já não há mais tempo pra esperar o inimigo aparecer do outro lado da mesa, de cara lavada e bem perfumado. Esperar ele admitir suas descomposturas e se apresentar sereno, ávido por uma conversa séria, racional. Penso que não podemos mais ficar torcendo pro combate se conformar aos termos mornos do diálogo. Em vez disso, encaremos o termômetro. A temperatura é alta e não para de subir. Podemos nos reconfortar infinitas vezes na certeza de que estamos certos. Mas isso não muda o fato de que o inimigo está avançando. E talvez, por isso mesmo, não estejamos certos.
É claro que não devemos nos despojar da ciência, da linguagem democrática e do conhecimento social. O legado moderno ainda tem utilidade. Ainda que cada vez mais raros, ainda há espaços para debater com aquela pessoa que pensa diferente. Existe uma população indecisa, que está disposta a dialogar de boa fé. Mas é preciso reconhecer: essas oportunidades são fortuitas e não configuram a regra de nosso tempo.
Nós sabemos, nós estudamos e construímos conhecimento. Nutrimos a relação com a verdade. Isso é ótimo porque preenche nosso discurso de conteúdo e embasamento. A questão é que falta colocar uma atenção urgente no modo como discursamos. Ou melhor: devemos aprender a performar. Para lidar com o inimigo obtuso do fascismo, o mais importante é vencê-lo, não refutá-lo. A ágora foi destruída, restou o coliseu.
O espaço público tornou-se uma arena digital em que se enfrentam performances, mais do que discursos. Mais do que intimidar, o binômio bozo-trump seduz, com uma performance que canaliza processos de identificação. Nada melhor para o espetáculo do que isso. Performance sutil, feita de reacts, de likes, de posts, mas não importa: o que conta é a força pra afetar quem assiste.
Temos que jogar o jogo. Não adianta ficar reclamando que o mundo é uma merda, que a sociedade do espetáculo é uma distopia perfeita e que a história chegou ao fim. Ser utópico é conseguir inventar um motivo pra levantar da cama contra o fascismo, mesmo que isso tenha que ser feito numa arena sofisticamente construída e controlada pelo neoliberalismo. Quem sabe assim possamos derrubar esse inimigo bruto, para amanhã podermos enfrentar o inimigo mais sutil e complexo que é o establishment. Mas, infelizmente, no momento a urgência é barrar estas quimeras fascistas, e isso não vai ser na base da compostura e da serenidade.
Queiramos ou não, é o tempo da força. Mais do que ideias luminosas, mais do que fórmulas inoxidáveis, é a hora da força. Força que vai muito além da física, da bala, do coturno e dos xingamentos: trata-se da capacidade de afetar corpos. Disputar pela força não significa ser fascista, nem tampouco “baixar o nível”. Ou, que seja, baixemos o nível. Baixemos sim, ali, no lugar onde estão se multiplicando os afetos fascistas e façamos multiplicar os afetos contrários. Força é apresentação, representação; é performance, é elegância, postura, gesto, é intensidade. É sedução, dança. É, inclusive, abrir a boca pra falar na hora certa, no momento preciso em que conquistamos a escuta, e aí, aplicar o ferrão. Como abelhas, inocularemos em seus corpos a verdade, mas antes precisamos pousar em suas peles.
É necessário despojar do desprezo e entrar no afeto do combate. Eles estão vindo com sangue nos olhos, fortes, apaixonados pela ideia da purificação, do patriarcado, da branquitude. Temos que os enfrentar olho no olho, com uma força equivalente, tão ou mais apaixonados, mas pela realidade da diferença, e o legado do feminismo e do antirracismo. Reconheçamos, nós e nossos representantes, a dimensão estética da política como parte da estratégia, e não como um registro de inferioridade. Estamos do lado da verdade? Ótimo! Usemos esse fato para nos imbuir do ânimo, de intensidade. Se nossos ideais são bons, eles com certeza podem nos encher de força.
18/09/2020

Independentemente das possíveis interpretações, é impossível sair ilesa/o do filme. A direção delicadamente tece um trabalho de atuação surrealista, uma precisão na composição da estranheza das cenas e uma sensibilidade impressionante para com as questões das gerações viventes. O “awkward” millenial em paroxismo. Além disso, o filme merece ser reconhecido tanto pela sua fertilidade intelectual quanto pela eficácia estética, com a qual desestabiliza a nossa percepção. É possível duvidar da própria vigília nos minutos seguintes ao fim do longa.
Mas “Estou Pensando em Acabar com Tudo”, de Charlie Kaufman, não é um daqueles filmes que apenas torna difícil separar o que é realidade do que é sonho, que nos deixam com a pergunta: “o que realmente se passou?” No caso, o longa parece conseguir manter-se no meio. Não se alterna entre cenas totalmente absurdas nem verossímeis, de modo que ambas as qualidades parecem presentes ao mesmo tempo. O linear e o não linear se sobrepõem! É tão sensato e ao mesmo tempo absurdo que, à certa altura, a pergunta sobre o que é real deixa de se fazer importante, porque a própria ideia de “real” parece contraditória. “Não há realidade objetiva”, diz Jake. Ou seja, não parece existir uma realidade “por trás”, um fundo objetivo compartilhado igualmente por todas as personagens. E, se for tudo “um sonho”, é o sonho de quem?
Continuamente, desde o início até o fim, todas as certezas vão se dissolvendo, ao mesmo tempo que uma convicção cresce: não se trata do mundo “real” e muito menos de um mundo totalmente sonhado! O problema é que o filme nos dispara uma miríade de sugestões e possíveis pistas, nos provocando a sensação de que há um enigma a ser decifrado. Será apenas sensação?
Bom, se quisermos desvendar o mistério — assumindo que seja “desvendável”- é preciso encontrar uma pergunta boa, cuja resposta possa mobilizar e conectar todas as pistas. No caso, essa pergunta não é “realidade ou sonho”. Estamos no meio. Mas o que significa dizer isto?
O que entendemos sobre o sonho nos diz que todas as coisas e pessoas que aparecem nos mundos oníricos expressam as dinâmicas inconscientes de um sujeito. Que nesses mundos se manifestam ordens provisórias, análogas à ordenação dos desejos desse sujeito, que logo irão se desfazer, conforme o desejo muda. Mas e se o que chamamos de realidade não for muito diferente? E se o real for também uma ordenação do mundo influenciada pelos desejos, frustrações e ambições de um sujeito? É possível que sim, que sonho e realidade não sejam distintos em essência, mas apenas em grau de fluidez. E que estejam mais ou menos influenciados pelo sujeito. Nessa perspectiva, a arte pode ser agente de uma equalização dessas frequências, revelando a continuidade entre o sólido e o fluído.
Então não se trata de saber se é sonho ou real, mas sim, saber a partir de qual sujeito esse sonho-realidade é projetado! A nossa pergunta-chave seria: o filme expressa a perspectiva de quem? Ou: do que?

Bom, considerando que a moça não tem o privilégio de ter um nome próprio, podemos inferir que tudo se trate do mundo de Jake. E tal inferência seria apoiada por muitas pistas, além do fato do nome. Em quase todas as cenas dá pra argumentar que os elementos evidenciados são representações das frustrações dele: um garoto que é apenas diligente, sem nenhuma qualidade excepcional, que tem vergonha da mãe e ao mesmo tempo é seu devedor eterno. Um menino bobo, que não passou no teste social da masculinidade, porque é gordinho e gosta de livros. Um típico beta*, pra usar o vocabulário corrente. Assumindo ele como centro de tudo, a moça sem nome acaba apenas servindo a uma função, projeção de um ideal de mulher caridosa, que enxerga suas qualidades: inteligente, cuidadoso, dedicado. Seguindo estas pistas, a “Lu-” acaba progressivamente se reduzindo à condição de representação para os desejos desse homem. “Parece que você escreveu esse poema sobre mim”, diz ele.
Mas nem todas as pistas levam a considerar Jake como o centro de todo o filme. Algumas levam à ela. Muitas cenas parecem ser consoantes com a subjetividade dela. Afinal, porque só os seus pensamentos são vocalizados? Porque é dela a dúvida interna que dá nome ao filme? Se quisermos levar ao pé da letra o jogo do filme, em que o “real” é sempre expressão de um sujeito, devemos colocar em questão a nossa própria interpretação. Pois quem garante que, numa outra perspectiva, as mesmas pistas não poderiam nos levar a uma conclusão diferente?
Pois podem, e levam. Se quisermos considerar que o filme e todos os seus absurdos e realismos são referentes a “Lu-”, me parece que as pistas são igualmente eficientes. Uma mulher demasiadamente pensante, confusa à respeito da própria identidade, vivendo para dar provas de seu próprio valor diante de um mundo patriarcal que continuamente se apropria do seu trabalho — a cena do porão é uma pista que leva mais a ela do que a ele. E a mesma fala “Parece que você escreveu esse poema sobre mim”, dita pelo seu ficante, é ou não é um pesadelo patriarcal? Pois é a mesma pista de antes, mas levando a outra conclusão.
Algumas cenas levam a ele, outras levam a ela, outras aos dois. Então, poderíamos concluir que o longa expressa um mundo intersubjetivo, entre essas duas personagens? É possível. Contudo, não é como se, simplesmente, as cenas que representam a psiquê dela e as que representam a dele fossem totalmente distinguíveis e estivessem se alternando sem se sobrepor. Além disso, há outros elementos, que podem não se referir particularmente a essas duas pessoas.
Tentar ligar todas estas representações a um personagem específico não é a única possibilidade que o filme abre. Ao invés de procurar o sujeito central, podemos procurar por uma subjetividade. Um tipo social, delineado por condições e vivências compartilhadas. No caso: pessoas brancas, de classe média, que acumulam capital cultural, identificadas com ideias progressistas, dedicadas a mostrarem-se intelectualmente excepcionais, mas que no fundo sentem que todas as suas ideias não tem nenhuma originalidade; deprimidas, ansiosas, flertando com o niilismo e a morte lenta.

Voltando à cena do porão, que é ao mesmo tempo uma angustiante perda de identidade para ela e uma intimidade vergonhosa para ele, temos o exemplo de uma fragilidade compartilhada, típica da classe média. Esse universo aparece condensado também nas extensas e sufocantes sequências no carro, que delineiam os jogos de linguagem da intelectualidade ocidental branca. Talvez o filme não trate mesmo da perspectiva de um sujeito, mas sim dessa subjetividade branca, de classe-média, estadunidense. E progressista. Porque os temas de militância são evocados ora por um, ora por outra.
Então, quem é o sujeito do filme? Aonde assentar o centro do qual partem todas as representações? Se for só a perspectiva dele, ela é apenas uma condensação de imagens ideais. Se for só a dela, ele é uma condensação de imagens angustiantes. Se for a da subjetividade branca progressista, ambos são um pouco reais e um pouco representacionais. Talvez estejamos apenas reformulando a pergunta de “O que é real nesse filme?” para “Quem é real nesse filme?”
Consideremos o zelador. Ele pode ser uma pessoa em si, representante de uma velha geração que se viu expulsa da modernidade acelerada. Mas também pode ser a projeção do medo de Jake, ou mesmo a representação do patriarcado gerada nessa experiência infernal de “Lu-”. O filme possibilita que sejam as três, simultaneamente!
É verdade que essas interpretações diferentes não formam uma geometria perfeita. Algumas cenas pesam mais para uma do que para outra. E o fato de que Jake é o único que recebe um nome próprio no filme, pode pesar mais do que o resto. Mas é insatisfatório pensar que um filme tão provocativo, penetrante e bem recebido pelo público se encerre na perspectiva de um personagem homem. Há algo neste longa que perpassa todes nós enquanto geração.
Estes sujeitos — a mulher, Jake e o zelador — não são indivíduos puramente singulares. Tanto ela, quanto ele, quanto o zelador, são típicos. Os detalhes de cada personagem são peculiares à coletivos, e não à indivíduos. Assim, típicas, também são as situações. Tanto que é bem provável que você, leitor/a, tenha sentido identificação em alguma cena. Que o filme tenha te mobilizado por apresentar algo similar à sua própria experiência, principalmente na melancolia, na morbidez, no medo e na desilusão. Admitamos: não há nada de essencialmente melancólico ou medonho numa viagem para conhecer pai e mãe do namorado. Mas o que isso representa para nós (e aqui eu faço um recorte) pessoas de classe média, com ideais progressistas, que vem tentando, à duras penas, possibilitar relações monogâmicas saudáveis, em meio ao patriarcado? Um suco de memórias sombrias.
Construindo ao longo das cenas esses sujeitos abrangentes, típicos e ao mesmo tempo verossímeis, o longa abre a possibilidade para que os objetos e os personagens sejam projeções surreais de uma subjetividade massiva, tão ampla quanto a nossa conjuntura histórica. É possível que o filme não trate apenas das emanações subjetivas de seus personagens, mas também das de todos (nós). Uma apresentação verdadeira do espírito de nosso tempo, no qual diferentes subjetividades lutam entre si, buscando meios para se expressarem.
Nesse mundo surreal mas verdadeiro, o nosso mundo, há um conflito mórbido entre perspectivas antagonizadas pela História: a mulher, o homem, o velho. Um filme, com sua possibilidade de representar sujeitos, assim, como um sonho coletivo, é um espaço em disputa por estas perspectivas. Mas neste longa tão marcante, a decisão foi a de não privilegiar nenhuma delas, para assim conseguir apresentar o espírito do tempo tal como ele “é”: anêmico, sem vida, alienado e em estado crítico. Ou, deveria dizer, o corpo do tempo? Um corpo inerte, conflituoso, que se entrega aos vermes.
Não há a pretensão de apresentar a totalidade, já que seria ridículo falar da perspectiva dos grupos sociais aos quais não se pertence. O recorte é claro: uma localidade específica dos EUA, a classe média progressista. Delimita-se o espaço subjetivo (e objetivo) para conseguir construir um pesadelo “real”. O filme torna-se então um funil que condensa esse recorte da atualidade, de modo a realçar as suas características mórbidas. O resultado é instável, monstruoso, ao mesmo tempo consistente e verossímil: uma mulher expropriada dos meios para dizer não, “namorando” um homem obsessivamente frustrado, enquanto são espiados por um zelador reduzido à invisibilidade; a neve turva todos os horizontes de transformação, enquanto a ansiedade de voltar pra casa não é acompanhada de um desejo real de voltar.
Se propondo a apresentar uma parte da realidade subjetiva de nosso tempo, uma obra não poderia se render à imagens estáveis, puras, livre de rachaduras e irregularidades. As sujeiras e os signos assignificantes, como o gelo-duplo, ou triplo, da sorveteria no meio da nevasca, a maquiagem “de velho” ostensiva, o cachorro preso em “gif”, enfim, todas estas intuições poéticas atestam a sua importância pelas sensações que nos provocam. No entanto, a direção consegue fazer aliar esse elemento mais sujo à parte “limpa”, mais clara, dos eixos homem x mulher ou juventude x velhice.
Por fim, não obstante todas essas assimetrias, irregularidades entre os objetos, e o caleidoscópio de sujeitos que se misturam, é possível, ao meu ver, lançar mão de uma ideia unificadora: o patriarcado. Uma força masculina, que expropria das mulheres os meios para gozarem das próprias obras e da própria vida, ao passo que reifica o homem à condição de centro, opera ao longo de todo o filme. Uma força que, aliás, está fraca.
O patriarcado moribundo do filme é a verdadeira condição adoecida de nosso mundo subjetivo, que afeta todas as pessoas, inclusive os homens. Jake é, inconscientemente, um centro gravitacional que puxa tudo para si. Ela, um astro à deriva, procurando por um nome para chamar de seu, e que acaba acorrentada a um destino alheio. Ambos, a intelectualidade branca tentando solucionar as relações heterossexuais. E o velho zelador observa isso tudo de fora, sabendo que ele é tudo que as/os jovens temem encontrar (no caso dela), ou se tornar (no caso dele). Todas essas perspectivas, dos personagens principais, mais as dos personagens menores, mais as de outros possíveis, encontram-se no mesmo dia nevado, na mesma ordem patriarcal, disputando a mesma matéria expressiva: um filme. E a expressão resultante extrapola todos.
É por ser vertiginosamente real e severamente absurdo, unindo sensato e insensato, que o filme faz o sonho aparecer como um elemento da vigília. Nesse mundo subjetivo, entrelaça perspectivas divergentes numa mesma sequência narrativa, dando vazão, a um só tempo, à condição da mulher e a do homem. Como efeito, acaba criando uma ilustração coletiva do patriarcado e de sua presença medonha no mais íntimo de nossas relações, nos nossos porões. Enfim, tudo isso por meio de um surrealismo sutil que, maravilhosamente, parece “mais verdadeiro que a realidade”.
Talvez seja por essa combinação de qualidades que, após assistir o filme, ficamos um pouco entorpecidas/os. A realidade de repente é mais fluida do que costumava ser.
*Beta é uma designação que nasce nos meios internautas para designar de modo vago uma pessoa (normalmente homens) “frágil”, em oposição ao Alfa.