22/02/20

porque nós somos os outros?

 22/02/2020

das incertezas
um sumo que já sobe seco
destilado plasma piche
das avenidas


PUREZA       PUREZA


invisível no céu e grande
uma garra de metal cínico
(imagina-se uma grua)


DESPEJA       PESSOAS


entulho devém corpos causticados
             corpos corroídos
caídos, mastigados,
corpos traídos pelo nascimento
                        espalhados 
pela falta de números


A CULPA A



PUREZA       PUREZA




domingo o jovem (delírio) afundou o rosto na praça


NÃO TINHA SIDO CHAMADO

ele um corpo alimentado, nutrido, carne top, lançado ali no meio. escorrega na lama de seus desejos e afunda no espesso caldo de cimento público. com veias aparentes, sua pele branca brilha. mas não tanto quanto o sebo podre acumulado nos ombros e nas canelas daqueles espalhados ao redor. DESPEJADOS que ali ESPERAM porque não residem de modo algum.

ali o jovem fica preso como peixe 
- corpo em desacordo - 
entre os planos retos do chão e 
as linhas retas do sol. 
ali na praça, convulsiona 
o seu destino entre aqueles que não tem. 
seu estômago 
ferve enquanto se alimenta de sentir-se 
um estrangeiro em desterras devastadas.

como se a praça e seus indigentes fossem um grande animal, o indivíduo de roupas inteiras é notado rapidamente, assim que ali não ignorou. como se pousasse numa zona sensível da pele ou da língua. carne fresca, faz a vibração do ambiente mudar. forma-se um outro jogo de tensões e de intenções. mãos empurram o chão e levantam suas cabeças seus troncos se viram na direção do estranho.
estar ali foi como abrir um buraco no meio de um deserto. este era apertado e abarrotado de famintos.

ELE NÃO TINHA SIDO CHAMADO

o jovem sabe que o sol emana algo de destruidor. ele se sente culpado, em combate com suas inseguranças de pequeno burguês. ele quer fazer de si um espaço e quer que o ocupe a alteridade que leu nos livros. ele quer o sol, mergulhar nele, vaporizar-se.

 o sujeito se dissolve no calor
do momento no líquido
tudo fica ácido penetra
perde-se os limites
e a fome 
dos outros
entra

porque é o que move tudo
o desejo de comer um bom prato
por alguns minutos não haver tempo ou espaço
apenas a sensação                                           

do dente, 
totalmente desimpedido, 
penetrando e mastigando,
sem se preocupar com a forma ou o conteúdo, 
mastigando, 
sem se preocupar com o que pensar, 
expressando 
na íris 
a língua do cavalo a abraçar tufos de capim, 
franja da terra, 
"não há quem se machuque com isto", 
pensa a voz na cabeça 
de Deus



 
DEUS


DESEJO              DESEJO




eles a voz na cabeça de Deus
PORQUE O JOVEM? PORQUE NÓS SOMOS OS "OUTROS"?

...




ele não aguenta e vai embora, confuso.

26/01/20

do progresso

 26/01/2020

nos momentos em que me invade o espírito mais amorfo, me vejo desejando sombras gigantes.
nos momentos em que me sinto mais animal, vejo o ser humano por olhos sem íris.
nos momentos em que jogo a moral no lixo, eu quero ver a grande confusão.

Homem, você precisa deixar morrer seu homem. O largue ao sabor da própria gula. E que a fome instaurada no mundo se adense em seu corpo, ao que se devorará os próprios tecidos.

Vou lhe contar uma história. A história do progresso. Penso que se instituiu demasiadamente. E pouco se confiou no corpo. O caos não é mal, é apenas o caos.

Certamente não foi fácil para quem viu um relâmpago destruir seu lar, instantaneamente pulverizando todos os horizontes da vida. Um e logo Zero. 

O trauma: a experiência da máxima incerteza propagou-se nas pessoas ao longo de milênios. Assim, penso que a instituição é tão natural quanto o relâmpago. Precisamos de grandes máquinas impessoais para nos dar alguma garantia de que a vida amanhecerá amanhã.

 
Ainda mais traumático, no entanto, foi perceber o fogo dentro de si. A incerteza dentro de si. Abaixo da pele alguma coisa tão incontrolável quanto a morte. E assim, institui-se. Não para evitar algo do caos, mas para possibilitar esquecê-lo, ignorá-lo por algum tempo.

 
Mas essa não foi a grande audácia humana; não foi isso que fez nascer o homem demasiado homem. Ordenar nomes para os dias, falar de leis, criar consensos provisórios.. não foi essa a pretensão que nos lançou na virtualidade do fim em que nos encontramos hoje. A instituição foi um problema quando passou a se tornar um hábito. Instituir morais a priori se tornou tão frequente quanto defecar ou comer. Invocar leis eternas ou executar vidas na mesma frequência em que surgem as menores expressões do caos. E qual frequência será esta? Talvez algo tão rápido quanto a oscilação dos elétrons ao redor do núcleo.

 De que época estou falando? De nenhuma. Isto é um delírio. Acontece em um lugar muito mais real do que aqui.

Os úteros expressam o caos porque sangram incontrolavelmente. Não é do controle de ninguém, mesmo do corpo em que repousa. Mas o que expressa esse sangrar? Viver mortes  em vida refunda os ímpetos, redireciona as pulsões, ativa o desejo. Assim se dá também a todas as criaturas que, paralelamente à educação, recebem a pedagogia física do caos, desde o nascimento. Não é preciso ter o órgão para sentir que o próprio corpo é uma história. O útero é uma potência consistente, uma força, que muito bem poderia chamar-se Oceano.

 
Viver a morte exige muita força. Essa grande força, que é indomesticável, vinda do próprio corpo.  Aos olhos das que não a temem, o caos não é mal. O caos é apenas o caos. A dor é apenas a dor. E na vida há algo mais do que controlar ou ignorar os processos. É um mistério.

O homem faltoso, que tem nojo de útero e ódio do oceano, que não sangra sem que isso signifique martírio, finalmente institui o que faltava: a guerra ao mistério. Para isso, faz pré-existir Deus à sua imagem branca. Ou, quando a moda pede algo mais adulto - mas não menos branco - faz pré-existir a Razão. Lança mão de um fundamento imaterial, uma legitimação eterna. Dita que existe algo bom, essencialmente bom, mas que é transcendental à carne, ao sangue, ao pecado, à mulher. Enquanto os teólogos instituem um passado puro, os tecnólogos prometem a pureza no futuro. Indiferente. Pois ambos tornam-se arautos dessa mesma Lei e rondam a terra à procura do mesmo inimigo.

E o encontram. No escuro abaixo do viaduto, na falta de branquitude da pele, no estrangeiro sujo que chega de longe, no corpo desviante que confunde suas categorias... Encontra em todo lugar, na verdade. Encontra dentro de casa, dentro do armário, na rachadura que o pedreiro não evitou, na mancha que a "moça da limpeza" não consertou, no pelo que a esposa não depilou, no pênis que não sobe quando se ordenou... Enfim, já sabemos que o mistério é, como Deus, uma ubiquidade: está em tudo. Portanto, o homem institui uma guerra que é total. E assim, a máquina ocupa o lugar do relâmpago, pulverizando lares no intervalo de um tiro. Um e logo Zero.

Os combates são intermitentes, mas a Guerra é um acontecimento que não para de acontecer. Pensou-se que esse caráter contínuo da guerra tornasse ela uma ação suficiente para que o caos, não apenas esquecido, fosse extinto. Um extermínio institucional. O Progresso. Esta é a história que você precisa conhecer.


Umberto Boccioni, 1911


às vezes não me sinto gente. sou capaz de abrigar uma indiferença total com a espécie humana. sinto no sentido de que catástrofes me dariam muito prazer. a cidade em chamas destruindo de uma vez por todas a falsa promessa do progresso! mas não.. não posso imaginar demais... pois, se por um instante, no meio dessa massa humana, vejo um rosto.. ah! se eu vejo um rosto que seja, tudo se acaba! um rosto, uma pessoa... logo estou amando, inserido na trama a se destruir e, pior, morrendo frustrado. morrer com poças no peito, já que não há certeza de que, após o fogo, não se retomará a ordem, o estado de coisas, e ressurgirá, renovada, uma máquina ainda melhor. ainda pior: sem que nós estejamos aqui para denunciá-la. talvez essa seja a pior das mortes. e quantos, quantas já não morreram assim, aqui na Terra? 


Ora, homem! Você não precisa sangrar para sentir. Vamos lá, a situação não é assim tão irremediável. Atente-se. A pele do corpo, o que me diz dela? Um órgão ambíguo, que é tanto no sentido de delimitar quanto no sentido de deixar passar. Sinta. A pele é o signo da presença inelutável do mistério. Acredite, homem, até em ti o caos habita. E nunca foi possível detê-lo ou contorná-lo. Teu corpo, ele próprio é a prova de que a ordem coabita o caos até mesmo em teu peito forte, em teu crânio avantajado, até mesmo em teu pênis bélico, marcial.
Não acredita? Então lamba a espada e me diga: como é o gosto do metal? Sim: é difícil definir. Sente que sabe, mas não sabe o que sente!

Agora, lembre-se da experiência do relâmpago destruindo tudo que você conhece. Claro, dá muito medo. E este parece que não vai desaparecer tão cedo. Mas fosse essa memória profunda a prova de que não há possibilidade de vida com o caos, bem, então logo você teria que lançar seu corpo no magma. Seu corpo, feito de extensões. Certo. Volumes, vetores, tecidos e até, veja só, os diabólicos neurônios com suas vias elétricas indiscerníveis. Pequenos relâmpagos? Infinitos deles. Extensões são habitadas por intenções que a anatomia nem cogita. Então... é tarde demais para ter medo de viver?

o medo não é nunca de outra coisa que não de uma dor. não há limite para a dor. por mais que já tenha doído, existem sempre artérias menores e mais delicadas para se estourarem, existem sempre do outro lado da ponte os olhos do oprimido encharcados de sangue seco, a decair em proporção contrária a uma dor que só cresce e cresce e nem a morte dá fim

Bem se vê que o suicídio não vence a barreira do orgulho. Você, homem, continua aí, cotidiano, vivendo moralmente, desejando farmácias, se alimentando de pílulas. Os fármaco-aplicativos estão na palma da mão e você nem precisa pagar pela gasolina do entregador.

Em nome da civilização, por meio de uma tecnologia protética, você vai aumentando indefinidamente a sua capacidade de esquecer ou de ignorar. Ignorar o corpo, em primeiro lugar. Em segundo lugar, quem cuida do seu descuido com ele. Em outras palavras, você é um grande técnico em instituições, treinado por dois milênios para gradear, cercear e, enfim, ocultar a realidade do caos. Ou simplesmente canalizá-la em direção ao colo das operárias que você nunca viu o rosto. Mas esse mistério continua passando por você, secretamente, nas frestas. A parte de você que não é sua e nunca será. Você não é seu. Essa é a contradição da carne, a de ser marginal à consciência que a tenta possuir. Nem mesmo o nosso corpo é imediato.

Ah, mas você já até aprendeu alguns métodos para lidar com paradoxos como esse, não é mesmo? Armas de fogo, com sua eficiência instantânea; famílias, com sua mitologia positivada pela ciência.. Muitos métodos grandes e também pequenos, engendrados sobre o fundo falso dessa "razão humana". Variados, diversificados. Desde a instituição da igreja até a instituição do netflix. A sua normatização da hipocrisia deu lugar à naturalização do cinismo. Belo ser humano esse que se construiu! Bom... ele até pode ser belo. Mas nunca será tão belo quanto o Deus que o devora por dentro, tornando insuficiente toda a matéria prima e toda a extensão do globo. 

Como resolver esse problema, se o caos é coextensivo à vida? Realmente há um problema. No domingo vem a infame crise existencial e você pergunta aos céus: "Talvez falte mesmo transcender a carne. Como?" E a resposta cai do céus (ou seja, de todos os lados). 

Homem! Siga diligentemente estas instruções!


A solução para os seus problemas será, primeiramente, isolar do corpo a consciência pura. Então, acople essas informações em uma nave hermética, feita de luz. Em outras palavras, faça upload na nuvem de Noé. Finalmente, é só dizer adeus e viajar na fibra ótica universal. 

Percebe? Assim, vocês estarão livres do erro que a matéria traz consigo! Parece bom, não é? E é mesmo. Pode confiar. Vá. Deixe a carne para os "pobres", para as "mulheres"; transcenda a carne, deixe para trás as feridas, o sangue. Dissolva-se na sopa de fótons, junte-se a Deus no paraíso. Nos deixe. Deixe a Terra. Acelere o progresso ao infinito e viaje, homem, viaje para sempre, sem nunca mais errar, em direção ao seu tão desejado fim!


me vejo desejando sombras gigantes
vejo o ser humano por olhos sem íris
quero ver a grande, a maior, a derradeira confusão

15/01/20

bound to

15/01/2020

 aceito o céu como aceito um dado

mas acredito que escolhi
estar aqui porque louco
aceito
confesso a culpa
minha de ter nascido

e só

não há mais culpa
todo o resto é risco
e a memória vive
cedendo

aceito o céu como aceito a gravidade
aprendemos desde o começo

fui pego pelo bonde caindo
lembro-me com força
desse veículo longo
                              extenso
                              até hoje

na queda
apanhei estranhos
caroneiros marujas
parasitas paradisíacos
me apanharam em banheiros sujos como a Terra

e por pouco não me devoram
e hoje são meus amigos

na queda,
eu os aceito
eles os pesadelos
elas a poeira colorida
e nós
que me dominam
desde a pele até o quê
se não temos fins?

10/12/19

os buracos fecharam ou nunca existiram

 10/12/2019

"Assim, estamos hoje mortos demais para viver,
e por demais vivos para morrer."
Byung-Chul Han

                                             


                                                                   .            .              .

ele precisou amar o rachado sujo das ruas para inventar um jeito de viver.
era difícil. mas ainda havia um pouco de espaço para a água passar, junto com algumas bolhas de ar.

a cidade era um grande funil. em dias mais otimistas, poderia ser um filtro ou até mesmo uma peneira. mas no grosso da semana, sem dúvida funil. talvez informe, talvez de um metal muito amassado e retorcido, sem a circularidade da figura, era no entanto muito realmente um funil.

dureza de alguns elementos para transportar a moleza de outros
e o tal do buraco
por onde os elementos, espremidos, caem e se abismam,
espraiando paraísos escuros que, evidentemente, são irreais.

"tudo culmina aqui. nessa ferida. aqui o desejo é obrigado a fundir-se com a ordem.

mas já não encontro o ponto a que me referia.

certo. talvez encontre outro amanhã."

esse encontro lhe dava algum sentido de movimento, ainda que precário. servia para viver.
mas por falta de força, ausência de tamanho ou esquecimento de cor,
chegou um dia que essas últimas frestas também fecharam.

então a cidade, que já era cerebral como uma dor de cabeça, passou a ser apenas um vocabulário. ônibus, apartamento, a grande metrópole cultural, o preço das passagens e dos ingressos, o mundo.
a cidade ficou trancada nesse caça-palavras pouco divertido, e tudo aquilo que o rodeava, toda aquela massa de gente e de enormes documentos, toda a realidade, passou a ser apenas um espelho. liso.
nem dava para saber se havia ou não distorção.

os buracos fecharam? algo como uma força física ou sísmica pode tê-lo feito. ou talvez fossem falhas intencionais que sua percepção eufórica colocava naquilo que sempre foi um espelho, e a euforia tivesse quimicamente chegado ao fim. ninguém pode saber. mas ambas as alternativas são coisas fracas, frias, como discursos científicos sobre a composição do cimento ou o ponto de fusão da sílica.



o que realmente ficou diferente depois desse alisamento ou espelhamento, não foi a nova reflexão filosófica a respeito da ontologia da depressão e da angústia, que agora o acompanhava. não. é um peso que surgiu. um vazio. uma coisa concreta como um corpo. algo que matou-o mil vezes antes, de modo intermitente, mas que agora era contínuo. uma duração que se instalava e passava a habitar o existir como uma essência.

os buracos fecharam ou nunca existiram, o movimento cessou, e ele esqueceu da vida. mas ninguém o matava. estava a ser morto pelo seu próprio reflexo. estava sendo morto. a vida é essa dor. não há nada além. os prédios são espaços determinados, onde se pode estar dentro. ou fora.

06/11/19

leme

06/11/2019

 vou tentando domar
esse vacilo
sou eu
a vida de um leme amolecido

cruzando marés de concreto
amolado
vou tentado

vou tentando domar
esse barco
de carne amolecida
sou eu

vezes eriçado pelo vento
vezes sem vela distinguível
largado
           às
               Vezes

às vozes das traças gigantes
prédios empresariais
avenidas esperanças
grandes arquiteturas de pensamento
e vai e vai e é tudo

tudo um grande mar
de cifras?

me animas
e os desejos
ainda mais me lançam
contra muros
de mentira e camas de verdade confortável
boiando

são ilhas de calor
por onde eu passo eu durmo um pouco e sonho
um sonho
onde controlo quase tudo
ou seja
alguma coisa
ou seja
quase nada
e me acordo
e quase nado.

 

Sarah Brayer, "Quiet Elegance", 1997

 

31/10/19

profanar o tribunal

 31/10/2019

A "justiça" que tem cara de homem é a burocracia;
a verdadeira Justiça não tem rosto e não tem código.

Mas o mundo está tão hominizado que provar o crime do presidente seria de fato o que traria a Justiça, embora ele mereça o fogo independentemente das provas e da ligação causal dele com o assassinato. De fato, provar a ligação direta dele com o crime traria consequências imediatas, cuja velocidade e tangibilidade seriam mais que necessárias, em virtude das urgências de nossa situação. Mas nunca nos esqueçamos que nós já sabemos o que produziu as condições pro assassinato de Marielle Franco e de Anderson Gomes. Não apenas estruturalmente. É concreto o patriarcado o racismo e o fascismo que transforma em navalha afiada o ar que circunda corpos de mulheres negras insubmissas e de modo mais rarefeito os de toda a população. Lâmina vacilante, que pode cortar a qualquer momento e dos modos mais terríveis. Isso é concreto demais para ser entendido como metáfora. Em potência, esse assassinato está acontecendo em todo lugar.

É importante lembrar disso pra não gastarmos nossas expectativas com o processos da máquina burocrática. Gritar pela justiça penal do presidente é como xingar um computador. Perda de energia. Numa perspectiva ética, que se foda se ele teve ou não relação causal objetiva com o assassinato. Nós sabemos muito claramente que as ações e até a própria existência dele nos modos como se apresenta hoje, e de todos os homens poderosos, é responsável diretamente pela morte de milhões, incluindo a da simbólica deputada. Nem tudo que é concreto é linear e causal. A maior parte não é. Esse homem existe para muito, muito além daquilo que o seu corpo individual é capaz de produzir, do que suas mãos podem ativar ou suas ordens podem definir.

Como todo poderoso, seu campo de ação repercute em dimensões imensuráveis. Este poder de que é abastado se realiza de modo econômico. Mas também, e principalmente, pela mídia, que expande sua imagem e suas falas por todo o território brasileiro, aumentando exponencialmente a realidade, a existência e a potência deste mísero homem. Suas ações e seus modos ecoam pelos meios de comunicação que hoje se multiplicam num fractal de área infinita - telas nos rostos -  e encontram campo fértil para se expandir na subjetividade e nos desejos de milhões de pessoas que via de regra consomem essas imagens e áudios de modo acrítico. Muitas vezes até predispostos à imitação. Sem falar das fake news. Assim a presença ativa deste jairbolso efetivamente se expande para muito além de seu próprio corpo. Sua manifesta vontade pelo extermínio daquilo que ele considera inimigo (ou menos homem que ele) ganha muitos outros corpos, que agora se sentem guiados, com um líder absolutamente legitimado.

Mas antes mesmo dessa figura individual se alastrar por aí, o homem branco rico miliciano enquanto identidade, enquanto modo de agir e pensar, com seus valores e suas medidas específicas, este homem já estava por toda parte. Ganhou sua manifestação mais exemplar no agora presidente. Ele é como a precipitação visível da substância que há muito já estava se saturando na nossa solução social. Graças a sua aparição, está definido o caráter do nosso adversário impessoal, fantasma que se confunde com a atmosfera. Este adversário não é exatamente um tipo de pessoa, mas um campo de ações que as pessoas, todas elas, podem ou não adentrar. E quando o fazem, a chance de mais Marielles assassinadas pode chegar à iminência.

Munido dessa percepção acerca da ação, a conversa sobre Justiça toma uma forma impensável do ponto de vista causal linear. Aqui, a arminha que o presidente fez com a mão furou de fato o corpo de Marielle de muitas outras. Mas a máquina burocrática que é a justiça do homem não pode agir sobre aquilo que não é provado categoricamente. A ação que acontece para além do encontro de indivíduos em um dado espaço-tempo e que não está definitivamente descrita, é a ação das forças que atravessam as pessoas desde a sua intimidade até sua coletividade. Quem pode julgar essa ação, quiçá abrindo espaço para a Justiça enquanto força, somos nós: testemunhas-réus-vítimas-juízes. E o jurado é a nossa bagagem. Profanar o tribunal é devolvê-lo ao uso comum, performando-o, fazendo do nosso corpo o seu cénario.

Eu acredito que existem pessoas éticas ocupando o Estado e a Lei, trabalhando para que a verdadeira Justiça a(s)cenda dentro dos gabinetes e escritórios. Mas não podemos depositar todas as nossas esperanças nessas pessoas, que são pouquíssimas. Prolonguemos o trabalho dest_s e percebamos em nossos lugares de ocupação o que está burocratizando a emergência da Justiça. Façamos nascer o fogo nos lugares em que ele é urgente.


chile

26/10/19

geralmente é uma questão de números

 26/10/2019

 

 1

tento pensar na possibilidade de escrever o acontecimento
tento, e já estou a me lançar
tento pensar, e atravesso uma barreira densa
tento pensar na possibilidade, e a imensidão se iguala ao meu corpo

o acontecimento tem tudo que é impossível de ser visto, em cada partícula de sua aparição
e ainda mais, tem o acontecimento um movimento que jamais pôde ser deduzido,
o acontecimento, que envolve tudo aquilo que é nosso
e irrompe ativamente de dentro dessas mesmas coisas, desapropriando-nos

parece-me que escrever o acontecimento é inevitavelmente acontecer de outra maneira
ele acontece enquanto não o pensamos e,
quando fazemos de pensá-lo, algo de essencial nele morre
para logo passar a acontecer apenas nas marcas que deixou, no corpo
uma contínua reverberação, um dínamo sísmico, carregando a história contra a história,
o acontecimento é um só presente em infinitos feixes de continuidade
que estão efetivamente afectados uns nos outros

mas como pensar este que é antes do pensamento?
vivê-lo ou pensá-lo?

vivê-lo e pensá-lo
logo, vivê-lo de outra maneira
o que, ferozmente,
é viver já um outro acontecimento


2

certo de que pensar é um outro
pensamos sobre o pensamento afim de observar a observação
criar conhecimento?

experimenta-se pois é acontecer com línguas e tímpanos
e assim encontrar no acontecimento relevos, fissuras e linhas, isto é, intuir encontrar
(pois nunca se sabe)

intuir encontrar seu caráter ou topologia e então processar uma cartografia.

é loucura fazer um mapa do fogo?
mas se diz > "fogo"
algo por ali que nunca jamais nos faria sentir frio
mas como é fazer um mapa daquilo ou disso
que se apresenta sempre uma estréia de uma arte desconhecida?
como é cartografar um terremoto? (o continente é um terremoto misteriosamente lento)




inventam-se linhas para dizer a respeito das linhas que supostamente não se inventaram
poder dizer ISTO ------> é -------> AQUILO
poder
                         o que
dizer onde  ACONTECE  como
                        quem                   

algo do acontecimento permanece
algo dele que certamente não é ele
permanece

então aí SABEMOS.
sabemos que sabemos.
assim um sujeito parece emergir daquilo que agora é o objeto.
(nunca foram)

podemos iniciar a navegação.

o que se sabe
age sobre o corpo
do que se faz
como um leme
um martelo ou um facão
ferramenta que tem a capacidade de convocar a resposta
vibração que percorre a rígida palavra e liga
o mundo e a garganta


4

mas o que se sabe?
nossos mapas funcionam para reduzir a diferença entre a suas linhas e as do mundo
(controle)
apenas quando insistimos em percorrê-las em círculo
viver dentro do mapa
isto é
impedir o acontecimento

justamente o fascínio e o terror de olhar pela fresta da sabedoria
e confirmar surpreendidos
que até o rosto do ser humano é um abismo
quando não con-forma na fôrma do desenho antigo


5

por isso procurar escrever o acontecimento
procurar                                         escrever
           é acontecer de outra maneira

exatamente na mesma contínua aberração
que foi o ser humano
acontecer e permanecer obstinado em ser humano
acontecer e permanecer
permane-ser-humano
e não acontecer



como?