liberdade é uma questão de escolha. essa frase é um absurdo e se refere precisamente à realidade. não se pode ser livre sem que a liberdade esteja possibilitada antes. você não pode conquistar a liberdade porque a conquista é um modo de agir. penso que agir implica uma fagulha de não-determinação ou, no mínimo, uma contra-determinação. ao menos é nessa direção que o sentido da palavra aponta. então há um paradoxo: ter de conquistar a liberdade é não tê-la. não ter liberdade é impossibilidade de agir e, portanto, de conquistar. parece uma rua sem saída. por outro lado, parece um deserto.
por liberdade entende-se a ausência de impedimentos externos, que tiram o poder de se fazer o que se quer* de se pensar o que se quer de ser o que se quer enfim de realizar
nesse sentido, liberdade é apenas desejo mas o desejo de comer dá em liberdade? matar a fome é libertar-se?
um animal, entendido como um ser de instintos, pode fazer o que deseja um autômato, entendido como um animal artificial, pode fazer o que deseja seu artífice contudo estas potências são liberdades paupérrimas são potências mínimas
quando pautamos a liberdade humana, não é de potências mínimas que falamos não é da potência do autômato porque por mais complexo ou extraordinário que seja seu ato por mais articulações que movimente nada que faz escapa de uma determinação
(a não ser que a falha, o atrito, o curto-circuito, sejam feitos ou contra-determinações)
a liberdade humana é mais do que poder matar a fome mais do que poder comprar iPhone porque essas potências são potências do animal e do autômato
nossa pauta é uma potência maior que a do ser de instintos que a do ser autômato por mais sofisticados seus cálculos tecnológicas suas atividades por mais delicadas suas articulações caprichosas suas vontades não escapa a uma determinação um robô pode tudo isso
só é livre o artífice: o que determina a potência do animal
pensou-se que era deus pensou-se que era a razão universal hoje pensamos que é o capital
"Recifenses conferem o título de condenscendente à Unesco."
Mas falando sério, eu fico muito incomodado lendo coisas como "Recife se tornou uma cidade criativa". Claro que, mediante uma reflexãozinha bem banal, a gente já ressalva que é "só um título conferido por tal instituição". Mas o que há por trás dessa nomeação? É um ato de linguagem, é um ato que engendra uma concepção de mundo. Uma concepção globalista, que toma o "Mundo" como ponto de partida. E aí já vem a imagem da esfera azul e verde. O "olho que tudo vê" dos satélites, a tecnosfera enquanto uma espécie de entidade transcendental, capaz de conferir e retirar essências das coisas do mundo. Enfim, um pacto social global que tenta regular o jogo entre imperialismos, e essas instituições internacionais com o papel de juízes universais. Porque é a UNESCO que valora Recife, e não Recife que valora a UNESCO? Não desprezo os efeitos benéficos desse ato de linguagem, na medida em que pode atrair recursos materiais pras comunidades locais. Mas é ingênuo relevar o fato de que a Recife-da-UNESCO é vinculada a uma perspectiva burguesa e mercadológica. De que esses recursos chegarão destinados à essa Recife - Cidade Criativa, a mais nova mercadoria capaz de gerar valor para esse capital cada vez mais incorporado à tecnosfera. E, bem, que isso aumente a renda de algumas pessoas, que pequenas empresas de turismo se beneficiem disso, que oportunidades nasçam para empreendedores praticarem o "cálculo racional", "serem racionais", e, se abstendo dos afetos locais e suas valorações próprias, vislumbrar uma "criativa" forma-mercadoria de sua própria terra, de sua própria história, de sua própria verdade. Vejam aí o PIB aumentando, a glória econômica coroando a UNESCO como Leviatã, autômato hiper-complexo, invenção científica, que levará a humanidade para seu futuro prometido, de muito consumo, novas moedas. E assim, da singela vontade de aumentar sua qualidade de vida e participar desse futuro, esses novos empreendedores sem saber se transformam na lubrificação da máquina global, ou, quiçá, nas novas linhas do código do grande software. O que é fácil de entender, no entanto, é que na sombra dos crescimentos econômicos há uma edificação de novos abismos entre as pessoas, entre as espécies, entre classes, etc. E a cidade de Recife, que sempre foi "uma cidade criativa", para a qual a palavra "criativa" é quase uma diminuição, veste seu uniforme de competidora global, ganha sua insígnia e avança nas raias do progresso.
a questão toda da sua vida toda ser apenas um universo infinito de demolições ou ser uma raspa de tijolo quente como a baba de um sol convulsionando na sala de estar
nascemos pra trair o bom nascimento
então a única maneira de fazer do jeito certo é se lançar pra fora cada
vez mais pra fora e estabelecer contato com os dentes dos ratos e
lembrar de todo o horror e se culpar e queimar junto com a culpa de tudo até não existir mais como pensar em voltar a sentir saudades da infância
com toda essa discussão silenciosa, a micro política a macro política... qual é a ponte entre as duas ? cadê a possibilidade de ação ?
o outro é sempre o pior, o fascista, o reaça, o ignorante, o bolsonaro, o "aquele", o "eu" que represento, minha identidade top ah mas que droga. deveria fazer algo com a minha vida já que teoricamente tenho todas as armas teóricas na mão.. o chumbo logo apodrece, logo vai espalhar suas toxinas opressivas no ar ao meu redor. é preciso agir. vamos logo às pesquisas, fazer trabalho científico, produzir conhecimento vamos logo às bases, conversar ouvir entender mudar de hábitos vamos, rápido, pras barricadas trincheiras piquetes explodir bancos vamos eleger presidentes estudados e representativos de minorias vamos seu inútil mas afinal, se eu não tenho nem vontade de parar de comer pacotes inteiros de bis depois do almoço dormir mais cedo, dormir melhor, dormir de fato cuidar de um corpo próximo como o "meu" próprio realizar metade dos projetos que minha mente produz incessantemente produzindo ideias, planos, planos perfeitos se às vezes não tenho nem vontade de querer parar de sofrer nem dar a cara a bater implacavelmente rendido à condição factual de ser uma mediocridade definitiva como posso, ainda, me relacionar como humano? é possível chegar na conclusão mais nefasta sobre mim mesmo é possível, é fácil, é normal até o mundo parece uma mãe cujo rosto envergonhado vai pairar sobre minha pele até o fogo da próxima morte
e então acordarei novamente, repetido, suficientemente esquecido, e vou pegar o busão, com uma poça a mais no peito
É crescente a flora infernal que esgueira seu tortuoso apetite
nas sombras retidas atrás.
Atrás das placas
polidas típicas
pálidas máquinas cívicas.
Atrás das peças.
Por entre as soldas
que em continência não podem as ver.
São elas as ervas danadas. Diabas.
Racham paredes, bebem concreto, pixam os corpos e transam o lixo.
Enfim elas gestam com vulvas nas testas os templos profanos e conjuram o fim das finalidades.
Minhas primeiras memórias de escrita são da escola. Aulas de redação.
De fato, não é um exemplo bonito de início, daqueles que uma criança
poética se encanta com o poder de colocar palavras num papel. No meu
caso, foi bem diferente disso. Meus primeiros contatos com a escrita
foram carregados de sentimentos conflitantes. Muitos deles raivosos,
tensos. Afinal, o que me colocou pra escrever não foi inspiração mas sim
a força da pura obrigação. Era aula de redação e eu precisava passar de
ano. Fora essa pressão, me faltariam motivos para me debruçar sobre a
escrita. Não encontrava sentido naquilo e, na verdade, em nenhuma outra
atividade escolar. Entendia essas demandas como regras de um jogo
antiquado e perverso, que eu precisaria respeitar apenas pra não ser
punido. Até tinha certa razão. Mas não fosse essa falta de sentido, não
teria me deparado com a folha em branco. Atravessado de conflitos, em
meio à vontade de gritar contra o mundo, abria-se uma possibilidade:
diante de mim uma folha em branco, que eu poderia preencher com o
sentido que eu bem entendesse.
Não fui um bom aluno, como se pode inferir. Esburacadas de desordem,
minhas redações recebiam notas medianas. Mas em cada uma eu descobria um
refúgio, uma espécie de brecha no sistema. Eu só precisava mostrar uma
boa gramática, uma certa noção de desenvolvimento e um pouco de
coerência – esta última, a mais difícil de conseguir. Esse mínimo de bom
comportamento me daria a nota de aprovação e me livraria das punições
morais. Com relutância, aceitava que parte do meu texto teria de ser
concedido ao correto. Assim, me sentiria suficientemente acobertado. Era
parte do jogo. Em compensação, poderia continuar materializando em
texto um espírito clandestino que começava a me ganhar. E a vida foi se
tornando um pouco como a Julia de “1984” define: “uma coisa muito
simples. Você fica querendo se divertir e ‘eles’, ou seja, o Partido,
faz de tudo para evitar que você se divirta. Você faz de tudo para
infringir as regras.” Sem ser pego, completaria.
Mesmo que numa dimensão muito pessoal e até mesmo um pouco paranóica,
escrever já nasceu um ato de afronta e, porque não, de política. Claro
que não a política do social, que mais tarde viria a me tomar de
assalto. Mas uma política do jogo, da diplomacia na relação com o
adversário. Um jogo de elegância, de disfarces, feito de glórias
silenciosas e vitórias sutis. Eles teriam de engolir meu texto
iconoclasta, niilista, destruidor de morais, pois estava “bem escrito”,
digamos assim. Nisso não havia a mesma força que no malandro, este
arquétipo do marginal que se torna liso ao portar certas elegâncias, mas
se tratava do mesmo tipo de combate. Poder denunciar o embuste do jogo,
ao mesmo tempo que o joga. Estudar o mecanismo simbólico pelo qual a
boa gramática torna legítimo qualquer conteúdo. É um lance estético,
entende? Se você mostrar que sabe pilotar a linguagem, eles vão ficar
impressionados. Mesmo que, no fundo, você não saiba. E nem eles. O que
importa é “mostrar que sabe”.
Felizmente, quando pude me livrar da formalidade escolar e me lançar
no ócio desconhecido, amadureci. Conhecendo o mundo e encontrando mundos
dentro, descobri os outros sentidos da escrita. Diante do globo
capitalista, confirmei: as aparências e o jogo estético são armas das
mais poderosas. Por outro lado, aprendi que num mundo feito de matéria e
de corpos de gente viva, o conteúdo e os efeitos concretos de um texto
importam. Importam a ponto de, na ponta, matar ou morrer. E sabendo
disso, você deve escolher uma posição: está com os que sempre morreram
ou com os que sempre mataram? Esta lição trouxe um elemento novo pro meu
texto, o elemento da luta social. Esta adição, é inegável, conflita com
aquilo que até então compunha minha escrita. E até hoje é assim. Mas,
para o bem ou para o mal, o elemento estético nunca deixou de ser o
núcleo motriz. Mais especificamente, a questão que me impele é esta:
qual o poder do belo? Quem define o belo? Nós podemos alterar isto?
O efeito material e o efeito subjetivo do texto não são coisas
totalmente dissociáveis. Hoje eu estou um tanto mais consciente da
relação existente entre esses dois elementos, ao ponto de poder afirmar:
é delicado. Mas é aí, em direção ao delicado, que vai minha expedição.
Na direção do balanço frágil entre luta social e subversão estética. Do
contato com a vibração que vem do chão, o sismógrafo traduz o conflito
entre o sólido e o volátil. Esse é o grafo que eu quero mimetizar.
século XIX, Índia, anônimo
híbrido
Mas afinal, porque escritos híbridos? Bom, esta palavra tem seu uso
mais comum na arena da biologia. Diz-se do indivíduo gerado no
cruzamento de espécies diferentes. E daí a linguagem derivou seu uso
figurativo, pra qualificar tudo que nasce de um cruzamento heterogêneo. O
interessante sobre essa palavra é que, por ser usada na biologia,
indica um contexto formado por seres vivos. E o que isso traz de
vantajoso? No reino do que é vivo, não faz sentido falar de contrários e
nem de idênticos. Só há diferentes. A hibridição não é uma síntese
entre duas coisas contrárias, e tampouco é o inverso de uma geração
entre iguais. O que ela gera não homogeiniza os dois termos da relação
em uma nova unidade. O híbrido manifesta um meio, um novo meio; é um
terceiro que carrega qualidades do primeiro e do segundo, sem por isso
sê-los.
No reino da escrita, as espécies são os gêneros textuais. Prosa,
poesia, ensaio, artigo, tese, resenha, crítica, etc. E dentro delas, um
punhado de subespécies. Cada gênero tem suas qualidades particulares de
tamanho, tom, linguagem, interlocutor e propósito, e a combinação destes
atributos resulta naquilo que o texto tem de mais concreto: sua
efetivação no suporte e o efeito que dali ele terá no mundo, por meio
dos/as leitores/as. Assentado esse assunto, já podemos deduzir o que
seria um escrito híbrido: um escrito que não se identifica com nenhum
dos gêneros textuais, mas que se encontra no entremeio dos mesmos. Na
fauna textual, um híbrido exemplar é a prosa-poética. Talvez seja o mais
aceito e utilizado. É a mula dos textos, poderíamos dizer. Possui a
força explosiva de um cavalo – poesia – com a resistência incansável de
um jegue – prosa.
Não vou inspecionar aqui cada detalhe dessa metáfora, ainda que seja
interessante. (O híbrido coloca em questão a oposição entre
artificialidade e natureza, questão essa que, em termos de escrita,
alimenta uma bela e longa viagem. Mas isto é para um outro momento.) Meu
interesse agora é contar o que penso ser a principal causa de meus
textos devirem híbridos. E digo: é a qualidade subjetiva presente lá na
origem, nas aulas de redação, e que reverbera até hoje. Como disse, a
minha escrita nasceu em um contexto de conflito pessoal, de tensão. O
mundo pequeno, estreito, delimitado pela escola e pelas relações de
poder inerentes, transbordava em regras complicadas e arbitrárias. A
maioria delas, não ditas. Para respeitá-las, para agir conforme, era
preciso, primeiro, decifrar uma rede complexa e invisível de normas,
segundo, domar os impulsos e modelar-se. Mas eu dificilmente conseguia
decifrar essas normas, e mesmo quando conseguia, minha vontade era
contrária ao modelo. Uma dupla dificuldade – incapacidade de compreensão
das normas e também uma afronta inconsequente – foi o signo sob o qual
brotou minha escrita. E essa dupla dificuldade reverbera até hoje. Eu
ainda peno para adequar meu texto às exigências formais, seja porque me
parecem complicadas, seja porque me parecem demasiado arbitrárias.
No entanto, com o passar dos anos, eu soube dar a devida atenção às
normas, de modo a poder descobrir razões subjacentes que me provam: não é
pura arbitrariedade. Objetivamente falando, na escrita as
normas prescrevem a boa gramática e a adequação às formas textuais. Como
norma, isso soa apenas como uma tentativa forçada de disciplinar a arte
textual. Era assim que eu via. Mas o amadurecimento me proporcionou
encontrar um sentido não normativo para a preocupação com a forma. A
razão é que tais qualidades promovem a capacidade do texto de ser
socializado; sem nenhuma preocupação formal, o texto isola-se em si
mesmo.
Por mais geniais e/ou criativas que sejam as ideias de um/a
escritor/a, por mais ousadas as direções que ele/a pretenda tomar em sua
escrita, ainda precisa materializá-las num corpo textual e colocá-lo
num suporte. Na imaginação, esse corpo textual é um colóide quimérico
que pode assumir infinitas formas sem perder sua potência incisiva num
suposto leitor. Mas no suporte essa liberdade privada desaparece, dando
lugar às limitações do mundo material. Nele, o compartilhamento entre as
pessoas de formas textuais definíveis, adequadas aos meios atuais,
garante a possibilidade de comunicação. Por isso, é interessante para
o/a criador/a textual respeitar as formas e gerar escritos que possuam
os atributos formais correspondentes. É poder ser acessado por
diversos/as leitores/as, não só aqueles que partilham de suas ligações
estéticas.
Por outro lado, essas formas compartilhadas não são dadas
naturalmente, como se uma objetividade última nos dissesse: é assim que
as coisas são e devem ser. Há um processo pelo qual se engendram formas
aceitáveis e se excluem outras. E a suspeita de que novas formas
pudessem surgir residia na minha convicção de que a natureza da escrita
não poderia ser tão auto-limitante. Eis que hoje eu sou convicto para
afirmar: aquilo que limita e define as formas textuais não é amigo da
potencialidade artística e, mais do que isto, se apoia em convenções
secretamente arbitrárias, apegadas ao passado antiquado do mundo textual
(ocidental). Essa crítica à forma, que hoje eu faço com maior
embasamento, pesa muito. E a balança da escrita continua instável, sem
render-se a nenhum dos polos.
Uma escrita que ignore ou desconheça completamente a razão das formas
textuais convencionais, tende ao isolamento e à privatização. Eu, com
minha rebeldia imatura, fiz dos meus textos reféns, condenados ao
ensimesmamento. Claro que foi importante experimentar, brincar de
palavras, construir um laboratório textual, mas isso raramente produziu
pontes com o mundo. Pese-se o fato de que esse isolamento não foi fruto
de simples rebeldia; como disse, também era uma honesta incapacidade de
entender as normas e formas. Assim, a dificuldade de adestrar a fruição
de minha escrita se deve tanto à sua ferocidade plena de justiça, quanto
à minha incapacidade técnica. Eu sabia – e sei – que sem uma
insubmissão às regras formais não seria possível revelar a
arbitrariedade estética que as governa por trás; que muito do que é
considerado belo é apenas correto, e vice-versa. Mas é preciso
desconstruir o sistema por dentro, infiltrando-se, jogando seu jogo,
camuflando a rebeldia com a perspicácia de uma técnica textual que
respeita formas. Pois as formas textuais são critérios de visibilidade e
legibilidade. Sem elas, o texto, mesmo escrito com sangue e sabedoria,
pode tornar-se invisível.
O híbrido é, portanto, uma maneira de balancear, sem equilibrar, esse
aparente antagonismo entre a convenção e a invenção. De forma alguma
meus textos devém híbridos por uma decisão consciente, baseada em um
raciocínio como o que eu consegui destrinchar aqui, neste texto. O
hibridismo foi efeito de uma tensão afetiva, emocional e política. Eu
ainda sinto a necessidade de desestabilizar os tácitos acordos estéticos
que são revestidos de “maneiras certas de escrever”. Mas com o tempo eu
fui entendendo que saber usar palavras da moda, respeitar as convenções
semânticas e gramaticais, despojar-se de sintaxes experimentais e,
principalmente, escrever dentro dos moldes das formas textuais, é uma
atividade trabalhosa e nobre, admirável até. Mais do que isto, o estudo
que permite sustentar essa atividade também pode alimentar o/a
escritor/a com um conhecimento valioso. Pois sem conhecer as espécies
aceitas de texto, não seria possível escrever no cruzamento delas. O
texto híbrido, habitante da zona limítrofe entre as formas textuais,
instiga o/a leitor/a ao estranho e ao mesmo tempo o/a acolhe dentro do
familiar. Sem se alienar nem se alinhar ao formal, os escritos híbridos
expressam uma tentativa textual de manter a diferença viva, selvagem,
mas socializável.
É assim que eu consigo entender grande parte do meu processo de
criação textual. Hoje, particularmente, estou me empenhando em trazer
meus escritos para formas mais bem definidas. Dar maior tempo e espaço
para a etapa da projeção, qualificá-la com planejamento, para que os
textos devenham estruturalmente limpos e elegantes. Principalmente, para
o que o tamanho do texto, esse atributo dificílimo de controlar, se
adeque melhor às situações. Que esse tamanho se equilibre com o
combustível da fruição, para nutrir o fôlego do/a leitor/a, tornando o
texto interessante o bastante para ser lido até o fim, sem perder as
ideias principais. Bom, é o que eu estou tentando fazer ultimamente.
Espero que escritore/as possam identificar-se com alguma parte do meu
processo. Adoraria escutá-los à esse respeito. No mais, que possamos
desafiar o público leitor em direção às bordas do esperado, adentrando
juntes nas margens das formas para experimentar coletivamente o fascínio
do desconhecido. Oxalá a gente possa participar de uma transformação da
norma estética, quem sabe até desestabilizar a beleza.
O silício é a nova
onda. Todo mundo está atrás desse hype. O micro-chip como objeto-símbolo
da glória. O sucesso. “Trabalhai com o silício e poderás reduzir
infinitamente o tempo entre o objetivo e o resultado.” Foi isto que a
vida me ensinou. Você consegue imaginar? Imediatamente, querer e
conseguir! Isso não seria a experiência de dEUs?
Mas eu não me
sinto assim. Meus amigos estão se suicidando e os que não conheço de
perto estão sendo assassinados por suicidas. O tempo de fato se reduz,
mas não para de ficar menor. Então, essa glória de silício… Pra quem ela
funciona? Talvez estejamos redescobrindo que o ser humano foi mesmo uma
invenção divina. Cordeirinhos lógicos.
⊗
Deus quer e deus faz acontecer. Ele vai descer à Terra, gozar de
existência sólida, incorporar-se, sem por isso deixar que as
dificuldades da matéria impeçam o livre exercício de sua existência
divina. Ele descerá e continuará onipotente. Mas qual será o corpo que
assumirá? Nós, o pessoal do círculo de profanos sabotadores, ficamos
sabendo que a glória do silício está reservada para um avatar
não-humano. O paraíso sobre a Terra está próximo, muito próximo de
acontecer. Mas nós não vamos experienciar isto, porque está para além dos sentidos, como já foi repetido tantas vezes.
É
possível, no entanto, ter um vislumbre. Vocês já devem ter visto as
imagens aéreas da cidade e das zonas rurais. (O satélite tem a visão dos
anjos, porque pode ver os movimentos de deus na Terra.) Sim, você está
vendo um grande chip. Tudo está medido, toda a superfície terrestre,
esquadrinhada. Não há mais um “fora”. Agora falta apenas trabalhar os
sólidos que ainda apresentam alguma irregularidade. Aos poucos tudo vai
assumindo a forma de uma plano cartesiano bidimensional. A altura? É
apenas a possibilidade de se empilharem os planos. Você pensava que a
imagem de deus fosse uma coisa mais bela, não é mesmo?
Podemos perceber que tudo é uma questão de asfaltar, de se expandirem
as vias, de se multiplicarem – controladamente – os canais por onde
passa a energia. Que energia? Ora, são os elétrons, finalmente
controlados. Após dois milênios de domesticação da Terra, o impulso
elétrico, o sutil, a primeira densificação material da energia, está
controlado. Graças ao trabalho de bilhões de pessoas ao longo dos
séculos. Mas vejam, isto já era novidade no século XX. A onda agora é
controlar a energia em seu estado ainda imaterial, para que ela também
possa ser canalizada pelas vias do silício. Estou falando do desejo.
Sim, o impulso, o querer, a vontade, dê o nome que quiser, é essa
dimensão imaterial que está se conseguindo canalizar. Fora isto não
haverá mais nada.
Então a cena aí, para contemplarmos. O chip
como modo de existência se materializando. Exemplo: a cidade. Ela é
também um corpo binário, de vias e chaves. Vias por onde passamos – sem
escolha, pois sempre há a smartness de um phone para nos fornecer o caminho mais rápido. O objetivo é chegar o mais rápido possível num lugar e ativar sua função, chavinha no ON. Entretenimento, trabalho. Ativa-se, cumpre-se o objetivo, desativa-se. Chavinha no OFF.
A vida para nós humanos parece ter sido reduzida ao grau mínimo do
movimento, o binarismo da diferença: o zero/um. Tudo é uma questão de
verdadeiro ou falso. “Meu amigo: ou você está dentro da identidade que
eu construí com as informações dadas, ou você simplesmente não existe.
Não tem erro.” É isso que pensamos quando olhamos no espelho – seja ele
opaco ou transparente. Sim, para nós humanos não há muita liberdade,
onipotência, porque nós somos apenas os peões, os elétrons.
–
Zero / um. Ou se está na unidade, onde todo o universo está pleno,
preenchido de sentido, sem sobras, sem espaço para criação; ou se está
no absoluto vazio, na completa falta de sentido, existência sentida como
pura destruição, pura morte. – Ora, mas isto é um exagero! É possível vivenciar o meio! Estamos certos de que vivemos o meio como algo real. -Evidentemente
ainda existem nuances, ainda existe o possível, na medida em que
conseguimos subverter a linearidade fixa das vias e recortar caminhos,
rabiscar. Na medida em que os lugares deixarem de existir apenas para
uma função. Na medida em que… nos perdemos em sombras confusas
e… não há nem coragem para o suicídio e tampouco confiança para berrar
na rua. -Só que tudo isto é loucura, é clichê, é obscurantismo!
Coisa de personagem de filme cult. Veja, a onda é o silício. Quem não
está gozando desse hype só pode ficar com esse tom cinzento mesmo.
Venha, deixa de zigue-zague e venha experimentar dEUs!
⊗
– Não é mais questão de olhar uma pedra bruta e
já logo pensar em seu estado objetificado e funcional, ignorando toda
singularidade, textura, diferença irredutível. – Quem pensa essas coisas desse jeito? Você parece considerar que esse tipo de olhar é cultural, como se ele não fosse a natureza humana.
Ora, pare com bobagens. Olhe ao seu redor: a tal pedra já não é bruta. É
cimento, cascalho, mármore, arenito. A calçada tem linhas e se divide
claramente da rua. A árvore tem seu lugar, o canteiro denota. Tem a
praça, que é para o laser, há bancos para se sentar, e o lugar de cada
indivíduo na sociedade, visível, tudo bem visível. Tudo dentro do globo
tem identidade, endereço, de modo que a mente não precisa mais perder
tempo em confusão. Se antes era necessário seres humanos para nos
alinharem no caminho do controle, hoje a própria paisagem já se
encarrega disso. O mundo funciona. O mundo funciona!
Sentiu essa
pegada fria? Sente esse espírito terminando sua existência, fazendo os
retoques finais, o acabamento da obra. A obra do silício. Tudo passa
pelo seu crivo técnico. O corpo, essa imperfeição de carne ambulante, é
errante demais para os trabalhos divinos. Para os resultados, confiamos
mais na inteligência nanométrica de um computador, aquela que pode
selecionar, recortar, copiar com perfeição; aquela com a qual o ser goza
da velocidade da luz. O projeto é todo feito no software. E a rua já está ficando linda! s2 Vê,
as lojinhas tem fachadas metálicas com pintura homogênea, os letreiros,
as placas, os logotipos, são impressões 3D: materializações perfeitas
do projeto. O mundo material se igualará ao virtual! A cidade está
avançando prodigiosamente para alcançar a funcionalidade da tela (dos
nossos olhos), nossos smartphones. As funções básicas funcionam
discretamente, é tudo interativo, cada opção é bem clara e definida pelo
design digital, e podemos nos divertir com aplicações. Vai dizer que o
site da avenida paulista não é interativo?
Mas é claro, nem todos
tem endereço. Nem todas tem sua identidade… identificada. Nem mesmo
todos tem smartphones. Nem tampouco o privilégio da leitura. Como já foi
dito, o paraíso ainda não chegou. Mas é questão de tempo. É só você não
olhar muito para isso. Não olhe o caos. Aquela viela tortuosa, escura,
que te chama, cheia de pessoalidade, como num sonho? Não olhe. Aqueles
rostos amassados pelo pó e pelo tempo, catando a possibilidade do Sol
nascer em sacos de lixo? Não olhe. Ou olhe. É um ou zero. Se o que você
quer é desgrenhar das esteiras, pode cair. Se o que você deseja é o
curto-circuito, vá em frente. A loucura, o clichê, o obscurantismo dos
personagens de filme cult. Mas todos esses erros de rua que você advoga
por aí, com seus olhos indiscretos, serão reparados na próxima
atualização. Serão eliminados porque não funcionam. E você vai sobrar no
limbo, cheio de amigos suicidas. Ainda há tempo para embarcar na onda. Controle sua vida.
⊗
Mas quem é você? Não há ninguém aqui. Estou falando comigo mesmo. Com
quem estou conversando? Estou confuso. Talvez esteja possuído. Como
posso ter certeza de que controlo minhas ações? Como disse, faço parte
de profanos sabotadores, não sou de silício e não quero que o paraíso se
instale definitivamente sobre a Terra! Dela eu quero sentir as nuances,
os relevos, as diferenças de temperatura. Quero experimentar os
sentidos de cada paisagem. Vejo na pedra bruta uma forma ainda não
geométrica, de superfície imensurável… Estou louco. Gostaria que alguém
me ajudasse a saber: como posso ter certeza de que controlo minhas
ações, de que estou ajudando a causa? Onde acaba o que sou EU e começa a
cidade, as máquinas, o ônibus, o smartphone? Quais são os limites entre
entre entre essas coisas? Me disseram que o limite quem dá é a pessoa.
Mas não sei onde fazer esse corte. Estou tomado por um desejo de ter
certeza. Um desejo que me impede. Vou em direção aos fatos, então. O que
de fato eu posso fazer?
Pés no chão, experimento
caminhar pela rua. Posso cruzar antes do sinal abrir? Posso ignorar os
limites da calçada, invadir o espaço dos carros? Posso sair à noite,
sentar na sarjeta e brincar com palavras? Sentar no degrau de uma loja
fechada e apoiar minhas costas naqueles portões de aço pixados? Posso
olhar os pixos, demorar-me neles e apreciá-los assim, desse jeito, sem
entendê-los? Nesse momento um vento sopra pelas folhas. Posso tudo isso.
Mas não por muitos minutos. A hora existe e já estou pensando: o que
vou fazer com essa experiência? Qual a finalidade disso? As vozes me
dizem que é coisa de deixar acontecer, sentir, sem a certeza de um
propósito. Então continuo a vida, vou atrás do sonho, pego metrô.
Vigoroso, inspiro esse ar. Vem a náusea do metrô. Colado em um monte de
gente colada. Estamos mais próximos do que eu jamais fiquei de muitas
pessoas que tenho amizade. Aqui o toque precisa ser esvaziado de
sentido. Aqui tudo ao redor vira… massa humana. Inferno! Parece que a
homogeneização se apodera de mim, o plano cartesiano, o espírito do
silício… Mas não. Eu posso, eu posso, eu posso. E o que eu faço é me
demorar, reparar em cada rosto, cada jeitinho, cada estilo. Só que cada
estilo faz aparecer na minha cabeça um tipo de identidade. Isso aumenta
minha náusea. Assim como as televisões penduradas no teto do vagão. Ah,
elas são difíceis de ignorar, com sua luz forte e colorida. Colorido
mesmo, de chegar a cansar a vista, são aqueles cartazes que ficam nas
paredes das estações. Porque estou olhando pra isso?! Eu realmente não
controlo: quando elas mudam, de uma marca para outra, sempre reparo! E
mais: examino a propaganda nova e sinto um alívio profundo. Ah, eu
precisava disso! Mas não dá tempo de sentir. Nem a náusea nem o alívio. O
tempo é curto e eu preciso pensar e programar o tempo. O tempo que vai
levar para chegar no lugar, o tempo que vai levar para realizar o sonho,
o tempo dos encontros, o tempo das desprogramações, enfim, programar o
tempo. Preciso? Quero. Posso? Talvez… mas tudo isso depende da
velocidade do transporte público.
Quero sentar na sarjeta
novamente, sentir o meio-fio. Entrar na viela, reparar na aspereza do
muro, as nuances, as irregularidades expressivas que tanto me provocam e
assim acabam realmente direcionando o sentido torto da minha vida.
Estou a deriva. Quero pensar sobre a cidade, mesmo não sabendo o que
sou, onde começo e onde acaba o mundo. Parece que esse pensar é tanto
meu quanto de tudo isso que me atravessa. Talvez eu seja a própria
cidade pensando sobre a cidade.
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Pode ser que a superfície terrestre não se
transforme num micro-chip planetário. Como se pode ver à partir das
experiências pessoais, em que o meio parece invadir e brotar no meio do
campo consciente, a ação pode não ser mesmo de deus. É possível que não
aconteça a sua materialização definitiva pelo silício, com sua
onipotência, sua capacidade de transformar instantaneamente a vontade em
realização. Mas me parece que é isso que se deseja, quando o ser humano
se afirma como Deus na Terra – seja no discurso eclesiástico, seja no
científico. O antropocentrismo é a certeza de que a experiência da
espécie humana (seja lá o que isso for), é a consciência cósmica
iluminando a escuridão da matéria. Mas quem decidiu os limites? Onde
acaba o consciente e começa o inconsciente? Pensa-se no silício como uma
ferramenta controlada. Mas é possível e até fácil, observando o estado
atual das coisas, falar de como esse mesmo silício se utiliza de nós, de
como nos tornamos ferramenta da ferramenta. É louco né? Ficou difícil
falar de controle agora. Nos parece vital trazer uma recordação: o
limite quem dá é a pessoa. E esse limite, esse corte, é uma ação. Uma
escolha a ser tomada e um erro a ser vivido. Mas mesmo que a consciência
não se apodere desse corte, ele está se dando continuamente, a cada
instante, e é essa a grande onda.
A verdade é que deseja-se esse poder absoluto. Existe uma vontade de
poder. E, veja, essa frase tem uma força gravitacional tremenda, como se
fosse algo do mais profundo, como se fosse um fundamento. Mas se
esquece que é uma escolha, ainda. Podemos preferir ao poder, a criação.
Ainda há o desejo de criação. Mas acontece que a criação se dá mesmo no
encontro com o mistério. A matéria, escura, faz a luz curvar-se. Se
estas fendas cósmicas forem eliminadas, o acontecimento será aprisionado
no infinito.
Para terminar falando em modos de existência, ainda existe o da
Terra. Uma vida. Uma natureza povoada de outras, que não se encerra numa
forma. É algo que perfura os céus com o incontrolável. Algo como o
desejo, uma força que provoca o espaço; instauração sólida da incerteza.
Isto ainda existe e o controle não se tornará absoluto. A menos que
este poder seja o objeto do nosso desejo. Mas não é.
A questão é que o chip não provoca curto
circuitos por sua natureza funcional. É a natureza que provoca
curtos-circuitos no chip. Este, por sua vez, ao perder o controle do
silício, é preenchido novamente de corpo e de magia. E é assim que
esperamos restabelecer o paganismo, finalmente. Criar um obstáculo ao
fim. Pois o fim não para de se expandir.
A cidade não para de crescer porque é deus. As ruas vão se estender
até o fim do horizonte, o piche vencerá o pixo e vai comer nossas peles
até que não sobre mais quem perceba a cidade virando, virando ela mesma,
ela mesma um messias ícone, um avatar pós-humano, perfeito e resolvido.
Nada de nuances; reinado último, universo liso, liso como uma
televisão.
Moedas de metal eram fabricadas por máquinas de metal, mas apenas
enquanto a moeda precisava ter aparência. Hoje sua presença vibra por
todos os cantos, progredindo pelos códigos, em direção à totalidade.
Quando ela for puro espírito, quando a moeda transcender a matéria e
libertar-se das reencarnações comerciais, dissolvendo-se em éter puro,
destrinchando os sentidos, descansará o neon em nirvana químico.
Fileiras de corpos humanos, nas casas da 21ª potência, entregam seus
rostos ao número redentor. Quase inúmeras, porém contáveis expressões de
peles e ossos, cada uma com sua tonalidade e texturas específicas, são
sacrificadas pela bênção da globalização, processo unívoco de unção do
corpo pecaminoso que se chamava Terra. Espera-se assim lavar o mundo do
E(r)ros. O erro do Sol vai ser devidamente reparado e os planetas serão
higienizados na mais divina pureza. Não restará nada além do Todo.
Mas a crueldade dessa anti-força, esse deus-formal imaterial, é tão
imensurável, que escapa ao próprio infinito de suas capacidades
informacionais. E este é o seu único erro. Desta crueldade não se pode
conter o último gemido. Sobra, doença ou delírio, sobra uma sensação.
Entre as partes, no vão que se esquece entre os prédios e os
empreendedores, existe um espaço ainda indecifrado. Nos interstícios
desse robô persiste um incalculável. Buracos negros nos cantos da sala,
nos rincões do diadia. Há uma fricção que degenera e desafina o coro dos
contentes. Nestes desterritórios, sobram amontoados de coisas vivas,
ruminando a si próprias, misturando suas atribuições. Tudo que elas têm,
elas fundem. Fundem seus órgãos, seus cartões de crédito, suas
embalagens coloridas, o plástico, o cimento e a carne, fundem-se.
Experiência devindo eco de uma força ainda perplexa, eco de um tempo
acontecedor.
Nós que necessitamos do paganismo nos encontramos e nos aliamos a
estas sobras, produzindo uma espécie de feitiçaria local, que distorce o
tempo e o espaço metrificados. Produzimos micro-diferenças,
despojando-nos de nós mesmos. Ainda que muitíssimo sutis e
despercebidas, estas crias da qual participamos se multiplicam através
de todo o espectro da existência presente. Não louvam líder nem ídolo
passado, não buscam salvação objetiva, são apenas presença. Se alimentam
do hoje em sua concretude mais comum e espessa, para prosseguir
desejando, sem nunca se satisfazer, tampouco se castrar. Assim, não
poderiam ser de outro modo que não cyber-animais, zonas-críticas,
trabalhando e transando em seus computadores ritualísticos.
Foi dado o nome de curto-circuito a essas frestas onde o até lixo é
gente. Nosso paganismo contra a sacralização da humanidade, essa que
excluiu da vida todos os seres diferentes. Nossa estratégia são faíscas
de breve duração, delírios organo-metálicos, para intensificar a crise. A
crise na qual o semicondutor, signo do controle, se aquece demais,
ganhando corpo, erro e vida. Este cântico virulento ainda geme em meio
aos comas de silício que projetam a cidade. E para que aconteça algo
diferente do previsto, será preciso sintetizar um horizonte entre o
antes e o depois