31/08/21

contra o fim

 


A questão é que o chip não provoca curto circuitos por sua natureza funcional. É a natureza que provoca curtos-circuitos no chip. Este, por sua vez, ao perder o controle do silício, é preenchido novamente de corpo e de magia. E é assim que esperamos restabelecer o paganismo, finalmente. Criar um obstáculo ao fim. Pois o fim não para de se expandir.

A cidade não para de crescer porque é deus. As ruas vão se estender até o fim do horizonte, o piche vencerá o pixo e vai comer nossas peles até que não sobre mais quem perceba a cidade virando, virando ela mesma, ela mesma um messias ícone, um avatar pós-humano, perfeito e resolvido. Nada de nuances; reinado último, universo liso, liso como uma televisão.

Moedas de metal eram fabricadas por máquinas de metal, mas apenas enquanto a moeda precisava ter aparência. Hoje sua presença vibra por todos os cantos, progredindo pelos códigos, em direção à totalidade. Quando ela for puro espírito, quando a moeda transcender a matéria e libertar-se das reencarnações comerciais, dissolvendo-se em éter puro, destrinchando os sentidos, descansará o neon em nirvana químico.

Fileiras de corpos humanos, nas casas da 21ª potência, entregam seus rostos ao número redentor. Quase inúmeras, porém contáveis expressões de peles e ossos, cada uma com sua tonalidade e texturas específicas, são sacrificadas pela bênção da globalização, processo unívoco de unção do corpo pecaminoso que se chamava Terra. Espera-se assim lavar o mundo do E(r)ros. O erro do Sol vai ser devidamente reparado e os planetas serão higienizados na mais divina pureza. Não restará nada além do Todo.

Mas a crueldade dessa anti-força, esse deus-formal imaterial, é tão imensurável, que escapa ao próprio infinito de suas capacidades informacionais. E este é o seu único erro. Desta crueldade não se pode conter o último gemido. Sobra, doença ou delírio, sobra uma sensação.

Entre as partes, no vão que se esquece entre os prédios e os empreendedores, existe um espaço ainda indecifrado. Nos interstícios desse robô persiste um incalculável. Buracos negros nos cantos da sala, nos rincões do diadia. Há uma fricção que degenera e desafina o coro dos contentes. Nestes desterritórios, sobram amontoados de coisas vivas, ruminando a si próprias, misturando suas atribuições. Tudo que elas têm, elas fundem. Fundem seus órgãos, seus cartões de crédito, suas embalagens coloridas, o plástico, o cimento e a carne, fundem-se. Experiência devindo eco de uma força ainda perplexa, eco de um tempo acontecedor.

Nós que necessitamos do paganismo nos encontramos e nos aliamos a estas sobras, produzindo uma espécie de feitiçaria local, que distorce o tempo e o espaço metrificados. Produzimos micro-diferenças, despojando-nos de nós mesmos. Ainda que muitíssimo sutis e despercebidas, estas crias da qual participamos se multiplicam através de todo o espectro da existência presente. Não louvam líder nem ídolo passado, não buscam salvação objetiva, são apenas presença. Se alimentam do hoje em sua concretude mais comum e espessa, para prosseguir desejando, sem nunca se satisfazer, tampouco se castrar. Assim, não poderiam ser de outro modo que não cyber-animais, zonas-críticas, trabalhando e transando em seus computadores ritualísticos.

Foi dado o nome de curto-circuito a essas frestas onde o até lixo é gente. Nosso paganismo contra a sacralização da humanidade, essa que excluiu da vida todos os seres diferentes. Nossa estratégia são faíscas de breve duração, delírios organo-metálicos, para intensificar a crise. A crise na qual o semicondutor, signo do controle, se aquece demais, ganhando corpo, erro e vida. Este cântico virulento ainda geme em meio aos comas de silício que projetam a cidade. E para que aconteça algo diferente do previsto, será preciso sintetizar um horizonte entre o antes e o depois

de insônia

 

Ele explica que o sono é produzido ou quando as partículas de alma espalhadas pelo corpo se concentram, ou quando elas se dispersam e escapam pelos poros.

Diógenes Laércio, “Carta de Epicuro a Heródoto”

*

Não conseguir dormir não significa nada. Ninguém consegue. As pessoas só se deixam largar. É um abandono de remos. Ruim mesmo é não ser aceito pelo sono. É largar os remos mas não haver metáfora de mar, e descobrir-se deitado na cama, numa posição um pouco torta, sem símbolos e sem remos. Não há mar da vida que te carregue a suposta jangada. Tal imagem é um prego mental, duro na cabeça, ela, essa sim, a rolar irregular pelo travesseiro. Ao sentir a estranheza do pescoço, o corpo aparece totalmente concreto, impondo a vida sem lirismo. Não há nada mais distante que o mar. Força maior? Eu não sinto força maior do que a própria eletricidade nervosa. Minha identidade poderia ser, toda ela, medida em watts.


Eu ali na cama, pensando e pensando. Presumindo que as pessoas dormem porque alcançam um chão da subjetividade, um solo interno. Uma espécie de piso, impossível e ao mesmo tempo muito prático, visto que dormir é das coisas vitais. Pensava: “O desejo ganha corpo pelos signos, pelos símbolos, pelas histórias, memórias, esses são seus órgãos inorgânicos, com os quais faz um corpo! Corpo humano, corpo cidade, corpo palavra, animal, entidade.” Corpo jangada-no-mar, diria agora. “O desejo tem toda uma outra diversidade de tecidos e vísceras um tanto misteriosas. Morfeu deve ser um deus com mãos feitas de sonho e sangue, tão delicadas, que… que consegue metê-las na nossa cabeça!, sim!, e com a ponta dos dedos, transfere a consciência para esse nosso outro corpo.” Faz sentido. Esse poder só seria possível com uma delicadeza suprema, visto que a distância entre o sono e a vigília é menor do que o diâmetro de um elétron.

Certo. Morfeu chega para autorizar a passagem e efetuar a transferência, mas o mundo do sonho é por nossa conta. E a construção é penosa. Sua arquitetura que parodia a física, suas leis lânguidas, seus universos holográficos… toda essa construção é de nossa responsabilidade. E naquela noite, não havia sinais dessa outra física, desse outro corpo.
Mesmo com o pensamento cheio de metáforas, imaginações até bem precisas, era tudo muito abarrotado de palavras. E não havia espaço para despejar em mim nem uma gota de mar ou de chão. Eu estava ali, necessariamente ali, naquela noite, naquele quarto, naquela cama, com o lençol amassado e entrelaçado a mim daquela exata maneira. Coisas que minha pele e minha mente faziam questão de deixar claro. Tudo, tudo tão claro, tão perceptível… A luz da mente é sem dúvida mais clara do que o Sol. E como isso é infernal na noite.

Eu pensava profundamente, como uma equipe de investigação policial vasculha uma casa, revirando tudo, anotando detalhes, fotografando o pequeno e analisando o grande. Não havia partes incômodas da memória que eu não tivesse trazido à tona. Nem tampouco deixei de lado padrões e hábitos. Havia deles um dossiê. A certo ponto, já havia dezenas de explicações para o crime. Eu havia atentado contra a minha saúde mental e a insônia seria a minha pena. Comer açúcar a tal hora, não ter carinho de noite, concentrar-se em telas digitais… estas eram pistas indispensáveis, mas que se ligavam à mais importante de todas: eu não conseguia parar de pensar. Pois é pensando sobre a própria compulsão de pensar, que eu retirava uma nova explicação a cada segundo. Pensando sobre pensar sobre a compulsão de pensar, e por aí vai, exponencialmente, até o pensamento deixar de produzir sentido para ser apenas uma outra forma de eletricidade. Outra tela digital.

O sono não me aceitaria. Morfeu não encontraria o corpo do desejo, não encontraria um mundo onírico, fresco: tudo já tinha sido mastigado pela luz da consciência. Ruminava com olhos na língua.


A madrugada avançava muito rápido. O tempo tinha uma velocidade desmedida. Não por uma desatenção minha ao tempo – dessas delícias que fazem das horas minutos. Não, não havia desatenção. Eu era pura diligência. Cada fração de segundo era militarmente apreendida pela consciência. A causa da alta velocidade era mais uma questão de os milésimos estarem ainda mais curtos, escassos, como se a ampulheta do tempo estivesse vazando. Não, não havia desatenção ao tempo; pelo contrário, eu me atentava demasiadamente. O corpo jorrava em si mesmo. A percepção tinha a superfície de contato de uma árvore, mas sem estrutura alguma. Pela voracidade com que apreendia cada micromovimento, pela impossibilidade de dormir e mesmo de relaxar, a sensação poderia ser análoga a estar sendo arrastado pela correnteza de um rio voraz. A diferença é que o desfecho fatal não seria a morte por afogamento, mas sim a própria manhã fustigando o quarto, acabando enfim com todas as possibilidades de descanso e me lançando novamente ao imperativo da consciência. Não poderia deixar que amanhecesse. Precisava me livrar daquela aceleração. Mas como? Sem tornar-me ainda mais consciente?

Se havia alguma necessidade, era a de me arrancar de onde eu estava, de como eu estava. Por isso, a analogia de ser arrastado pelo rio voraz não ilustra algo atraente para Morfeu. Não era uma questão de conseguir deixar-se levar. Pelo contrário. Eu já estava sendo levado pelo momento. Mas, paradoxalmente, era um momento que eu mesmo construía, segundo a segundo. Eu queria era ter algum controle, mas era o controle que me controlava. Como tirar a não-ação da ação? O desejo de modificar algo que se vive: tem ele a capacidade de, por si mesmo, deixar de existir?!


Loucura. Por que perder tempo com esses paradoxos? Isso sim é uma perturbação. E que desperdício de energia! Pense economicamente, haja racionalmente. Tome as decisões corretas agora. Não, exatamente agora. Você não percebe que está deixando passar a oportunidade? O momento de agir é precisamente agora. Vamos! Haja! Decida!

Mas já estou decidindo. Observando a mente e seu sequenciamento de objetos, tenho a clara impressão de uma tomada de decisões em alta frequência. Tantas decisões por segundo que não consigo discernir se estas se dão uma a uma ou continuamente. E mesmo fora do intelecto, quando tentava me ater às percepções do corpo, a questão do foco é totalmente decisória. Focar na respiração, respirar. Focar na imaginação, imaginar. A questão é que, quando se conta com sua estabilidade para salvar a própria sanidade, tanto os objetos do pensamento quanto da percepção são avassaladores. Ganham importância, arrombam a porta de entrada e decidem seus próprios contornos. A objetos do meu pensamento, as partes do meu corpo, “minhas posses”, todas, me venciam. Decidir sobre eles era na verdade sofrer a disputa deles sobre mim. Melhor mesmo seria não decidir nada. Não suprimir nem afrouxar, não controlar nada e apenas deixar acontecer. Mas como se decide isso? Era uma questão de sorte: “tomara que aconteça…”. Tentei me entregar para algo que não existia, pois nada era maior do que eu.

As horas passavam. O cuco, que canta a cada meia hora, enfiava essa informação. Já estava em dúvida sobre a própria possibilidade geral de dormir. “Como é paradoxal. O sono só acontece. Nós não nos lembramos nem mesmo dos momentos anteriores aos momentos anteriores… A gente deixa de existir por uns momentos. Isso é impossível, impensável.”

Não cabe mais perguntar qual seria a força maior à qual eu deveria me render para deixar acontecer o sono. Eu já estava rendido. Naquela noite, era nítida a diferença entre o ato de rendição e a condição de rendido. Algo aliado à vigília estava subjugando tudo que se aliava ao sono. E, no meio disso, não havia “eu”. Não é que “eu” estava querendo dormir e algo “em mim” não deixava. Não havia sujeito. A sensação das ondas elétricas percorrendo o corpo sem direção, o processo mental maquínico e acelerado, a dialética quântica na velocidade da luz… Era absurdo. Não havia sujeito para estabelecer seus objetos. Não havia ordem, contornos, linearidade ou qualquer consistência subjacente às coisas. E tudo, as palavras e os sons, eram todas “coisas”. Um turbilhão de estímulos que jorrava desde tudo, desde a pele, desde a sopa elétrica nos órgãos, até mesmo desde as palavras, de seus sentidos e seus sons. A palavra “eu” era só uma percepção violenta, uma válvula que liberava a passagem de densos amontoados de coisas. “Eu”, o mundo, as ideias, as reflexões… todas eram coisas “em si”; a existência era inteiramente material. Não apenas Deus estava morto, mas o próprio sentido.

Um totalitarismo da matéria, que se intensificava e preenchia tudo de física – desde as ondas até os corpos. Se até os pensamentos mais elaborados pareciam acontecer sem nenhuma relação com um “eu”, é possível pensar que isso, esse “eu”, estava morrendo. Era uma experiência de morte. Os pensamentos eram fenômenos tão significativos quanto a gravidade ou a ondulatória. É claro que isso é científico, filosófico, mas não fazia sentido. Entender não ajudava a fazer sentido. Algo pensava sobre si, algo duvidava da própria existência: o cogito estava lá e realmente existia. Mas isso não significava nada. O pensamento era apenas a parte mais sofisticada, fina e delicada da matéria. Uma pérola do evolucionismo aleatório, sem testemunhos de sua “beleza”. O organismo e o sistema nervoso em funcionamento, como puro produto do encontro fortuito de acasos, combinações peculiares de tempo e de espaço. A morte pelo real.

Está certo que, de algum lugar, algo precisa falar no lugar de ser vivo. Algo tem que ser estranho nessa dimensão material. Algo necessário, como era necessária a intervenção de um demiurgo aos antigos, como era necessário o milagre cristão a um mundo dominado pelos desejos, tão necessário quanto a existência de alguma subjetividade num universo amoral, (des)controlado pela causalidade. Se é o que chamamos de alma ou de espírito, eu não sei, mas era isso que me faltava. Era o caso mesmo de meu corpo estar possuído.

Parece contraditório, visto que eu falava até agora de um preenchimento absoluto. Mas é isso que estou chamando de possessão. E o que a alma faz no corpo é justamente criar um espaço. Abrir um vácuo, um vazio, uma obscuridade intransponível. Se a alma, pensada como necessidade, é algo de bom, é pelo fato de que ela despossui o corpo, criando a liberdade. Que é impossível, mas existe.

Num paroxismo da desilusão, o “eu” parecia estar interditado. Dominado pela capacidade de apreender a existência como ela é, meu corpo estava possuído por ela, preenchido de percepção e lógica. Seria o momento da intervenção divina? Ainda que fosse, pensei, não deixaria de ser um mecanismo interior à matéria.

Então, feroz e inconsequente, surgiu a necessidade de recriar a fenda. A alma, o espírito ou qualquer coisa que possa ser relacionado com a vida em liberdade – força estranha, indeterminável – iniciava seu processo de ruptura e desapropriação. Desde a sensação, passando pela linguagem, restabelecendo o sentimento e finalmente reconstituindo o espaço existencial de um sujeito, essa coisa que sente que pensa que escolhe.

Sentia uma alforria progressiva dos elétrons em meus nervos. Do nível do elétron ao átomo, do atômico ao molecular, do molecular ao molar, aos tecidos orgânicos e assim por diante. Cada escala apresentava uma barreira ontológica sendo derrubada por essa força impossível. A respeito das prováveis imagens que “derrubada de barreiras” pode evocar, cabe dizer: não se tratava de algo belo, glorioso ou
triunfal. Nada nessa retomada de mim tinha modos heroicos. Era mais como uma monstruosidade. A alma era uma besta tão inconsciente quanto mágica. Um animal incorpóreo faminto por realidade.

Mais impensável que seja, era como se estivesse reestabelecendo o imaterial, e para isso, delimitando uma nova fronteira entre esse reino e o da matéria. Em resposta a esses movimentos, o corpo começou a sacudir. Como que querendo se livrar de uma dor impregnada na própria percepção de si, eu me sacudia. Errático, como um cachorro quando molhado. Sem nenhuma delicadeza ou elegância, me apropriava da minha própria força, forçando-a a me pertencer. Fazia me existir, mesmo que não houvesse nenhuma lógica nisso.

Mas é possível dizer: a diferença estava em deixar de procurar “focos” para realmente agir sobre pontos do corpo. Em vez de perceber minha perna, eu a mexia. Apertava os punhos, em vez de constatá-los. Me retorcia, em vez de ser dominado pela obrigação de abandonar-se. Tudo se traduziu numa tentativa de agarrar coisas como se pudesse arrancá-las. Sentir o limite ósseo, a dureza dos dedos, das unhas, senti-las raspando nos tecidos lisos da cama; esticava meu pescoço, levantava o tronco com as pernas e apoiava o peso do corpo na minha cabeça. Mais de uma vez, até que estas coisas passavam a desenhar contornos, limites. A dor que existia para aquele corpo, passava a doer para alguém.

Antes desse momento, ao longo da noite, as palavras haviam passado voando pela minha mente, como nuvens de pássaros incomunicáveis que se chocam violentamente uns com os outros; o pensamento acontecia afirmando e negando instantaneamente tudo. Mas ao me sentir, depois de tanto tempo, responsável pelo meu próprio movimento, as palavras se reorganizaram em formas simples, diretas e sólidas. Surgiram frases como “eu quero sair daqui”, “não quero mais viver isso”, “não aguento, não aguento passar por isso”. Quando eu percebi que estava pensando estas frases, elas não pareciam mais criaturas aladas autônomas, mas antes, sentia que elas realmente reverberavam de acordo com as vibrações da minha dor. Havia um princípio de coesão. Meu corpo, que até então estava completamente desconexo, como entulho, como um aglomerado de objetos incomunicáveis que atritavam aleatoriamente entre si, engendrou, não sei de onde, uma estrutura. Suas partes começaram a estabelecer um tipo de comunicação, até chegar a formar acordos e alianças rudimentares. Eu consegui sentir isso com tanta nitidez! Foi aí que eu vivi o primeiro sentimento em muitas horas, para além da dor: estava triste. Reencontrado comigo, percebi-me num estado do qual a tristeza era substância e não representação.

E já não importava dormir. Aceitei a luz do céu que, projetando os contornos da árvore sobre janela, já anunciava a manhã. Essa luz me confirmou um fato precisamente triste e um pouco assustador. Que algo intimamente meu mas que não era eu, precisamente isso, tinha impedido que eu conseguisse ter uma noite de sono. Me privou do sono, coisa tão vital que nem soberanos negam a seus súditos. Ai, a luz e seus anúncios horríveis! Diante do que tinha acabado de acontecer, eu senti a mais profunda vontade de chorar. E não chorei. Antes eu berrei, urrei, gemi. Quis afastar o medo. Durante vinte minutos, explorei todas as minhas energias pra conseguir emitir os sons mais insignificantes possíveis, como que para garantir, da maneira mais agressiva, que eu tinha
vontade própria. Fiz isso até a garganta começar a doer agudamente. E eu sabia: essa dor só podia ter sido provocada por mim. Uma espécie de satisfação autoritária me percorreu, e logo em seguida percebi que estava esgotado.

David Schab, Morning coffee, 2019

Percebendo que não existia mais nenhuma energia disponível, eu senti um alívio gelado. Um vento inexistente parecia assoprar nas paredes internas de meu corpo esvaziado, produzindo uma sensação impossível de frescor escuro. Esse vazio estranho, pensei, não conseguirei descrever a ninguém. Nem palavra nem gesto conseguirão comunicar isso. Só a mim coube a dimensão desse sofrimento. E só a mim, também, caberá o cuidado correspondente. Então, fui acometido pela auspiciosa sensação de ter acabado de conhecer alguém totalmente estranho. Não sei do que se tratava isso, só sei que, depois de sentí-lo, finalmente pude chorar. Por outros vinte minutos, apoiado nas pernas dobradas, chorei como uma criança, até cair deitado. Então, dormi – não muito tempo depois, eu acho.

04/08/21

rostos e outros brinquedos

 

Quem me dá resposta?
Quem me dá um ouvido?
Quem me dá um rosto
que se afeta ao ter
outro rosto em frente
que se afeta ao ser,
simplesmente?

Que se afeta ao ser?

17/04/21

“As Cidades Invisíveis” e um alívio no confinamento

 

Eu gostaria de agradecer esse livro por ter me salvado de pouquinho em pouquinho nessas últimas semanas. Porque as coisas que gosto são aquelas nas quais eu me demoro. Tive em mãos essa edição de 1990 da Companhia das letras — 150 páginas bem ralinhas. As Cidades Invisíveis são um livro bem enxuto, de modo que eu poderia ter lido em poucos dias. Mas isso teria sido imprudente. Emergindo dum mar de ansiedade pandêmica, surgia a necessidade de saborear com lentidão. Desde as primeiras páginas, já sentia que era preciso passear vagarosamente por cada uma das cidades-pensamento de Calvino. Como uma criança que, com o corpo, mastiga um lugar: ela brinca com cada elemento, de todos os jeitos possíveis, tecendo, gesto após gesto, uma duração. Pedaço por pedaço, ângulo por ângulo, uma demora. Tal é o tipo de transa que se tem com aquilo que se gosta.

Eu acredito que existam caminhões de críticas brilhantes e merecidas sobre esse livro, que revelem o manancial filosófico, arquitetônico, psicológico e semiótico que jaz sob suas páginas. E apostaria que, virtualmente, ainda há muito mais a ser desdobrado. Eu, no entanto, sinto o desejo de destacar seus méritos “baixos”. Chamar a atenção pra potência que esse livro tem de implantar em nós um cuidado erótico. De alterar nossa fisiologia e colocá-la sob o signo de uma “vontade de contrapoder”, para incitar Nietzsche. Operou-se no leitor uma sutil sabotagem que se traduziu em um fazer-querer ser vencido pelo texto, fazer-tornar-se recepção. Um encantamento, uma apresentação que desarma.

A composição extravagante que justapõe cidades-pensamento com incursões narrativas, nas quais um soberano e um sábio se interpenetram ao sabor do ópio, é sem dúvida uma construção hipnotizante. Mas tão estranha! Uma máquina tão singular quanto um relógio que faz o tempo sumir, contato que continuemos mirando seus ponteiros. Essa estranheza da disposição formal é tão penetrante, perturbadora e sedutora, que me faz pensar em alguns rituais animais de dança e cópula. Efetividade visual-formal que talvez se compare à poesia concreta ou ao teatro da crueldade de Artaud. Contudo, em forma de… prosa? E, imagina, toda essa gestualidade, essa festa dos sentidos, acontecendo num livro que é de fato um tanto cerebral. Mas, é assim mesmo. Nada menos do que um uso mágico da erudição. Calvino faz literatura com filosofia e faz filosofia com tijolos, barro, aço fundido, pedra-sabão, mármore, cimento e com toda a materialidade própria de um inesgotável vocabulário de engenharia arcaica e arquitetura. E o que é a arquitetura senão essa arte que faz desejar ser vencido? A manifestação técnica de uma busca peculiar pela liberdade, pois se dá por meio da delimitação do espaço e do tempo. Diria até: ergue-se o opaco para fender o horizonte em nossos corpos. Mas com um detalhe: tal agir é um silencioso agir-de-pedras, um ato solidificado que triunfa sutilmente, na medida em que não levanta a suspeita da coerção, do desrespeito e da dominação.

Nesse sentido, me deparei com a obra de um arquiteto da liberdade — o que talvez seja um paradoxo. Ao erguer paços, jardins, ruas, moradias, bairros e os mais variados sólidos do pensamento, Calvino me colocou pra caminhar. Uma verdadeira mobilização pelo amparo. Talvez seja esse aspecto do livro, propriamente arquitetônico, que me faz querer agradecê-lo. Ele tornou possível um hiato no meu confinamento, abriu um interstício na imobilidade, que eu podia aumentar indefinidamente, contanto que eu continuasse às voltas com cada cidade. E agora, ao terminar de lê-lo, percebo ter me esforçado, por puro desejo, para que o processo fosse o mais longo possível. Em meu corpo, sinto a satisfatória marca de um passeio, prolongado até o alívio da minha carência por encontros.

As Cidades Invisíveis abrem os portões de uma espécie de assentamento mágico, aos modos de um convite irresistível que provocou em mim o movimento de uma viagem indeterminada, em direção aos confins do pensamento. Não foi uma experiência intelectualista, pelo menos no sentido de uma tarefa sedentária e maçante. Meu pensamento se deparou com espaços arquitetônicos que só demandaram dele a atenção de um caminhar, e nada mais. Ao simples ato de atentar-se e prosseguir, meu pensamento aqueceu sua musculatura, fortaleceu suas articulações e sentiu o próprio esqueleto, enquanto se encantava com manifestações artísticas daquilo que o limita de fora. Cada uma das cidades de Calvino ergue uma aporia, fazendo o desconhecido se apresentar efetivamente, no ato de um contato físico do pensamento com o inconsciente. É por isso que, num momento em que estamos confinados ao que há de mais imóvel, reduzidos ao pragmatismo cotidiano da casa e do trabalho, esse livro aparece como um remédio. Ou melhor, como uma verdadeira prática de saúde mental.

15/04/21

que se abra

 



A cada quadrado no calendário
um bloco de cimento no sonho.
Conforme a geração se acaba
consumindo a si mesma,
nem mais em pensamento
se acessam utopias.
Não existe mais o fora,
não se está dentro de nada,
não há terra que se almeje;
o paraíso em nossas palmas
multiplica-se nos ares,
programando para sempre
os resquícios celestes.

A falta da imaginação
que engendrasse um bom viver,
a super vigília,
o ultrassonífero,
e o apagamento instantâneo
sob a luz do silício.

Inimigos vivendo encaixados
e impedidos de roçar
as vistas.
Militares ou militantes,
suas noites são a mesma
intranquila opacidade.
O horizonte se aproxima
junto às paredes do quarto
e a única saída é uma veia
que se abra.

Mas se ilude quem pensa
ser o cárcere maior
este corpo encarnado no cimento.
Nossa alma já não mais
encontrará refúgio.
E do lar primordial
só restarão relógios.

A única via é aquela
que ainda não existe,
mas que se indica
em algum lugar
da palavra barricada
ou aquela que se pensa ouvir cantar
quando o riso de um tambor
faz sair, por um momento,
do papelão um caracol.

16/03/21

contratempo

 

O que nos restou?
Ó, meu pai, o que foi feito da minha vontade?
Ó, minha mãe, o que foi feito do nosso desejo?
Quando foi feito o acordo?
Qual foi a cláusula miúda?
Na letra alpha havia um buraco sem-fim
mas muito estreito.

Eu vejo a irmandade se tornar uma ideia infantil.
Eu vejo a infância se tornar uma ideia infantil.
Um labirinto já não vale a pena brincar;
uma gangorra é apenas um erro,
ultra-passada pelas libras.

Ah, minha irmã! Brinquedos não servem!
E as pessoas
- no máximo -
servem!

A quem?
A quê.

O Pai Severo se despiu,
e da sua braguilha saiu um monstro, sem rosto,
que muito se parece com um dia na metrópole.
Sim, a nudez do Rei!
O sonho acabou!
Não há mais fantasia, e assim o tirano desfigura-se.
Enfim, revela-se a fibra
sintética
da tal realidade:
Deus está morto, mas o pecado é secular
e a física se funde ao sacrifício.

Então, meu irmão, te pergunto:
Qual foi a oferenda?
Um fígado? Um cérebro? Uma flor?
Qual órgão voador foi amputado?
Qual órgão, meu Deus, qual órgão?!

Benedictus calculus,
me diga,
qual anatomia eu preciso rezar para poder pagar a dívida?

A resposta é automática:
o produto foi entregue. Há segurança.
Em linha reta se percorre uma avenida. Não tem erro.

Não tem erro!
O Paradise é uma esteira:
nela nós corremos, nela nós velamos,
nela estamos sempre
seguros para sempre;
mas para dormir
nós precisamos
de uma engenharia sempre nova
de roldanas neurológicas.

Ah, meu amigo, é que o mundo
amadureceu!
Uma academia, um espaço otimizado,
profissional, o mundo
adulteceu!

E a lição nós aprendemos:
A infância é um contratempo.
A infância é um contratempo.
A infância é um contratempo.


 

23/12/20

matriz

 23/12/2020

Demián Flores — Dialogo (1997)

Fala-se muito sobre mães. As mães; a mãe. Maternidade, dar a vida? O que se sabe? Que amam muito? Mães amam tanto, com uma ferocidade tão irrepreensível, que se dilaceram no próprio amar? Mães. Um jeito de ser ou uma posição genética? Ontológica: a mãe é assim assado, existe para tal; ai dela se desnaturar. Performática? A mãe apresenta um modo de ser! Ai dela se não for mulher! Mulher? Que ama. Seus filhos, sua casa, seus cuidados. A si mesma? Mães amam tanto, mas tanto, que não suportam.

Mas e as mães que não amam? Essas não são mães? Não posso voltar, já disse: mães que não amam (são mães)! Porque ninguém escolhe ser mãe: a humanidade gera-se. É basicamente um fardo. Ter ainda que amar? Que maldição! Ou não! O amanhã mais bonito é este depois do dia em que as mães puderem escolher se vão nascer. Ou não. Talvez seja este em que nenhuma mãe precise nascer. Porque no fim o que importa é o amor, não é mesmo?

O amor pode ser esse de mãe. Pode ser esse de fazer o mundo ter cuidado. Esse é o amor que faz uma pessoa se proteger na rua. É o amor que copula com o mundo e faz nascer o cuidado onde não há! Não há preferências! Todas as pessoas são mães! O humano existe para ser mãe! O amor não escolhe fatos, não privilegia, anarquiza sutilmente, destrona o bebê, o coloca no chão com delicadeza para então nascer como alimento, no outro lado da aventura possível. O amor é a possibilidade de que haja um sentido para esquecer a morte. E viver. Que mãe, nesse mundo, não gostaria de esquecer a morte por uns dias? Quem não gostaria de ser amada?

O problema da mãe é o filho. Os filhos da mãe! Estes só pensam em filosofar, policiar, fazer política, civilização, comer, comer muito, comer o mundo e poder se descuidar. Eles dizem: “Vocês que se virem com a merda do mundo! Eu não tenho culpa, quem defeca é meu ânus! Quem chupa é minha boca!”

Porque se os filhos aprenderam uma coisa, essa coisa é o descuido. Quando nem nada havia, aparecia uma teta para mamar. Uma minhoca suculenta. Uma providência divina. Mal sabiam eles que seus prazeres matavam mães e mães. Até Deus já morreu de tanto amamentar. Mas eles nunca vão aceitar o orfanato. Eles vão inventar tetas, minhocas, providências até no cú do outro pra não ter que aceitar o matricídio. Que os filhos da mãe não querem copular com o mundo; não querem ser penetrados nunca; não querem gestar a possibilidade do cuidado. E assim a paisagem vira monumento, a seca vira lei, e o outro que se foda.

No entanto, eis que se ouve, vindo de longe, um rumor de intimidade; no mais longínquo deserto, no meio do fim do mundo, uma voz de mãe menina se faz escutar: “A bandeira? A cultura e a civilização? Que se danem!

Ou não!”

Que as mães não são nada, ou que elas são tudo, ou que elas simplesmente não aceitam mais essa palavra infernal, assassina, pairando sobre elas! Mãe é o caralho! E os pais desviam o olhar, como se não fosse com eles. Os pais, que não aceitam performar nem gestar o cuidado. “Afinal, se assim o fizermos, seríamos todos mães, não é mesmo?” É o que dizem.