06/11/19

leme

06/11/2019

 vou tentando domar
esse vacilo
sou eu
a vida de um leme amolecido

cruzando marés de concreto
amolado
vou tentado

vou tentando domar
esse barco
de carne amolecida
sou eu

vezes eriçado pelo vento
vezes sem vela distinguível
largado
           às
               Vezes

às vozes das traças gigantes
prédios empresariais
avenidas esperanças
grandes arquiteturas de pensamento
e vai e vai e é tudo

tudo um grande mar
de cifras?

me animas
e os desejos
ainda mais me lançam
contra muros
de mentira e camas de verdade confortável
boiando

são ilhas de calor
por onde eu passo eu durmo um pouco e sonho
um sonho
onde controlo quase tudo
ou seja
alguma coisa
ou seja
quase nada
e me acordo
e quase nado.

 

Sarah Brayer, "Quiet Elegance", 1997

 

31/10/19

profanar o tribunal

 31/10/2019

A "justiça" que tem cara de homem é a burocracia;
a verdadeira Justiça não tem rosto e não tem código.

Mas o mundo está tão hominizado que provar o crime do presidente seria de fato o que traria a Justiça, embora ele mereça o fogo independentemente das provas e da ligação causal dele com o assassinato. De fato, provar a ligação direta dele com o crime traria consequências imediatas, cuja velocidade e tangibilidade seriam mais que necessárias, em virtude das urgências de nossa situação. Mas nunca nos esqueçamos que nós já sabemos o que produziu as condições pro assassinato de Marielle Franco e de Anderson Gomes. Não apenas estruturalmente. É concreto o patriarcado o racismo e o fascismo que transforma em navalha afiada o ar que circunda corpos de mulheres negras insubmissas e de modo mais rarefeito os de toda a população. Lâmina vacilante, que pode cortar a qualquer momento e dos modos mais terríveis. Isso é concreto demais para ser entendido como metáfora. Em potência, esse assassinato está acontecendo em todo lugar.

É importante lembrar disso pra não gastarmos nossas expectativas com o processos da máquina burocrática. Gritar pela justiça penal do presidente é como xingar um computador. Perda de energia. Numa perspectiva ética, que se foda se ele teve ou não relação causal objetiva com o assassinato. Nós sabemos muito claramente que as ações e até a própria existência dele nos modos como se apresenta hoje, e de todos os homens poderosos, é responsável diretamente pela morte de milhões, incluindo a da simbólica deputada. Nem tudo que é concreto é linear e causal. A maior parte não é. Esse homem existe para muito, muito além daquilo que o seu corpo individual é capaz de produzir, do que suas mãos podem ativar ou suas ordens podem definir.

Como todo poderoso, seu campo de ação repercute em dimensões imensuráveis. Este poder de que é abastado se realiza de modo econômico. Mas também, e principalmente, pela mídia, que expande sua imagem e suas falas por todo o território brasileiro, aumentando exponencialmente a realidade, a existência e a potência deste mísero homem. Suas ações e seus modos ecoam pelos meios de comunicação que hoje se multiplicam num fractal de área infinita - telas nos rostos -  e encontram campo fértil para se expandir na subjetividade e nos desejos de milhões de pessoas que via de regra consomem essas imagens e áudios de modo acrítico. Muitas vezes até predispostos à imitação. Sem falar das fake news. Assim a presença ativa deste jairbolso efetivamente se expande para muito além de seu próprio corpo. Sua manifesta vontade pelo extermínio daquilo que ele considera inimigo (ou menos homem que ele) ganha muitos outros corpos, que agora se sentem guiados, com um líder absolutamente legitimado.

Mas antes mesmo dessa figura individual se alastrar por aí, o homem branco rico miliciano enquanto identidade, enquanto modo de agir e pensar, com seus valores e suas medidas específicas, este homem já estava por toda parte. Ganhou sua manifestação mais exemplar no agora presidente. Ele é como a precipitação visível da substância que há muito já estava se saturando na nossa solução social. Graças a sua aparição, está definido o caráter do nosso adversário impessoal, fantasma que se confunde com a atmosfera. Este adversário não é exatamente um tipo de pessoa, mas um campo de ações que as pessoas, todas elas, podem ou não adentrar. E quando o fazem, a chance de mais Marielles assassinadas pode chegar à iminência.

Munido dessa percepção acerca da ação, a conversa sobre Justiça toma uma forma impensável do ponto de vista causal linear. Aqui, a arminha que o presidente fez com a mão furou de fato o corpo de Marielle de muitas outras. Mas a máquina burocrática que é a justiça do homem não pode agir sobre aquilo que não é provado categoricamente. A ação que acontece para além do encontro de indivíduos em um dado espaço-tempo e que não está definitivamente descrita, é a ação das forças que atravessam as pessoas desde a sua intimidade até sua coletividade. Quem pode julgar essa ação, quiçá abrindo espaço para a Justiça enquanto força, somos nós: testemunhas-réus-vítimas-juízes. E o jurado é a nossa bagagem. Profanar o tribunal é devolvê-lo ao uso comum, performando-o, fazendo do nosso corpo o seu cénario.

Eu acredito que existem pessoas éticas ocupando o Estado e a Lei, trabalhando para que a verdadeira Justiça a(s)cenda dentro dos gabinetes e escritórios. Mas não podemos depositar todas as nossas esperanças nessas pessoas, que são pouquíssimas. Prolonguemos o trabalho dest_s e percebamos em nossos lugares de ocupação o que está burocratizando a emergência da Justiça. Façamos nascer o fogo nos lugares em que ele é urgente.


chile

26/10/19

geralmente é uma questão de números

 26/10/2019

 

 1

tento pensar na possibilidade de escrever o acontecimento
tento, e já estou a me lançar
tento pensar, e atravesso uma barreira densa
tento pensar na possibilidade, e a imensidão se iguala ao meu corpo

o acontecimento tem tudo que é impossível de ser visto, em cada partícula de sua aparição
e ainda mais, tem o acontecimento um movimento que jamais pôde ser deduzido,
o acontecimento, que envolve tudo aquilo que é nosso
e irrompe ativamente de dentro dessas mesmas coisas, desapropriando-nos

parece-me que escrever o acontecimento é inevitavelmente acontecer de outra maneira
ele acontece enquanto não o pensamos e,
quando fazemos de pensá-lo, algo de essencial nele morre
para logo passar a acontecer apenas nas marcas que deixou, no corpo
uma contínua reverberação, um dínamo sísmico, carregando a história contra a história,
o acontecimento é um só presente em infinitos feixes de continuidade
que estão efetivamente afectados uns nos outros

mas como pensar este que é antes do pensamento?
vivê-lo ou pensá-lo?

vivê-lo e pensá-lo
logo, vivê-lo de outra maneira
o que, ferozmente,
é viver já um outro acontecimento


2

certo de que pensar é um outro
pensamos sobre o pensamento afim de observar a observação
criar conhecimento?

experimenta-se pois é acontecer com línguas e tímpanos
e assim encontrar no acontecimento relevos, fissuras e linhas, isto é, intuir encontrar
(pois nunca se sabe)

intuir encontrar seu caráter ou topologia e então processar uma cartografia.

é loucura fazer um mapa do fogo?
mas se diz > "fogo"
algo por ali que nunca jamais nos faria sentir frio
mas como é fazer um mapa daquilo ou disso
que se apresenta sempre uma estréia de uma arte desconhecida?
como é cartografar um terremoto? (o continente é um terremoto misteriosamente lento)




inventam-se linhas para dizer a respeito das linhas que supostamente não se inventaram
poder dizer ISTO ------> é -------> AQUILO
poder
                         o que
dizer onde  ACONTECE  como
                        quem                   

algo do acontecimento permanece
algo dele que certamente não é ele
permanece

então aí SABEMOS.
sabemos que sabemos.
assim um sujeito parece emergir daquilo que agora é o objeto.
(nunca foram)

podemos iniciar a navegação.

o que se sabe
age sobre o corpo
do que se faz
como um leme
um martelo ou um facão
ferramenta que tem a capacidade de convocar a resposta
vibração que percorre a rígida palavra e liga
o mundo e a garganta


4

mas o que se sabe?
nossos mapas funcionam para reduzir a diferença entre a suas linhas e as do mundo
(controle)
apenas quando insistimos em percorrê-las em círculo
viver dentro do mapa
isto é
impedir o acontecimento

justamente o fascínio e o terror de olhar pela fresta da sabedoria
e confirmar surpreendidos
que até o rosto do ser humano é um abismo
quando não con-forma na fôrma do desenho antigo


5

por isso procurar escrever o acontecimento
procurar                                         escrever
           é acontecer de outra maneira

exatamente na mesma contínua aberração
que foi o ser humano
acontecer e permanecer obstinado em ser humano
acontecer e permanecer
permane-ser-humano
e não acontecer



como?

29/09/19

o fantasma e a loba

https://imagens.brasil.elpais.com/resizer/JzK_hVUx910l8vdQhJGkkJpsy8Q=/1960x0/ep01.epimg.net/elpais/imagenes/2018/12/10/del_tirador_a_la_ciudad/1544462338_986627_1544547693_noticia_fotograma.jpg 

29/09/2019

Para o filme “Roma” (Alfonso Cuarón, 2018)

 

Quem cria quem? Existe algo como alguém que nasce e faz nascer. Nesse espaço que se abre, existem olhos e espíritos. As mãos e o cuidado se originam e se encerram na mesma Terra, num outro Tempo.
O pensamento da Terra pensa ao ponto de não existirem almas. Não. Ao corpo que se conhece, não sobra tempo para almas. Por isso os fantasmas, estes obsessores.

Sob a superfície, fantasmas lutando para emergir, lutando em nossas gargantas modernas para fazer voltar o tempo. Acotovelam-se pelas vias expressivas tentando fazer reviver memórias de bom e mal. Gemidos mudos de angústia, de moralidades e de essências, uma fauna de fantasmas. Toda uma convulsão. Diversidade de mortes. 

Mas os fantasmas não chegam a existir. São apenas ânsia de vômito, pura projeção que se engendra num ventre doente e cerebral; na dor, na suspensão abismal que emerge como refúgio no cume violento dos momentos, por um instante, para então voltarem a nada, instantaneamente. E nunca os vimos! Não nascem, não morrem, apenas furtam a vida de si mesma. São medo. São medo! 

Os fantasmas das pessoas, dos animais, das coisas da Terra, enfim, as faltas de pátria, os projetos de pátria. As promessas de pátria. Já não fossem suficientemente insalubres, enquanto estátuas de inexistência, esses fantasmas ainda são tristes, frustrados. Nunca chegarão a tocar, a cheirar o molhado da rua suja ou limpa da terra. Não tem línguas para sentir o que se movimenta sobre as peles e as crostas, nem mesmo tem voz para indulgenciar a consciência. São apenas palavras em anestesia, linguagem revolvida, convulsionante.

Enfim, não. Aqui e em qualquer realidade, exprime-se tudo, expressa-se, e a única coisa que falta, mesmo, é o valor dos fantasmas. Aqui, eles não se consagram nem se transam. Aqui não se consagram templos burocráticos, construídas a partir do anti-material humano.

Aqui e agora passam ondas, montanhas, frutos de existência. Concreto, abstração, problemática. Aqui é duro-mole, é fato-ficção, fricção-deslize. Aqui é a situação das mulheres, a desventura das mulheres e dos chamados homens. É o concreto e não se entende ainda o que é. Não se sabe muito, perto do que se apresenta nessa quimérica demonstração de realidade. Cidades-família, Estados particulares, casas-grandes famintas viciadas em obsessão em devoração das forças, empalhadoras dos bichos vivos. Quimera: aqui e agora as pessoas-mesa, os cantos de sala sociais, sujeira poética, potência mortal administrada pelas empresas da ordem e do progresso. É isso que se passa, é isso que se dá à existência. Aqui e agora: a Guerra sã! Guerra querida, odiada! Máquina desejante! Força das tempestades de carne e metal, onde as nuvens de cinzas se encontram concebendo raios de cor! É aqui e agora!

Ei! Você me ouve? Por favor, me ouça. Estou pedindo com todo o amor que não conheço.
Por favor! Peço-te: não se esqueça. Não fique aí, se esquecendo. Você se larga e se esquece continuamente. Rotineiramente. O metódico protocolar cassado do despachado catálogo. O semanal, a organização, o fármaco injetado nas veias, nas avenidas em coma, mantida por aparelhos celulares. É o que fazes. Fica se esvaziando em universos paralelos particulares, em nomes maternos, faltando e amando e apaixonando úteros protéticos. É medonho! Parece que você tenta alcançar a artificialidade máxima - a pureza - que, ironicamente, nunca existiu, assim como você. Então, eis a minha atitude: não mais te desejarei. Hoje eu fico louco, hoje eu te acuso! Tu inventas e reinventas, em forma de violência, a dor extrema de quem foi arrancado da plenitude ctônica. 

Você é Deus. Mas está ficando Sozinho, frígido. Porque esquece cotidianamente que quem criou a vossa mercê foi o Barro.
Então eu te pergunto: quem cria quem?

O céu está pálido. Você não me responde e também nem chega a se afetar. É porque te abandonaram a coragem e a inocência de criança. É porque o corpo nunca te tocou. Agora estás aí, estátua, sem mármore, liso como uma idéia, cheio de si. Residente, corrigido, certificado e significado.

Contudo, ainda alguém respira. A esperança é de qualquer coloração e mais. Vai até as frequências do imperceptível, perturba até a transparência em que repousam os fantasmas. A esperança, a fertilidade indomesticável, essa ventania viçosa de montanhas e vielas e casas abandonadas. Essa força respira (-se) e resiste e contesta a estrutura. Corrói qualquer contorno, qualquer documento, taxa, medição, código... corrói até mesmo a invisibilidade que sobre ela tentam projetar. Mais do que isso, ainda mais absurdo, ainda mais mágico, ainda mais extraordinário do que isso: ela te perdoa. E te ensina. 

Vai ver você foi apenas um excesso de arquitetura... Quem sabe? Quem sabe não fostes algo, quem sabe até tenhas existido! Não se saberá. E o não-saber é natural, porque é fértil. Fértil e forte.

Ouço uivos de loba. Canina é a presença das matas e dos morros, ao criar tudo que inspira, acolhendo, de coração selvagem, até mesmo a doença abissal! Até o ingrato fantasma, vai ter uma nova oportunidade. Ainda que a eternidade se excremente completamente através da cloaca cósmica, ainda que o tempo se canse e hiberne, ainda assim terás, ó Ausência, a próxima chance para nascer, comer e brincar. Ainda poderás devir loba, viver a terra e morrer no espírito. 

Nos encontraremos. Aqui, na corrente da consistência e da continuidade aberrante. Verás então que tudo - as mãos, o cuidado e o carinho - germina e encerra seus ciclos na mesma Terra, em outro Tempo. Porque, afinal, é assim que eu posso falar de você. Só assim, havendo uma nesga de existência, podemos nos referir a você que é dor secular! Que é doença infernal! Pois apenas sendo também teus filhos e tuas filhas, apenas sendo também tua cria, só assim  nós podemos nos voltar para ti e, em gesto de grande generosidade, te matar.

28/09/19

um pensamento sobre ídolos

 Começo de 2019

 

A natureza de um ídolo é a traição. Qualquer ídolo que você pense ou queira torná-lo assim, um ídolo, ele irá te trair. Apenas deve-se esperar o tempo necessário. Entenda: não porque é um mau ídolo. Aliás, fosse um mau ídolo, o processo todo seria mais fácil. Mas não é isso. Justamente os grandes ídolos, os que tem maior densidade da substância de ídolo, são os que estão inclinados a realizar a maior traição aos seus idólatras.




Quem, o que são ídolos? Homens, mulheres, mitos e semideuses, todos com seus grandes atos. Todos tem sua assinatura gravada na ressonância do tempo. É isso, certo? Seja por causa de uma ação revolucionária, seja porque realizaram magníficas obras artísticas, seja porque conseguem balancear uma dieta impecável com a manutenção de um brilho divino no cabelo e ainda sair sem cara feia nas mil fotos. O que os ídolos tem em comum, além e antes de serem traidores, é porque são a expressão de um valor fixado nas bases de culturas ocidentais, sem o qual uma subjetividade a ela aderida, colapsa. É o valor do livre-arbítrio construído, a conquista da liberdade, a virtude heroica. Ídolos por vencerem as dificuldades impostas pela matéria bruta, triunfarem sobre uma pré-concebida selvageria natural do mundo e assim propagarem algo de (supostamente) essencial da presença humana na Terra. Os ídolos são aqueles que sintetizam uma idéia de livre-arbítrio e sempre estão atrelados a realização de algo difícil. Precisamos deles para manter-nos dentro da nossa visão de humanidade. São aqueles que, à partir de suas forças próprias, de sua virtude própria, seja essa uma virtude intelectual ou física, enfim, à partir de sua propriedade individual, realizam um ato que transforma o mundo todo, ou pelo menos a parte do mundo que importa para quem o idolatra. São as provas cabais do sucesso humano. Mas como podemos sustentá-los assim? Do que são feitos? São de carne ou de mármore?

Depende. Existem aqueles ídolos do atletismo, cujo esforço, disciplina e cuja beleza de tentos nos faz renovar a crença na capacidade de realização humana. Outro exemplo, e talvez o mais comum, é do ídolo exemplo-de-vida. Geralmente alguém que começou no antro da brutalidade material - contextos sociais precários, normalmente associados à falta de civilidade - e conseguiu triunfar, destacando-se e adentrando na ágora do sucesso humano. Por último, outro tipo são os ídolos intelectuais. Os criadores de idéias. São os produtores do texto ou da teoria eficaz, ou seja, aqueles que atingiram a matéria com suas mentes. Síntese da civilização, do humano civilizado, que vence a animalidade natural. Estes são perigosos. Carregam em si toda uma simbologia da iluminação.

Gostaria de chamar atenção para o que me parece ser a melhor ilustração de seu poder de ídolo intelectual: aquelas frases de efeito isoladas que ficam se propagando nas mídias. Vemos chegando pelo céu aquelas grandes frases, carregadas por aspas e com um Nome pendurado abaixo; essas frases que, carregando o devido nome e a devida densidade lógica, nos causam grande impacto e nos tocam o corpo da alma. Pois tal é a potência da palavras. Mas acontece de vincularmos toda essa potência à esse nome, efeito da mera leitura de uma frase ou trecho genial no facebook. Fixa-se, mesmo que num pequeno grau, essa potência numa imagem e então ela passa a ser poder. E esse acúmulo vai aumentando conforme chegam mais e mais frases e idéias isoladas e historinhas de genialidade. São esses os alimentos que atualmente estão à disposição da nossa fome de ídolos "reais". Sabemos, pela nossa educação secular, que os heróis fictícios são apenas metáforas, e que no mundo real, feitos muito menores são mil vezes mais significativos, porque são reais.

Chega a um ponto que os ídolos tem o poder de sustentar o que nos faz crer na humanidade. Toda aquela carga simbólica de realização, de heroísmo, de esperança na inteligência, tudo isso vinculado e sustentado por um único nome-rosto. É bastante perigoso. Uma árvore-da-vida com uma raíz finíssima. Quanto tempo demora para descobrir alguma contradição entre a coerência infinita de uma lógica e a pessoa humana que a concebeu? Não muito. E não é apenas essa noção de humanidade que está refém desse cordãozinho umbilical.

Einstein, Marx, Caetano Veloso, Osho, Prem Baba, para citar alguns possíveis ídolos pop da classe média. São todos homens aparentemente dotados de grande consciência, certo? São grandes ídolos, bons ídolos. E eis que, quando assim o são, eis que grande parte daquilo que me faz dar sentido ao mundo está sustentado por eles. Pois eu, aqui no meu mundinho, onde abundam frustrações e faltam grandes feitos individuais, mundinho infestado de exemplos da mediocridade humana, tenho assim a prova de que, pelo menos em algum lugar, existem pessoas expressando esse heroísmo. Heroísmo, um sujeito capaz de mudar o mundo para melhor. Como foi dito, um valor fundamental para uma cultura ocidental que, ora messiânica, ora individualista, atravessa hoje e há um bom tempo a maioria dos corpos na Terra. Mas não é tão importante que eu ou que meus amigos sejamos heróis. É importante que em algum lugar, e principalmente longe dessa realidade cotidiana, cheia de sujeira e contradição, eles existam. Ora, aqui eles teriam que lidar com a fila da lotérica! Eles apareceriam no meu campo de visão formando uma imagem junto com aquele logotipo horrível da loja de smartphones! Não, seria péssimo. Além disso, com essa distância, posso fazer aqui a minha parte, livre de leões e aventuras fatais, enquanto os grandes arautos da humanidade triunfam, enquanto sustentam a minha imaginação fora de qualquer sombra de materialidade. É uma importância profunda para uma subjetividade de fundamento, de arborescência, em que muito está sustentado por pouco. Mas está claro que isso apresenta um grande perigo. A traição fica, assim, sempre à espreita.



Não aguentamos muito tempo sem alimentar nosso imaginário idólatra. Hora ou outra precisamos beber da fonte, renovar o sentido da vida para além das esteiras de asfalto que são o nosso dia-a-dia. Até porque a vida nos demanda, mesmo que não queiramos ver assim, feitos enormes e para realizá-los precisamos ter algum "chão" subjetivo: algo de sólido, alguma ideia que preencha o niilismo assombroso que mitiga a nossa força de desejar e nossa vontade de fazer. Então, quando não conhecemos outro remédio, vamos atrás dos ídolos, que chegam a nós na forma de ecos luminescentes de algum feito longínquo. Afinal, são nomes-rostos, memórias coletivizadas. Um bom meio de nos ligar a ídolos do tipo intelectual, por exemplo, é a leitura de um grande livro. Lemos um livro por sua eficácia prática? Quanto da leitura é apenas a alimentação da ideia de genialidade? Primeiro, queremos manter o autor no patamar de uma consciência pura, e assim manter dentro do real a possibilidade da coerência ilimitada. O gênio. O humano iluminando o mundo. Depois queremos, ao entender algo do  livro, sentir que pudemos ter um contato, mesmo que pequeno, com esse plano iluminado. Até porque precisamos de provas dessa iluminação na nossa própria experiência. Mas, claro, ler um livro é um privilégio danado esses dias. Necessita de tempo e espaço e silêncio: tudo aquilo que falta à maioria da população. Então, imersos no cotidiano - composto em grande parte de uma grande, frenética fuga do vazio existencial - devoramos frases salvadoras, exemplos de vida, atletas olímpicos, enfim, imagens que funcionam como bombas de sentido. As frases, as músicas, as imagens, os fatos biográficos... são exemplos rápidos de genialidade e heroísmo; alimentação rápida do imaginário, fast-food subjetivo. Isso funciona bem hoje em dia. As redes sociais são um reservatório inesgotável de luzes e gênios. Elas filtram de todo o conteúdo disponível a parte mais "gostosa", o neon mais bonito, que chega até nós quentinho e bem apresentado. E como estas redes estão razoavelmente conquistando um estatuto democrático, acabam mesmo ajudando a manter a população em contato com seus ídolos em sua forma histórica atual: ecos de luz, imagens, estímulos. Sejam os ídolos da novela, do esporte ou da academia.

 Não menos importante é o caso de quando criamos ídolos à partir das pessoas reais que conhecemos. Amigos, namoradas, artistas. Fotografamos um close certo e pronto. É muito comum que aquela lacração, aquela realização que por um momento nos parece perfeita ganhe uma qualidade heróica em nossa mente. Mas a partir desse ponto, a pessoa passa a ficar menos visível em detrimento do ídolo em que "ela" se tornou. Ela não se tornou nada. Ela estava no fluxo. Nós que a recortamos com nosso desejo. E assim passamos a agir como quem olha um quadro, criando uma distância onde não havia e possivelmente desumanizando nossa relações, num sentido "positivo". "Ah, mas a imagem que tenho de ti é tão perfeita!"
É exatamente esse o problema.

O problema é que essas imagens tem a espessura e a densidade de.... imagens. São recortes arbitrários da vida de uma pessoa, secções artificiais e sem vínculo seguro com o real. Nós temos esse péssimo hábito de colocar as imagens na frente das coisas enquanto corpos. E geralmente é bem pior. Chegamos ao ponto de colar essas imagens diretamente na nossa retina. Lentes ideais filtrando o mundo, afastando-nos de sua corporeidade errante, feita de pessoas. Pessoas são "erráveis", contraditórias, mas também densas e atravessadas de tantas subjetividades que só a singularidade, enquanto entrecruzamento de particulares e universais, pode equivaler. Sua realidade sempre escapa de qualquer imagem. Mas chegamos a nos satisfazer com essa realidade imagética, até porque essas nossas imagens são bastante complexas e intrincadas, nos parecendo suficientemente "reais". Contudo, elas não tem a textura, a imprevisibilidade inevitável do corpo, seus relevos, sua topografia marcada de história e natureza. E mais: as imagens, pela arbitrariedade de sua gênese, são projeções de nós mesmos. Acaba que elas funcionam como espelhos opacos, estas superfícies com a qualidade de refletirem a informação fotográfica que os atinge. E esses espelhos estão cada vez mais opacos, uma reação que nos conduz sutilmente a um maior aprisionamento em nós mesmos, o que no limite nos levará a uma individualidade absoluta. Estamos numa sala de espelhos, um espetáculo de luzes em que uma imagem remete sempre a outra. E aqui os ídolos são perfeitos. Progridem, triunfam, atestam e provam (o que queremos): a luz existe em estado puro. A questão é que a luz por si só não satisfaz. Não é tão saborosa quanto um alimento, uma aventura ou um abraço, por exemplo. Sua potência de nos abastecer tem um limite "claro". Em algum momento a tentação nos vence e vamos querer tocar essa imagem tão linda. Vamos querer encostar na pele de nossos heróis, nossos ídolos. É aí que as coisas mudam drasticamente. Para nossa profunda frustração, o que acabamos tocando é sempre o espelho: frio e liso. Alguns se arriscam com mais vontade e o espelho acaba quebrando, revelando assim sua materialidade brutal.

Quando uma pessoa mais destemida decide pesquisar sobre ou acompanhar a vida de seu ídolo acaba sempre encontrando um episódio que corrompe a imagem. Ouvimos dizer que Einstein mantinha uma relação quase senhorial com sua esposa ou lemos sobre um caso em que o iluminado Osho foi um violentador e ficamos confusos. Isso citando apenas os ídolos da inteligência. Poderíamos aqui citar o recente caso do bendito jogador de futebol, que causou uma enorme onda de reações nas redes. O que nos importa é que há tantos casos desses quanto existem ídolos. Procurando o suficiente em suas biografias ou esperando o tempo necessário, encontraremos o famoso "podre" e é aí que os nossos ídolos nos traem. É só questão de tempo.
Mas não precisamos nem ir tão longe, com esses exemplos trágicos. Pois o simples contato com a corporeidade de um ídolo já é o suficiente para quebrar o feitiço. Vê-lo em sua realidade prosaica, comum, mesmo que não esteja realizando nada de terrível. Já é uma sujeira. Por menor que seja, é um borrão no símbolo, no brasão. E é muito mais difícil ignorar uma sujeira quando ela é isolada, no meio de um oceano de pureza e brilho. 

Me parece sensato que, na impossibilidade de abolir as imagens, diversifiquemos nosso gosto. De vez em quando, pintemos com pincéis mais brutos, com gestos mais condizentes com a nossas vontades, e que o sujo e a sombra esteja sempre presente em nossos símbolos.

Quando saímos do plano imagético e caminhamos no plano do que é corpóreo, abundam os movimentos, os gestos, as mudanças drásticas de direção e velocidade. Alguns recuam, reconstroem o espelho. Outras continuam caminhando, e o pensamento, alimentado por essa nova realidade, começa a ser infestado de contradições, que brotam como ervas no asfalto. Às vezes ficamos absolutamente catárticos com a absurdidade do real, fitando em choque as diabólicas plantas que racham concreto. Outras vezes simplesmente somos preenchidos de sentido. Nesse caso, é que se está mais próximo da alteridade, mais na borda de si mesmo, mais em contato com a vida na sua pulsação perigosa e maravilhosa, mais próximo da realidade e sua factualidade impessoal.

Mas o que penso é que sempre se pode remodelar a imagem e criar para si uma nova versão do velho esquema. Limpar o sótão é trabalhoso, mas temos a tendência de preferir esse trabalho ao outro que é o de abandonar o velho lar e embarcar no fora. E por isso eu digo que me assusta o quão patéticos parecemos, nos sentindo traídos por uma imagem que nós mesmos criamos. "Miseráveis traidores! Jogaram na lama minha... minha... minha dependência". É duro, mas muito comum, que sintamos uma profunda angústia vivendo à base de ídolos, já que vem a ser bastante natural que as pessoas reais a que eles se referem destruam, com seus corpos desejantes, essa estabilidade. A subjetividade investida toda em símbolos é sujeita a profundas mortes, pois o real corpóreo não tarda e rompe com facilidade nossos esquemas imagéticos. Isso dói.

O que eu posso dizer, agora, me contradizendo, é que os ídolos não nos traem. Fiquemos calmos. Não nos traem porque não podem: eles são exatamente o que pensamos que eles são. Como é razoável de se pensar, sua natureza não lhes possibilita tal ato: são imagens fixas: estátuas: experiências cristalizadas num museu da memória. O que erra não são eles, coitados. Nem mesmo em movimento estão. O que erra são as pessoas às quais vinculamos essas imagens. E que bom. Isso, para mim, tem mais valor, pode vir até a acumular mais admiração em meu coração. 

Minha proposta é que, de vez em quando, prefiramos uma pessoa estranha a um símbolo perfeito, pois a diferença é um nutriente vital. Já os ídolos... bom, os ídolos são exatamente o que pensamos que eles são. Agora, quando é que vamos nos emancipar de fato? Apenas quando os ídolos acabarem? Talvez não acabem tão cedo. Até lá, podemos agir diferentemente e, ao invés de os replicarmos sistematicamente, os vandalizarmos cotidianamente. Não as pessoas. Os ídolos.

metal e apartamento

 Em algum momento de 2019

METAL E APARTAMENTO

no décimo andar
deixando de existir
restou apenas a janela

uma tela de imóveis

ver
ver uma torre de aço frio
como agulha de seringa
como jaula de correntes - as elétricas
de seu amor debatendo (-se)

pela janela do décimo andar
engolia placas
finas afiadas e compridas

então viveu
um peito nostálgico de guerras
estreitar-se como
uma antena de informações
aéreas

e nomes como os seus
e outros nomes
cortavam pulmões
sem culinária

naquela tarde
preferiu espadas
de modo que era tarde
e como sempre
o metal indiferente
quando penetra a carne

uma serpente chora mordendo a seiva rija da inocência

Em algum momento de 2019

 

 ?



o que faz
com que mansas codornas se formem
e desmanchem
nas veias que faz corroerem as veias
e também profundos diabos?

gritar
o que faz
fugaz, golpes potros
loucos
nas paredes sentidos
coices
do cérebro arqueado
de tesão?

o que faz
reais
as distâncias curvarem?
finais
os limites treparem
consigo?

o que mastiga?